Mhario Lincoln
Wanda Cristina da Cunha e Silva, natural de São Luís/MA, é mais que autêntica. Pertence diretamente ao DNA da Ilha do Amor, da Resistência e da luta poética para soerguer um ponto magnético no Mundo, que já foi "Athenas". A Athenas Brasileira, um "mundo paralelo" ao outro, que pertencia a Ártemis, Cárites, Ares, Apolo, Dioniso, Hebe, Hermes, Héracles, Helena, Hefesto, Minos, Perseu...
Como se os deuses lhe atribuíssem todas as virtudes, inclusive, a lírica, nessa vastidão do Oceano Atlântico, paradoxalmente nesse pequeno pontinho colonial, deste lado de cá da Europa. Mas, há por trás desse talento - e só talento não faz crescer - uma formação acadêmica sólida, um estudo hercúleo, uma vontade de conhecimento; Wanda é uma guerreira – honoris causa.
Agora imagina esse talento somado à formação de Wanda que, aliás, constitui-se em um trunfo que 'amola' a capacidade nata de gerir palavras, frases e ideias para transformá-las em contos, crônicas, romances, e composições musicais, tendo como complemento o Curso de Letras pela UEMA e Comunicação Social – Jornalismo pela UFMA, com especializações que incluem Língua Portuguesa, Comunicação e Reportagem, Teoria da Literatura e Produção de Texto, Educação Musical e Ensino de Artes, sendo pós-graduanda em Literatura Brasileira (Clássicos).
Tanto talento, várias Academias Literárias e de Arte no Brasil/Europa e, para completar, membro da gloriosa Academia Maranhense de Trovas, além de ser delegada da União Brasileira de Trovadores, em São Luís do Maranhão. Tem vários livros publicados e participações em diversas coletâneas maranhenses e nacionais, e um reconhecimento que lhe tem conferido diversos prêmios.
Um dia, por telefone perguntei a ela:
- E como você utiliza toda essa bagagem?
Ela respondeu:
- Sabe, Mhario, a arte utilizo como um instrumento de combate à violência contra a mulher, também. Afora isso, abordo em meus trabalhos uma poesia lírico-filosófica, política, especialmente sociais e de gênero. Mas faço prosa e abordo temas como superação e resiliência, denunciando os abusos de uma sociedade falocêntrica.
Com base no que li em "Notícias da Região Tocantina" (*), que publicou vasta matéria sobre ela, deduzi que a sua produção literária demonstra uma sensibilidade única por abordar temas complexos, como a finitude, a ressurreição e a feminilidade, como exemplificado em seus poemas abaixo publicados:
"(...)
FEMINICÍDIO
Ela ajoelhou-se. Ainda assim, ele cravou-lhe a faca.
(Minha opinião: o poema é uma denúncia contundente da violência de gênero).
SUPERAÇÃO
Caiu… Levantou.
(Minha Opinião: a simplicidade da frase esconde uma mensagem profunda sobre a capacidade humana de se reerguer após as adversidades.)
MÁ COMPANHIA
Quando Luzia conheceu Pedro, ela deixou de luzir.
(Minha Opinião: Wanda Cunha joga com a sonoridade das palavras para transmitir uma mudança de estado emocional).
RESSURREIÇÃO
Um pedaço de pão molhado no vinho
Dor no peito, morte certa.
A noite me assusta
Mas de manhã vou permitir
que testemunhas me vejam sair do túmulo intacta
depois da missa do terceiro dia.
(Minha Opinião: em primeiro lugar, as metáforas usadas por Wanda Cunha nessa 'epopeia pessoal' me levam a sentar na mesma mesa onde se sentou John Mayra Donne, poeta jacobita inglês e - em meu bestunto - o maior representante dos poetas metafísicos da época. Confesso que esse poema me impactou de tal modo que evocou em mim, uma atmosfera de mistério e transcendência. Exatamente porque explora a temática da ressurreição de maneira concisa e impactante. Além disso, entendível: a linguagem simples e direta, - ela é uma pessoa de grande humildade, se a gente enxergar por suas qualidades intrínsecas -, combinada com imagens vívidas, cria uma sensação de urgência e renovação. A escolha do 'pão molhado no vinho', aparentemente simples e demasiada conhecida pelos cristãos, como símbolo, é intrigante. O vinho, nesse caso, adquire uma nova dimensão. Ele se mistura ao pão, representando a união entre o terreno e o divino. A dor no peito e a morte certa sugerem um sofrimento profundo, quase insuportável. É simplesmente incrível viajar em busca da consciência geradora desse tipo de consciência lírica.)
C’EST FINI
A minha finitude
me amedronta,
e a minha alma
é devorada pelos gafanhotos.
Não preciso perder a matéria
para me sentir morta.
A própria vida se encarrega de ser a minha sepultura,
enquanto construo a minha lápide dentro de minhas incertezas.
Por isso, eternizo-me todo dia no epitáfio de minhas poesias.
(MInha Opinião: "C’EST FINI" a autora mergulha na reflexão sobre a mortalidade e a renovação da vida).
PESCADA
Meu olhar é um peixe que tiraste do mar
pra ver navios no teu porto.
Parto ao encontro de tua alma,
porta que se abre para
aventuras no gemido de tuas preces.
Meu peito, então, é aberto para extrair vísceras da paixão.
Peixe frito sobre a nudez de teu corpo:
naufrágio na banha quente.
(Minha Opinião: gostaria de me prender um pouco mais a essa produção porque, nesta poesia "Pescada", a poeta utiliza a imagem do peixe como - também - uma metáfora para a busca do desconhecido e o encontro com o outro. É essa linguagem sensorial empregada por Wanda Cunha nesse poema que, sob meus reflexos, demonstra não apenas sua habilidade técnica, mas também sua capacidade de provocar reflexões profundas sobre a condição humana e a complexidade das relações interpessoais. Nesse sentido, a citação de Paul Valéry onde ele diz que a poesia é a criação de analogias, se mostra pertinente, pois Wanda Cunha utiliza a poesia não apenas como uma forma de expressão artística, mas também como um meio de estabelecer conexões entre diferentes aspectos da experiência humana). Então, quando leio expressões como essa logo me vêm à cabeça o quanto de experiência de leitura e absorção do 'modus literarium' tem essa ludovicense, fato que a torna simples e encantadora. À propósito, nessa linha de pensamento da humildade, chamo pra mesa São Tomás de Aquino: "A humildade é o primeiro degrau para a sabedoria...".
(...)".
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*Texto escrito sobre publicação de "Notícias da Região Tocantina", de 19 de novembro de 2022.
**Foto: (Da autora) e original do texto (ibidem).
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