Ailton Krenac na ABL: novos tempos?
Renata Barcellos (BarcellArtes)
“ Não vou para lá ampliar a lusofonia. Vou promover uma sinfonia”. Krenac
O ingresso de Ailton Krenac na ABL é um sopro de esperança, ânimo de que mudanças poderão ocorrer na área cultural e, por consequência, educacional. Sempre a temática das culturas indígenas me interessou. Mas, infelizmente, a formação... Mesmo com a legislação Lei nº 11.645, de 10 março de 2008 na qual torna obrigatório o estudo da história e cultura indígena e afro-brasileira nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e Médio (Porém, não prevê a sua obrigatoriedade nos estabelecimentos de ensino superior para os cursos de formação de professores - licenciaturas), não é quase abordado e quando o é não de forma adequada nas escolas públicas e privadas. Mesmo, hoje, a graduação em Letras não capacita o docente devidamente. Se não houver um compromisso real com a prática pedagógica, nada será realizado pelo próprio profissional. Na SEEDUC RJ, este conteúdo é trabalhado no 3° bimestre do EM. A capacitação é urgente, fundamental. Aos poucos, ao entrevistar indígenas no Programa Pauta Nossa e/ou no BarcellArtes, se desbrava um novo mundo, novos horizontes. Por exemplo, em um bate-papo no Colégio Estadual José Leite Lopes, Porakê Munduruku esclareceu algumas questões: cacique, pajé, etnia e raça, sagrado e profano, indígena nas literaturas brasileiras, liberdade… Questões que não são esclarecidas nem nos livros. Disponível em: https://www.youtube.com/live/kzwBGkm22kA?feature=shared
2024 é um ano marcado por um divisor de águas. A entrada de Krenac representa uma “porta que se abre” para um futuro promissor não só nas culturas mas também na educação. Com ele está ingressando as 305 etnias e 200 línguas diferentes. Segundo o Censo 2022 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com o apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) sobre os povos indígenas, o levantamento aponta que a população indígena do país chegou a 1.693.535 pessoas. Isso representa 0,83% do total de habitantes e conforme o IBGE, pouco mais da metade (51,2%) da população indígena está concentrada na Amazônia. Vale ressaltar que só neste senso foi inserido a categoria cor/raça indígena. Hoje, as categorias utilizadas são: preto, pardo, branco, indígena e amarelo. A evolução já tinha iniciado, infelizmente, séculos depois da invasão. A ABL também tinha essa dívida para com os povos originários. A partir deste mês emblemático de abril esta instituição não será mais só o espaço elitizado e defensor da língua do colonizador, mas também abrirá espaço para se refletir e preservar as línguas e as culturas dos povos originários. Nestas, as literaturas dos povos originários. As Literaturas Indígenas (produzida pelos indígenas na língua deles ou em Português). E não a Literatura Indianista como a retratada pelo outro como a obra Iracema de José de Alencar. Em obras como esta o indígena é personagem, escrita por não-indígena. Mais, especificamente, trata-se dos escritos do período do Romantismo brasileiro, no qual buscava representá-lo a partir do olhar de não nativo. O que corresponde a uma imagem romantizada ou caricata e, assim, não condizente com a realidade.
Minibiografia: Ailton Alves Lacerda Krenak nasceu em Itabirinha, Minas Gerais, em 1953, na região do vale do Rio Doce. É ambientalista, filósofo, poeta, escritor e doutor honoris causa pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Tem trajetória marcada pelo ativismo socioambiental e de defesa dos direitos dos povos indígenas. Participou da fundação da Aliança dos Povos da Floresta e da União das Nações Indígenas (UNI).
Tem mais de 15 livros publicados, dentre os quais: A vida não é útil (2020), Futuro ancestral (2022) e Ideias para adiar o fim do mundo (2019). Alguns deles foram traduzidos para mais de 13 países. Conquistou o Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano, da União Brasileira dos Escritores (UBE), em 2020. Atualmente, vive na Reserva Indígena Krenak, no município de Resplendor, em Minas Gerais.
Ailton Krenak foi o primeiro indígena a ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL). Tomou posse na sexta-feira (dia 5 de abril), em cerimônia realizada no Petit Trianon, na sede da organização no Rio de Janeiro. Nos ritos de posse, participaram os membros da ABL Heloísa Teixeira, Arnaldo Niskier, Fernanda Montenegro e Antonio Carlos Secchin. A comissão de entrada foi formada por Edmar Lisboa Bacha, Joaquim Falcão e Ruy Castro. Já a de saída por Ana Maria Machado, Geraldo Carneiro e Antônio Torres. A eleição ocorreu no mês de outubro de 2023. Krenak assume a Cadeira de número 5. Esta ficou vaga após o falecimento do cientista político e historiador Jose Murilo de Carvalho, em agosto do mesmo ano. Seus concorrentes foram a historiadora Mary Del Priore e o indígena Daniel Munduruku, obtiveram 12 e 4 votos, respectivamente. Já ele, 23 votos.
A partir do dia 5 de abril, a ABL passou a ser o símbolo de diversidade cultural. A expectativa é de que o seu ingresso propicie uma renovação, atualização dos livros didáticos (a imagem dos indígenas e suas histórias sejam relatadas por eles mesmos). Também nas ementas do curso de Letras para (de fato) sejam ofertadas disciplinas que contemplem as culturas (e as literaturas) dos povos originários. E na área ambiental através da conscientização quanto à preservação da flora e da fauna. Isso apesar de todo seu pessimismo quanto ao futuro da humanidade, como declarou na Carta Capital, em 2022: “na obra Ideias para dizer o fim do mundo eu detono com esse papo de humanidade. Felizmente, o livro está sendo traduzido no Japão. Também já foi traduzido na Turquia, na Holanda, na Noruega, na Dinamarca e na França. Está espalhado por aí. Eu estou panfletando essa ideia de que a humanidade está entrando em uma espécie de convulsão. Não tem nada a ver com revolução, não tem nada a ver com nenhuma transformação tão visível, mas ela está experimentando um sentimento de autodissolução”. Dessa forma, a ABL tem uma grande responsabilidade para que novos passos sejam dados em prol de um futuro promissor e, de fato, conscientizador, no qual os direitos humanos sejam respeitados.
Em uma postagem nas redes sociais, a ABL declarou que a eleição de Ailton: “Sua voz é fundamental para o cenário atual, pois é elo entre a rica herança cultural e histórica dos povos originários e a literatura nacional. Esta eleição é um marco na ABL, que reafirma o seu compromisso em promover a diversidade e a inclusão na instituição e na literatura brasileira”.
Ao chegar à ABL, Krenac foi indagado sobre o significado de seu ingresso na ABL, e disse: "Espero que o Brasil inteiro, os outros brasileiros, possam entender que estamos virando uma página da relação da ABL com os povos originários. Venho para cá para trazer línguas nativas do Brasil para um ambiente que faz a expansão da lusofonia. Trago para cá as línguas indígenas. Acho que isso faz uma diferença muito grande na história do Brasil. Torço para que haja uma mudança na ABL, e outras diversidades étnicas que temos no Brasil também possam ganhar espaço". Em outro momento, Krenak falou da pluralidade indígena que ele representa ao tomar posse na instituição. Segundo ele: "Desde que me convidaram ou me animaram para ocupar essa cadeira número cinco, eu me perguntava: ‘Será que nessa cadeira cabem 300?’. Como dizia Mario de Andrade, eu sou 300. Olha que pretensão. Eu não sou mais do que um, mas eu posso invocar mais do que 300. Nesse caso, 305 povos, que nos últimos 30 anos do nosso país, passaram a ter a disposição de dizer: 'Estou aqui'. Sou guarani, sou xavante, sou caiapó, sou yanomami, sou terena".
Uma das principais propostas de Krenak para sua atuação na ABL é a criação de uma plataforma dedicada às línguas nativas brasileiras. Semelhante a uma já existente, esta nova permitiria o acesso a um vasto acervo de imagens, textos, filmes e documentos. Assim, promovendo a diversidade linguística do país e ajudando a preservar o patrimônio imaterial indígena.
Para finalizar, o depoimento de alguns parentes sobre o ingresso de Krenac na ABL. Márcia Kambeba (escritora, poeta e ativista indígena): “Posse de Ailton Krenak tem um significado importante para as lutas indígenas. A presença dele simboliza uma conquista não só para a literatura indígena como para o movimento indígena, pois vejo como caminhos que se abrem para fazermos ocupação com diálogos desconstruindo olhares e pensamentos que nos invisibilizam. Ailton Krenak é um pensador e como tal saberá desbravar novos caminhos nesse espaço até então por nós não ocupado. Que venham mais indígenas ocupar as cadeiras na ABL porque somos a tessitura de nossos ancestrais”.
Márcia Mura (antigo Iruri, território ancestral Mura. Indígena escritora, contadora de história, coordenadora do coletivo Mura e pesquisadora do Núcleo de História Oral Usp e em rede): “Uma satisfação falar sobre a posse de Krenac na ABL. Como ele mesmo disse, ele não assumiu a cadeira sozinho. Assumiu junto com todos os povos indígenas. Representando um lugar que traz a voz, a letra e a percepção indígena. Ailton Krenac fez a fala não só pelo povo dele como também por todos os povos indígenas. Aqueles considerados pelo Estado e também os que não são. Existem muitos povos considerados extintos. Mas estão existindo e lutando pelo direito de EXISTIR. Mesmo de longe, assisti à posse. E ela representa se sentir parte desse momento histórico. Fazer parte disso. E fazer parte dessa memória de todos os povos indígenas deste território Pindorama”.
Maria Lídia Tupinambá (pedagoga, coordenadora da Rede de Articulação Nacional dos Indígenas em contexto e migrantes – RENIU): “Foi durante a Assembleia Constituinte, em 1987, que Ailton Krenak protagonizou uma das cenas mais marcantes. Em seu discurso na tribuna, pintou o rosto com tinta preta para protestar contra o que considerava um retrocesso na luta pelos direitos indígenas. Mais uma vez o escritor indígena e ativista ambiental faz história se tornando o primeiro indígena imortal da Academia Brasileira de Letras ocupar a cadeira número 05. Enriquecendo esse espaço com sua "flecha" de conhecimento e ancestralidade. Autor ganhou notoriedade nos últimos anos após a publicação de algumas obras: A vida não é útil, Ideias para adiar o fim do mundo e O amanhã não está à venda. Ocupar esse espaço intelectual tem uma grande importância para os povos indígenas. Temos um indígena que vai representar 305 povos de cultura e línguas diferentes nesse espaço. Uma reparação histórica e literária. Antes os imortais escreviam sobre os indígenas e hoje temos um imortal indígena que escreve para os todos lerem”.
Porakê Munduruku: escritor, contador de estórias, pesquisador, articulador e coordenador do @teko.artivismo : disponível em: https://www.youtube.com/live/kzwBGkm22kA?feature=shared. Que promova uma bela sinfonia!
SETEMBRO SETEMBRO AMARELO: “ATENÇÃO! SINAL AMARELO”
MUNDO NOVO “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.
Mohana e Cassas “PLENITUDE HUMANA”: O LIVRO EM QUE JOÃO MOHANA COLOCOU O HOMEM DIANTE DE SI MESMO
Literatura Gótica Aluísio Azevedo Gótico: Lourival Serejo restitui uma vertente da obra do escritor ao debate literário brasileiro
EXCLUSIVO A CURIOSIDADE “MATA”. MAS, ANTES, DIVERTE — E ENSINA
Convidados APB 29 DE AGOSTO DO IPIRANGA AO TRATADO DE PAZ E AMIZADE Mín. 12° Máx. 19°
Mín. 11° Máx. 18°
Tempo nubladoMín. 8° Máx. 22°
Tempo limpo
Coronel Carlos Furtado FALMA: unidos, conquistamos espaço para a literatura maranhense
José Neres “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.
Academias Brasil/Exterior Coirmãs JOÃO AURÉLIO DO VALE: “ENQUANTO HOUVER QUEM CARREGUE ESSA BANDEIRA, A HISTÓRIA DO MEU PAI NÃO IRÁ MORRER”
Esmeralda Costa BÁRBARA DE ALENCAR: UMA HISTÓRIA QUE CAMINHA ENTRE VERSOS E MEMÓRIAS