A POÉTICA DE CELSO BORGES
Linda Barros | professora e atriz
Dentro das menores embalagens podem estar os mais incríveis conteúdos. De uma simples caixa, é possível arranca-se, como se fosse um filho que vem à luz, palavras que se transformam em poesia. Uma caixa pode tanto ser um mero objeto quanto um bom esconderijo. Se nelas podemos guardar segredos, de dentro delas podem voar todas as possibilidades: tristezas, agonias, felicidade, prazer, intrigas, fofocas... Enfim, todas as vertentes do percurso da vida.
Assim é a enigmática obra “CarimboCarinho”, de Celso Borges, lançada recentemente em nossa capital, em um espaço que também muito contribui com a literatura, com as ideias (des)ordeiras das coisas, um espaço tão mágico quanto a caixa de poemas.
Celso Borges é daqueles autores que transpiram criatividade. Ele usa as palavras como forma de enlaçar a poesia a uma realidade nua e crua, como “uma flor é uma flor é uma flor é uma flor é uma floresta”. Como “no meio do caminho tinha um carimbo carinho”, o leitor passa a perceber que uma imensidão de poesia se abre a sua frente, mal abre o livro-caixa. Em cada carimbo-poema fica a impressão de que “de tanto olhar teus olhos mudou a cor dos meus olhos”.
Autor de “Persona non grata”, “No instante da cidade”, “Pelo Avesso”, o ludovicense Antônio Celso Borges Araújo é poeta, letrista, jornalista e produtor cultural. É ainda autor de No Instante da Cidade (1983), Pelo Avesso (1985), Nenhuma das Respostas Anteriores (1996) e Cantanto (1981) e XXI, um livro/CD com poemas musicados e cantados por Chico César, Rita Ribeiro e Zeca Baleiro, entre outros.
E assim como toda sua obra, Celso Borges, nos emociona com cada verso seu. Como se não bastasse, usa toda sua criatividade, enchendo seus textos de melodia e harmonia, carregado de muito significado. Celso não poupa “os cabelos brancos” de nossa ilha dos azulejos, dando-lhe musicalidade e beleza cantada em versos singulares que nos encanta e nos faz refletir sobre beleza e poesia:
cidade dos azulejos
ilha cercada de inveja por todos os lados
na cabeça da serpente: inveja
no chifre do touro encantado
nos lençóis do rei dom sebastião
na carruagem de ana jansen: inveja
nos bobos da corte de luiz XIII
no moustache de la touche, sr. de la ravardière: inveja
nos restos mortais do coronel de milícias Joaquim silvério dos reis
enterrado na igreja de s. joão, em 1819: inveja
nos leões do palácio dos leões
nos domadores: inveja
O texto segue em linhas de metáforas com profundo significado, onde não deixa por menos as lacunas que enriquecem a cultura da Ilha Rebelde, nem mede palavras para mostrar as mazelas da nossa linda Ilha do Amor.
Quarto livro do autor dentro da chamada série livros curtos, CarimboCarinho pertence à chamada série “Poéticas adjetivas”. Antes vieram, A árvore envenenada, com fotografia de Márcio Vasconcelos; O Muro e Ponta D’Areia é Ponta D’Areia, ambos, com projeto gráfico do webdesigner e cantor Claudio Lima. Nos 15 poemas do livro, o jogo de palavras e de silêncios demonstra que é possível carimbar poemas tanto nas folhas de papel quanto na alma e nos carinhos dos leitores.
O uso da técnica do carimbo como simbologia holográfica e construção magistral em cada poema dialogam com o projeto gráfico, favorecendo um olhar crítico e as singularidades que transparecem em cada verso, como em “No cinema mudo, quando Charles Chaplin nunca vai dizer eu te amo”. Os textos do livro deixam transparecer toda inquietude e lirismo do autor e acabam levando o leitor a fazer uma reflexão sobre si e sobre outro.
Nessa obra, o autor permite que o leitor tenha liberdade de mover as páginas a seu bel prazer podendo haver continuidade ou interrupção da leitura, sem a preocupação de haver atropelamento das ideias contidas no texto.
Como em uma caixa de Pandora, ao abrir CarimboCarinho, o leitor pode mergulhar na magia da poética de Celso Borges, com suas imagens e musicalidade que que são pura sinfonia para olhos e ouvidos dos leitores.
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