De José Neres: “HOMOAFETIVIDADE E LITERATURA MARANHENSE”
Este texto recebe o “Touro de Ouro” desta semana pela importância do tema e pela beleza criativa do texto.
26/09/2025 às 08h21Atualizada em 26/09/2025 às 14h27
Por: Mhario LincolnFonte: José Neres
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(Original do Texto).
Texto de José Neres recebe "Touro de Ouro"."Um texto é bom quando nos dá prazer, quando nos faz sentir que somos coautores, que participamos de sua construção." — Roland Barthes, em O Prazer do Texto (1973).
Concordo com todas as letras. Porque ao apreciar este texto do professor José Neres (sim, é um resgate elegante e necessário) não pude deixar de chamar para a mesa o grande Barthes. Ele defende que um bom texto literário é aquele que provoca o leitor, que não entrega tudo de forma óbvia, mas permite camadas de interpretação. É esse texto que as editorias da Plataforma Nacional do Facetubes concedem o desta "Touro de Ouro", desta semana. #bomdia feliz a todos e ótima leitura.
*Mhario Lincoln, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes (www.facetubes.com.br).
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RELAÇÕES HOMOAFETIVAS NA LITERATURA MARANHENSE
José Neres
Há crime nisso? Eu gostar da pessoa do mesmo sexo?
Diga-me. Eu sou um criminoso por isso?
(Fala do delegado Pablo no livro Mortes em Cadeia, de Pedro Neto)
Não sei se alguém já fez, está fazendo ou pensa em fazer, mas acredito que as personagens da literatura maranhense que assumem (ou ocultam) sua homossexualidade dariam margens para belos trabalhos de pesquisa.
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Vez ou outra, quando aparece um edital aberto para apresentação de comunicações em congressos acadêmicos, fico com a vontade de apresentar um trabalho com essa temática. Mas, por algum motivo, sempre enveredo por outras linhas. Dia desses, comecei a enumerar romances brasileiros com essa vertente, creio que cheguei sem muito esforço a sessenta e oito títulos já lidos, desde o Bom Crioulo (Adolfo Caminha) até Outono de carne estranha (Airton Souza).
Um dia dará certo. Mas, enquanto esse dia não chega, vou apontar abaixo algumas obras da literatura maranhense que apresentam personagens homoafetivos. Claro que existem muitos outros livros que desconheço e muitas outras personagens que também mereceriam aparecer no estudo. Ficarão para a próxima...
Embora não seja uma narrativa plenamente literária, a mais remota menção à homossexualidade no Maranhão se deu no livro Viagem ao norte do Brasil feita nos anos de 1613 a 1614, um estudo feito pelo padre Ives D’Evreux, que conta o episódio da morte do rapaz tupinambá conhecido como Tibira do Maranhão e que foi executado publicamente pelos religiosos por causa de sua sexualidade que fugia aos padrões aceitáveis pela Igreja da época. Essa história foi retomada em vários estudos, como é o caso do livro A Inquisição no Maranhão, de Luiz Mott e Os Devassos do Paraíso, de João Silvério Trevisan, que considera esse o primeiro crime “homofóbico registrado no Brasil", ideia compartilhada também por Luiz Mott e outros pesquisadores.
Esse acontecimento serviu como inspiração para um poema escrito pela cordelista Salete Maria, que tem como título Tibira do Maranhão: Santo Mártir Homossexual, com uma das estrofes reproduzida a seguir:
Trata-se da execução De um índio homossexual Que viveu no Maranhão E lá teve final Com um tiro de canhão Lançado por um cristão Que “lutava contra o mal”.
Já no âmbito estritamente literário, no romance naturalista O Cortiço, de Aluísio Azevedo, temos a figura de Albino, que é descrito pelo narrador como “um sujeito afeminado , fraco, cor de aspargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa só linha, até ao pescocinho mole e fino”. A figura de Albino no livro é geralmente apresentada de forma caricata e isenta de mistério. O que não acontece com relação a Léonie, que vai ganhando densidade ao longo da narrativa, culminando no jogo de sedução que empreende para seduzir a até então inocente Pombinha, que, meses depois, desapareceu de casa, indo, para desgosto da mãe, viver com Léonie em um quarto de hotel.
Na peça O Patinho Torto ou os mistérios do sexo, de Coelho Neto, a personagem Eufêmia se vê como “um envelope de cartas trocadas”. Ela destoa do padrão esperado para uma mulher do início do século XX: fuma, sonha em participar da Guerra, tenta fazer a barba e usa trajes masculinos. Seu noivo, Bibi, tem que se conformar com a repentina mudança de sua amada. É um livro repleto de sutilezas e que leva o leitor a refletir sobre algumas regras de sexualidade impostas pela sociedade da época.
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São essas imposições e normativas sociais que angustiam e deprimem Otávio, personagem do romance Teias do Tempo, de Conceição Aboud, levando-o inclusive a pensar em suicídio por não conseguir assumir sua homossexualidade de forma aberta perante uma sociedade que reprime e não sabe conviver com as diferenças.
Mesmo não sendo o tônus central de sua produção literária, Josué Montello também deixou suas contribuições acerca das percepções literárias sobre a homoafetividade. Seu livro mais conhecido sobre o assunto é Uma sombra na parede, que traz a tórrida e então proibida relação amorosa entre Ariana e Malu, duas amigas que têm atrações físicas uma pela outra. No livro, chama atenção também a figura de Mundiquinha Dourado, uma mulher independente que é acusada de ser uma virago por conta de sua aparência máscula e de suas atitudes tidas como pouco femininas.
No conto O Pai, que está enfeixado no livro Um rosto de menina Montello novamente toca no assunto. Desconfiado de que o pai está enganando a mãe com uma funcionária da empresa, Alexandre decide seguir o genitor. Ao descobrir que o pai tem, na verdade, um caso com outro rapaz, o filho não suporta conviver com essa constatação e decide pôr fim à própria vida.
No livro O homem que derreteu e outros contos, o escritor e jornalista Marcos Fábio Belo Matos apresenta ao leitor o conto intitulado Lembranças, no qual dois antigos colegas se encontrem em uma viagem de ônibus. Os dois nem mesmo chegam a se falar, mas ao ouvir a notícia de que o colega está prestes a casar-se, o outro rapaz traz á memória os temos em que foram felizes, quando eram, furtivamente, amantes.
No conto/novela Ventos de verão, que é um dos textos do livro Os novos degredados do Éden, o professor e escritor Inaldo Lisboa apresenta a gênese e a evolução do tórrido romance envolvendo o sensível Dino e o pragmático Mauro. A mesma pressão social e parental sofrida por Otávio em Teias do Tempo, de Conceição Aboud, também atormenta Dino em Ventos de Verão, levando-o a efetivar o suicídio. No livro, reinam as denúncias sociais e o clima de hipocrisia, pois mesmo outros rapazes que declaram já ter tido experiências homoeróticas condenam a relação entre os dois protagonistas.
A romancista Dorinha Marinho, em As diferentes faces do amor, constrói um enredo no qual dois casais homoafetivos se cruzam para compor um cenário que envolve crimes, superação, estupros, preconceitos e aceitação. De um lado está a médica e ex-freira Olívia vivendo uma relação com a jovem e sofrida Lucy. Do outro, estão Homar e Sandro. A autora consegue mesclar as narrativas de modo a despertar no leitor a simpatia por essas pessoas que conseguem estabelecer uma harmonia pessoal dentro de um conflito social.
Outra personagem interessante é o delegado Pablo Rodrigues, do romance Mortes em Cadeia, de Pedro Neto. Imiscuída em uma nuvem de mistério e em uma série de crimes que abalam uma pacata cidade, a narrativa vai, aos poucos, descortinando as ações delituosas de um delegado que se utiliza do poder emanando de seu cargo para conseguir sexo com os homens que estão presos na cela de sua delegacia. Mas esse não é o ponto final do mistério. Há outras fraturas sociais que são expostas ao longo da narrativa.
Algumas dessas fraturas aparecem também em Amores, Marias, Marés, romance de Chico Fonseca, ambientado na São Luís da década de 1960. No centro da história estão a professora e historiadora Maria Ellena e a jovem estudante Mariana. Durante pesquisas sobre a participação dos negros na história do Brasil e do Estado, as duas acabam se envolvendo. O livro traz diversas abordagens que perpassam por questões sociais, sexuais e familiares.
Para finalizar esta breve lista, temos também o livro A moça da limpeza, de Lindevania Martins. Ali, é possível encontrar o conto A hora da verdade, que mostra o constrangimento de Fernanda, uma viúva de 28 anos, que, durante uma entrevista com o dono da empresa na qual trabalha, tem que declarar com quantos homens havia ido para a cama no último ano. Incisiva, ela diz que não dormiu com nenhum homem no período indagado. O que é verdade, pois logo o leitor descobre que ela vive com Marcela, quem é companheira desde a morte do marido.
Pronto. Fizemos uma sumária lista de livros maranhenses que tocam no assunto da homossexualidade. Um tema que sempre deve ser tratado com o devido respeito e pode dar margens para muitos e variados estudos. Nem sabemos se utilizamos as nomenclaturas adequadas, mas aconselhamos, antes de encerrar, que todos os interessados no assunto leiam o livro de poemas Rapaz, publicado pelo falecido poeta Mariano Cassas. É um livro raro, mas que vale a pena ser lido.
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José Neres
ACADEMIA MARANHENSE DE LETRAS
Cadeira: 36
Naturalidade: São José de Ribamar, Maranhão
Data de Nascimento: 17 de fevereiro de 1970
Como pesquisador, José Neres sempre teve interesse por assuntos ligados à literatura, principalmente a maranhense, à Educação e aos estudos linguísticos. No mestrado, orientado pelo professor Afonso Celso Tanus Galvão, desenvolveu pesquisa sobre os processos metacognitivos e autorregulativos na aprendizagem de estudantes de pré-vestibulares e sobre estudo deliberado. No doutorado, foi orientado pelo professor Gilberto Luiz Alves e estudo o meio ambiente na obra poética de José Chagas.
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Em 2014, foi eleito para a Academia Maranhense de Letras, ocupando a cadeira 36, deixada vaga pelo falecimento do grande intelectual Ubiratan Teixeira, e foi recebido pela professora e acadêmica Ceres Costa Fernandes em 20 de março de 2015. Em 2021, foi eleito para a cadeira 38 da Academia Ludovicense de Letras, patroneada por Dagmar Destêrro, sendo recepcionado pelo poeta e professor Antônio Ailton. Também faz parte dos quadros da SOBRAMES-MA e da Academia Poética Brasileira. É sócio-correspondente da Aicla e da AVLJ.
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Raimundo Fontenele Há 8 meses Barra do Corda MAMuito bom texto, abordando um assunto, infelizmente ainda tabu, de forma singela, elegante, sincera.
alcina maria silva azevedoHá 8 meses Campinas- SPEu abomino quem caçoa e faz piadas, sobre a homossexualidade, sem conhecer e entrar no âmago dessas pessoas, que geralmente tem uma sensibilidade linda e diferente das demais.
Carlos Augusto Furtado MoreiraHá 8 meses São LuísO texto de José Neres é uma excelente e necessária iniciativa de mapeamento e análise introdutória da representação da homoafetividade e da homossexualidade na literatura produzida no Maranhão ou por autores maranhenses. A abordagem é pertinente, a seleção de obras é rica e o propósito acadêmico é claramente definido.
Carlos Augusto Furtado MoreiraHá 8 meses São LuísÉ, em verdade, um documento essencial para quem deseja estudar a história da sexualidade e as representações de gênero na cultura maranhense. Ele não se propõe a ser uma análise exaustiva, mas sim um roteiro de pesquisa inspirador e bem fundamentado, que cumpre o objetivo de tirar o tema da invisibilidade, mostrando a profundidade e a longevidade dessa discussão na produção literária do Maranhão.
Carlos Augusto Furtado MoreiraHá 8 meses São LuísComo leitor instigado pela provocação de Mhário Lincoln, sugiro que José Neres em outra oportunidade nos brinde com a ampliação deste material, em um artigo ou ensaio mais extenso. O tema e a riqueza das referências apresentadas certamente merecem um aprofundamento.