José Neres
Não sei se alguém já fez, está fazendo ou pensa em fazer, mas acredito que as personagens da literatura maranhense que assumem (ou ocultam) sua homossexualidade dariam margens para belos trabalhos de pesquisa.
Vez ou outra, quando aparece um edital aberto para apresentação de comunicações em congressos acadêmicos, fico com a vontade de apresentar um trabalho com essa temática. Mas, por algum motivo, sempre enveredo por outras linhas. Dia desses, comecei a enumerar romances brasileiros com essa vertente, creio que cheguei sem muito esforço a sessenta e oito títulos já lidos, desde o Bom Crioulo (Adolfo Caminha) até Outono de carne estranha (Airton Souza).
Um dia dará certo. Mas, enquanto esse dia não chega, vou apontar abaixo algumas obras da literatura maranhense que apresentam personagens homoafetivos. Claro que existem muitos outros livros que desconheço e muitas outras personagens que também mereceriam aparecer no estudo. Ficarão para a próxima...
Embora não seja uma narrativa plenamente literária, a mais remota menção à homossexualidade no Maranhão se deu no livro Viagem ao norte do Brasil feita nos anos de 1613 a 1614, um estudo feito pelo padre Ives D’Evreux, que conta o episódio da morte do rapaz tupinambá conhecido como Tibira do Maranhão e que foi executado publicamente pelos religiosos por causa de sua sexualidade que fugia aos padrões aceitáveis pela Igreja da época. Essa história foi retomada em vários estudos, como é o caso do livro A Inquisição no Maranhão, de Luiz Mott e Os Devassos do Paraíso, de João Silvério Trevisan, que considera esse o primeiro crime “homofóbico registrado no Brasil", ideia compartilhada também por Luiz Mott e outros pesquisadores.
Esse acontecimento serviu como inspiração para um poema escrito pela cordelista Salete Maria, que tem como título Tibira do Maranhão: Santo Mártir Homossexual, com uma das estrofes reproduzida a seguir:
Já no âmbito estritamente literário, no romance naturalista O Cortiço, de Aluísio Azevedo, temos a figura de Albino, que é descrito pelo narrador como “um sujeito afeminado , fraco, cor de aspargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa só linha, até ao pescocinho mole e fino”. A figura de Albino no livro é geralmente apresentada de forma caricata e isenta de mistério. O que não acontece com relação a Léonie, que vai ganhando densidade ao longo da narrativa, culminando no jogo de sedução que empreende para seduzir a até então inocente Pombinha, que, meses depois, desapareceu de casa, indo, para desgosto da mãe, viver com Léonie em um quarto de hotel.
Na peça O Patinho Torto ou os mistérios do sexo, de Coelho Neto, a personagem Eufêmia se vê como “um envelope de cartas trocadas”. Ela destoa do padrão esperado para uma mulher do início do século XX: fuma, sonha em participar da Guerra, tenta fazer a barba e usa trajes masculinos. Seu noivo, Bibi, tem que se conformar com a repentina mudança de sua amada. É um livro repleto de sutilezas e que leva o leitor a refletir sobre algumas regras de sexualidade impostas pela sociedade da época.
São essas imposições e normativas sociais que angustiam e deprimem Otávio, personagem do romance Teias do Tempo, de Conceição Aboud, levando-o inclusive a pensar em suicídio por não conseguir assumir sua homossexualidade de forma aberta perante uma sociedade que reprime e não sabe conviver com as diferenças.
Naturalidade:
Como pesquisador, José Neres sempre teve interesse por assuntos ligados à literatura, principalmente a maranhense, à Educação e aos estudos linguísticos. No mestrado, orientado pelo professor Afonso Celso Tanus Galvão, desenvolveu pesquisa sobre os processos metacognitivos e autorregulativos na aprendizagem de estudantes de pré-vestibulares e sobre estudo deliberado. No doutorado, foi orientado pelo professor Gilberto Luiz Alves e estudo o meio ambiente na obra poética de José Chagas.
Em 2014, foi eleito para a Academia Maranhense de Letras, ocupando a cadeira 36, deixada vaga pelo falecimento do grande intelectual Ubiratan Teixeira, e foi recebido pela professora e acadêmica Ceres Costa Fernandes em 20 de março de 2015. Em 2021, foi eleito para a cadeira 38 da Academia Ludovicense de Letras, patroneada por Dagmar Destêrro, sendo recepcionado pelo poeta e professor Antônio Ailton. Também faz parte dos quadros da SOBRAMES-MA e da Academia Poética Brasileira. É sócio-correspondente da Aicla e da AVLJ.
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