
Editoria de Pesquisa e Extensão
"A Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes existe para fazer o que o bom jornalismo cultural nunca terceiriza: uma constante busca, com método e critério, pelo melhor que a web produz — e devolver ao leitor, com contexto, crédito e rigor, aquilo que merece ser lido de novo. É um trabalho de curadoria ativa: localizar textos primorosos, checar autoria e origem, recompor o momento histórico e oferecer portas de entrada para novas leituras. Na seção TEXTOS ESCOLHIDOS, essa busca se transforma em vitrine: obras-primas que ratificam a qualidade de autoras e autores, de diferentes escolas e gerações, compondo um cenário que atravessa temas, estilos e geografias. Não se trata de mera republicação, mas de um gesto editorial que ilumina conexões, preserva a integridade das vozes e amplia a leitura pertinente. É aqui que se mostra, de forma inequívoca, DE COMO O BRASIL E O EXTERIOR podem produzir textos tão interessantes — como este, abaixo — e de como a boa curadoria faz a literatura circular com mais alcance, responsabilidade e encanto". (Mhario Lincoln, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes).
TEXTO ESCOLHIDO
Utopias na visão do último missionário, segundo Cunha Santos
*Manoel dos Santos Neto
"Neste final de semana, encontrei nos guardados de meu arquivo pessoal mais uma crônica do poeta e jornalista Cunha Santos (1953-2021), que fala sobre utopias, otimismo e esperança. Trata-se de um texto, intitulado “O último profeta”, publicado no "Jornal Pequeno", na edição de 5 de setembro de 2015".
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O ÚLTIMO PROFETA
*Cunha Santos.
"O poeta Renato Russo, em uma das mais belas canções que este país ouviu, perguntava: “Será só imaginação, será que nada vai acontecer, será que é tudo isso em vão, será que vamos conseguir vencer”?
Imaginem, agora, que tudo que um povo sonha vai dar certo, que não existirão crianças famintas e que o mais que essa gente pobre, humilde e sem trégua sente vai acontecer.
Imaginem, só por um momento, que a Palavra de Deus não foi em vão e que o mal se extinguirá nas suas próprias raízes; imagem o mundo sem guerras, sem medos no qual só prevalecerá a justiça.
Essas imagens são propositais porque há de chegar o dia em que por trás de cada lágrima caberá um sorriso oculto. Mesmo que essa crônica não alcance os juízes, os pastores, os médicos, os jornalistas e a todas as profissões fundadas na violência, pensem só mais uma vez num mundo sem armas, longe da iniquidade humana do qual a dor não será mais servil ao sofrimento.
Essa mistura de Renato Russo com John Lennon é a receita exata pela qual controlaremos nossa raiva e a todo sentimento de ódio, discriminação e xenofobia se esconderá acima de nossas barbas e de nossas peles. Nunca mais um homem vai achar que tem o direito de tirar a vida de outro homem, nunca mais bateremos em nossas mulheres e, principalmente, estaremos proibidos de barbarizar nossas crianças.
Não retornaremos à crueldade do homo sapiens, disputando comida e território como se fosse amor. Estaremos acordados, suplicando pela ternura, pelo carinho e o vil metal que nos afasta uns dos outros se tornará a moeda de troca da solidariedade e da fraternidade.
O único pecado será deixar alguém com fome e, como se todas as casas fossem o Éden, só nos será proibido desmanchar o paraíso.
Um planeta governado por carnificinas religiosas e pagãs como a Terra dispensará todas as cobiças porque, simplesmente, seremos prisioneiros da verdade.
Nada de absoluto governará nossas almas, nem mesmo o vaticínio implacável da morte. O sangue só correrá dos acidentes e dos arranhões. Só as bambinas e bambinos terão o direito de morder e, para que todos se reconheçam, o único vício será leite de mãe.
Essa é a crônica permitida de um missionário que pensa em vencer a si próprio para também vencer a maldade humana. É o panfleto apócrifo que cada um dos oito bilhões de habitantes do mundo deveria assinar. É apenas a vontade de um espírito que nem precisa ser santo para dizer: 'faça-se a luz'. ”
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O CONVIDADO: *Manoel dos Santos Neto é autor, dentre inúmeros outros trabalhos de "A Ressureição do Padre: Perfil do Sacerdote Maranhense que se transformou em grande escritor no Brasil".Trata-se de um belo livro sobre o escritor maranhense João Mohana, sacerdote consagrado como exemplo de um extraordinário pregador da doutrina cristã, imensamente querido pela legião de seus devotos e fiéis admiradores. Ocupou a Cadeira Nº 3 da Academia Maranhense de Letras e escreveu "O Outro Caminho" e outras obras de sucesso permanente, entre as quais duas fascinantes peças teatrais: “Abraão e Sara” e “Por Causa de Inês”. O padre João Mohana faleceu em 12 de agosto de 1995, no casarão em que morava, na Rua Afonso Pena, no Centro Histórico de São Luís.
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À PROPÓSITO
Uma das últimas entrevistas fortes de Cunha Santos foi concedida ao jornalista Mhario Lincoln. E como neste páginas rememoramos grandes momentos, vale reproduzir, na íntegra (inclusive com confidências nunca dantes reveladas) a entrevista exclusiva, abaixo:
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