
Amanhecer no Amazonas: A Imensidão que Toma a Alma
João Ewerton
O sol desperta no horizonte, dourando a neblina que ainda abraça a floresta. No silêncio da manhã, um barco desliza lentamente pelo maior rio do planeta, e a cada segundo que avançamos parece estender a margem para um lugar mais distante e o leito do rio para o infinito. A água, titânica, não conhece limites; seu ímpeto é implacável, desloca-se com força e liberdade, lembrando que nenhum obstáculo é capaz de contê-la, talvez até se exibindo para nós, nos mostrando o quanto somos insignificantes.
À medida que o amanhecer se abre, a floresta se revela em toda a sua exuberância: verdes impossíveis, copas que se erguem como catedrais solenes e aparentemente silenciosas guardando para si, o murmúrio das suas preces em doce farfalhar das suas incontáveis folhas, são quase como sombras que dançam acima das margens ou floresta à dentro, por onde ecoam sons que não se repetem em nenhum outro lugar do mundo. Para quem tem o espírito de artista, cada curva do rio é um quadro em movimento, um espetáculo cinematográfico, ou às vezes teatral mesmo. Cada reflexo do sol é um afresco que não cabe em tela alguma, a não ser ali mesmo, de onde em poucos segundo também desaparece. A grandiosidade da natureza parece invadir a alma, preencher cada espaço da nossa consciência que se curva diante dela, silenciosamente, deslumbrada com tanta presença de Deus, que se mostra nesse céu que se estende, infinito e majestoso, refletindo-se nas águas que se espalham como um oceano doce, carregando histórias, memórias e mistérios que ninguém jamais poderá enumerar. O rio não é apenas gigante — é singular, um fenômeno de magnitude que exige reverência. O coração acelera, a respiração se suspende, e uma sensação de assombro profundo toma conta: ali, entre o sol, o céu e a imensidão líquida, o espírito humano se percebe pequeno e ao mesmo tempo arrebatado, diante de algo que transcende qualquer medida ou descrição.
É nesse instante que se entende que o Amazonas não se contempla apenas com os olhos, porque a sua própria natureza vai buscar a alma no fconfins dos mistérios humanos até nos seres mais brutalizados e insensíveis. Cada marola, cada meandro, cada reflexo da luz solar é um convite à contemplação, uma lembrança de que a grandeza do mundo natural é capaz de nos transformar, de nos deixar para sempre diferentes, tocados pela magnitude e pela beleza que nenhum artista poderia sonhar em recriar plenamente.
Dali da rede, naquela multicolorida composição quase cubista, desenhada pelas padronagens geométricas e pela forma como as redes são armadas nos locais próprios do navio, de súbito, me pego imaginando o que pode ter passado pela mente de do espanhol Francisco de Orellana: o homem que navegou o coração selvagem do Amazonas em 1541,sem nenhuma informação de como seria o universo que encontraria pela frente, quando decidiu descer a cordilheira, sob o sol implacável dos Andes em direção ao coração do Amazonas movido pela ânsia de saquear suas riquezas escondidas naquilo que ele entendia como parte do oriente, quando partiu do território de Quito, no atual Equador, numa expedição comandada por Gonzalo Pizarro. Francisco de Orellana, era um espanhol de espírito inquieto, que jamais poderia imaginar que se tornaria o protagonista de uma das maiores jornadas da história humana.
A missão tinha como destino as terras da “Canela del Oriente”, um Eldorado vegetal que alimentava a cobiça europeia. Mas pelo total desconhecimento da região, eles não sabiam que a floresta amazônica não se entregaria facilmente. A cada passo, a selva fechava-se em verde profundo, os rios se multiplicavam em labirintos, a fome roía os ossos dos homens e as doenças se espalhavam. Quando a expedição se viu à beira do colapso, Orellana tomou uma decisão que mudaria para sempre o curso da história, quando resolveu construir embarcações improvisadas, para deixar-se levar pelo fluxo poderoso de um rio ainda sem nome, mas que o tinha deixado impotente, e sem outra alternativa viável, entregou-se ao poder da corrente do rio e partiu em meio ao implacável universo das folhas e águas repletas de mistérios de toda natureza.
Em dezembro de 1541, junto de cinquenta companheiros, iniciou a descida. A corrente os carregou por milhares de quilômetros, explorando um mundo exuberante e, ao mesmo tempo, implacável. Povos desconhecidos surgiam nas margens, alguns oferecendo hospitalidade, outros a guerra. As crônicas contam que, em certa ocasião, enfrentaram mulheres guerreiras que lutavam com destemor e ferocidade — lembrando a Orellana as míticas Amazonas da Grécia antiga. Foi desse encontro, misto de fato e lenda, que nasceu o nome do maior rio do planeta.
Meses se passaram entre tempestades tropicais, noites escuras onde apenas o rugido da selva fazia companhia e dias em que a esperança parecia se dissolver nas poderosas águas barrentas. Mas em agosto de 1542, Orellana alcançou o Atlântico, completando a primeira travessia de toda a extensão do Rio Amazonas — uma façanha até então impensável.
Não levou ouro, nem especiarias. Levou algo maior: a revelação de um território infinito, pulsante e misterioso, que moldaria a imaginação europeia e se tornaria um dos símbolos da vastidão natural do novo mundo, atiçando a cobiça do povo europeu, que vive até hoje de saquear a riqueza da África e das Américas Centro/Sul.
Há viagens que pertencem ao tempo, e outras que habitam o mito. No século XVI, dois nomes gravaram-se na memória da Amazônia — um com os pés na história, outro com a alma incendiada pela febre da imaginação. Francisco de Orellana e Lope de Aguirre nunca dividiram o mesmo barco, mas seus destinos se encontram na mesma correnteza: o maior rio do mundo, o palco onde a ambição humana se mede com a vastidão da natureza.
Em 1541, Francisco de Orellana desce do altiplano de Quito e se lança às águas do Coca e do Napo e constrói o bergantim San Pedro. Ao longo de seis meses, navegando até o Atlântico, e se eterniza numa história escrita na carne, no suor e nas crônicas de frei Gaspar de Carvajal, que descreve a selva como algo que parecia devorar homens e dar à luz lendas.
Mais de uma década depois, em 1560, outro nome ecoa nos confins do Amazonas. Não mais o cronista, mas o delírio de Lope de Aguirre, personagem que foi recriado por Werner Herzog no filme Aguirre, a Cólera dos Deuses (1972), ele não é tanto um personagem histórico quanto um espelho das sombras humanas dos aventureiros que desafiaram por ignorância e ganância o âmago da floresta e a força do rio. Herzog toma o rumor das expedições, mistura épocas e cria uma parábola febril. O que vemos não é a descoberta de um rio, mas a descida à loucura. O Amazonas já não é apenas geografia: é abismo, é febre, é a ira invisível dos deuses, fruto de uma mente ensandecida pela atmosfera grandiosa que leva os seres fracos ao calafrio místico gerado pela impotência que essa geografia nos causa.
Orellana legou ao mundo a certeza de um território colossal, um rio sem fim, um nome forjado no encontro impacto daquela realidade tão impressionante que só tinha explicação, na sua visão europeia, se associada à mitologia grega. Aguirre, por sua vez, legou o retrato da queda — jangadas à deriva, delírio de poder, a arrogância de quem pretende fundar impérios sobre um chão que não se curva. Um escreve o início da epopeia; o outro encarna o pesadelo que a acompanha.
Juntos, eles mostram que a Amazônia é mais do que florestas ou rios. É palco onde se cruzam história e mito próprios, vitória e ruína, coragem e demência. É o espelho em que o fio sobre o qual caminha a ambição humana é tão delicado que o palpável que se mostra inacessível facilmente se torna um desvario.
São essas coisas e essas vidas que navegaram e ainda navegam pelo Amazonas, que me fazem pensar me vendo pela primeira vez viajando num emaranhado de redes coloridas, onde o mundo se dobra nas tramas das padronagens, nas mesclas das cores, nos sons e cheiros. E a nave vai indiferente, enquanto as redes coloridas balançam lentamente ao ritmo das águas, acalentando cada ser que repousa dentro delas, cada um com uma história, um desejo, um propósito. São muitos Orellanas, outros Aguirres, ribeirinhos de todos os cantos da imensidão amazônica que se entrelaçam ali, como um estudante que parte em busca de aprendizado, olhos brilhando de expectativa, um pai de família que procura oportunidades, sonhos carregados como as sacolas que ele leva, uma mulher que retorna ao lar, a criança que nunca viu cidade grande. Cada pessoa é um universo pulsante, uma narrativa que se desdobra entre as redes, o rio e o céu infinito.
Em cada porto o panorama das redes e do próprio navio se reconfigura. Alguns descem, outros embarcam; rostos desaparecem, novos olhares se somam. A composição humana muda, mas a essência da odisseia permanece: vidas que se cruzam e se tocam, trajetórias que se espalham e histórias trocadas que passam a habitar a memória de todos nós, cada qual de acordo com o seu vizinho de rede. É um espetáculo silencioso, quase sagrado, em que o tempo parece se estender e cada encontro se desdobra com facilidade diante da elegante e singular simpatia do povo amazonense.
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