
Cel. Carlos Furtado
Amanheceu o dia 10 de outubro de 1987, e o toque da alvorada na Academia de Polícia Militar de Minas Gerais soou diferente. O som do corneteiro de dia não era apenas o anúncio de mais uma jornada — era o prelúdio de um marco.
Nos alojamentos, o burburinho era outro. Os cadetes do 3º ano do Curso de Formação de Oficiais, especialmente os que vinham de longe — de Alagoas, Amazonas, Ceará, Maranhão, Mato Grosso, Paraíba e Sergipe —, estavam tomados por uma emoção difícil de descrever. Havia no ar uma mistura de ansiedade, orgulho e saudade. Naquela noite, eles deixariam de ser cadetes para se tornarem Aspirantes a Oficial, e o fariam sob as luzes da primeira solenidade noturna da história da Academia.
A rotina, tão rigorosamente marcada por horários, chamadas e formaturas, se transformava. Cada setor cuidava de cada detalhe com esmero, como quem prepara uma festa sagrada. Belo Horizonte parecia respirar aquele momento — a cidade recebia famílias, amigos, convidados de várias partes do Brasil, todos atraídos pela promessa de uma noite inesquecível.
Recordo-me de ter registrado, no editorial da Revista Comemorativa dos Aspirantes 1987, distribuída aos familiares e convidados, as palavras que traduziam o sentimento coletivo de superação: “Na APMMG nós nos dedicamos ao extremo. Transpusemos montanhas quase inacessíveis, ultrapassamos vales profundos, superamos toda espécie de obstáculos e vemos, enfim, coroados de êxito os esforços desprendidos. E hoje, quando todos os segmentos da sociedade brasileira dirigem suas expectativas à democratização, as Polícias Militares de Minas Gerais, Maranhão, Alagoas, Mato Grosso, Ceará, Amazonas, Paraíba e Sergipe, movidas por alto espírito profissional e cívico, empenham-se em fortalecer as condições de segurança e tranquilidade pública, formando e aprimorando o seu componente mais importante: o policial-militar.”
Foi um dos meus primeiros passos na literatura — ousado, talvez —, pois escrever e romper tradições em Minas Gerais não era tarefa simples. Mas aquela turma não nasceu para o comum.
Quando o crepúsculo desceu sobre a Academia, o pátio se iluminou. Sob o brilho das luzes e o reflexo das espadas, 81 novos Aspirantes ergueram a voz para jurar fidelidade à Pátria, mesmo com o sacrifício da própria vida. Era o momento culminante de anos de disciplina, de tantas alvoradas frias, refeições no rancho, marchas sob o sol, noites insones de estudo, chamadas, hinos, desfiles e incontáveis revistas.
Naquela noite, o tempo pareceu suspenso. A missa solene, conduzida pelo inesquecível Tenente-Coronel Capelão Padre Luís de Marco Filho, o querido “Mancha Negra”, foi um instante de fé e comunhão. Depois, a formatura militar — impecável em cada movimento — e o baile dos Aspirantes, sob a vigilância do Cel. Maurilio Modesto Cunha, onde o brilho dos uniformes se confundia com as lágrimas de alegria e o orgulho estampado nos rostos de pais, mães e irmãos.
O curso, longo e exigente, havia moldado homens de fibra. Foram anos dedicados a aprender Direito Penal, Constitucional, Administrativo, Direitos Humanos, Criminologia, Psicologia Criminal, Trânsito, Atividades de Bombeiro, além das duras rotinas de ordem unida, tiro, judô, natação e educação física. Mais do que lições acadêmicas, foram lições de vida.
A formação era mais do que técnica — era espiritual. Estava assentada sobre valores éticos, morais e religiosos, que se tornariam a bússola de toda uma carreira.
Hoje, 38 anos depois, ao recordar aquele 10 de outubro, ainda me vejo ali — fardado, vibrante, tomado por um misto de esperança e dever.
Vejo o pátio iluminado, as espadas reluzindo sob o luar de Belo Horizonte, e ouço, ao longe, o som da corneta que ainda ecoa, como se chamasse de volta o jovem cadete de outrora.
E é então que percebo: alguns dias não ficam no calendário — ficam na alma.
E aquele 10 de outubro de 1987 foi um deles.
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