
Foto: a Academia Maranhense de Letras Infantojuvenil se consolida como um movimento de renovação da literatura, um elo entre o passado dos grandes autores e o futuro (no hoje) criativo das novas gerações. Na foto, a acadêmica Hemily Caroliny, da AMLIJ, recebe diploma de 'Cordel selecionado', das mãos da imortal APB-MA, Goreth Pereira e de Rômulo Reis. (Fotos: Sharlene Serra)
A Academia Maranhense de Letras Infantojuvenil, sem dúvida é hoje um marco na história literária brasileira. Durante a Feira do Livro, em São Luís do Maranhão - FELIS - muitas atividades ligadas a AMLIJ foram realizadas, onde as sementes desse sodalício floresceram. Como exemplo, dentre outros também importantes, está a da acadêmica Maria Olivia, que inspira a todos ao mostrar, com sua sensibilidade e talento, que o autismo não limita, revela. Sua voz é a prova de que a literatura é um território de possibilidades infinitas, onde cada diferença é, na verdade, uma forma única de encantar o mundo.
O Discurso de Maria Olívia Santos Jacinto Pelúcio
Olá, boa noite a todos que estão aqui esta noite, meu nome é Maria Olívia, tenho 12 anos e sou muito grata em dizer que sou parte da Academia Maranhense de Letras Infanto-juvenil.
Não faço poesias nem cordéis, porém escrevo histórias e quero, muito em breve lançar meu livro. Escrevo romances de fantasia, suspense, mistério e mais, com uma leve pitada de humor na maioria, sempre fui apaixonada por leitura, pois sentia que finalmente achava um refúgio de tudo, onde podia me acalmar e ninguém iria me julgar, também encontrava personagens passando por situações que eu passei, o que me ajuda a entender meus problemas e minhas falhas. Acho que é principalmente por isso que eu amo a leitura, ela faz você pensar em si mesmo e na sociedade ao seu redor. Você se encontra em personagens e eles te dão motivação para continuar lutando, apesar de ser difícil, por isso, bem de vez em quando, eu digo: Às vezes, tudo o que você precisa para se entender, é alguém que passou pelo mesmo que você. Literatura é uma das melhores liberdades de expressão, como diz quando você pesquisa, “Literatura é a arte da palavra, utilizando o meio da linguagem de escrita como forma de se expressar”, ou seja, quando escrevemos um livro, não estamos só escrevendo frases em um papel em branco, estamos pondo um pouco do que acreditamos para o mundo. É a maneira que a vida nunca perde a graça, nós podemos fazer de guerras até a sereia mais graciosa do oceano, mistérios, realidades distópicas, um show de horrores ou de risadas, isso é quem somos. Aceito que não sou a menina mais perfeita do mundo, que faço e fiz coisas que desagradam minha família, meus amigos, até eu mesma não me aguento na maior parte das vezes, mas, com a companhia da leitura e a maneira como ela faz eu me analisar, lutar dia após dia para me tornar o melhor de mim e ser feliz, mesmo nas fases mais desafiadoras da vida, a LEITURA faz tudo isso valer à pena. Obrigada!
A ACADEMIA
A Academia Maranhense de Letras Infantojuvenil (AMLIJ) nasceu de um sonho: o de dar às crianças e aos jovens um lugar legítimo no universo literário, um espaço onde pudessem reconhecer em si mesmos o poder da palavra, da imaginação e da transformação. Idealizada e fundada pela escritora Sharlene Serra, a AMLIJ é pioneira no Brasil ao estruturar uma academia de letras voltada exclusivamente ao público infantojuvenil, com todo o rigor e simbologia das grandes instituições literárias.
Composta por membros de 9 a 17 anos, a Academia é um celeiro de talentos e de sonhos que florescem. A AMLIJ significa exercer o protagonismo literário desde cedo, compreender o valor da leitura e perceber a escrita como uma ferramenta de cidadania, inclusão e expressão.
Assim, a A Academia Maranhense de Letras Infantojuvenil se consolida como um movimento de renovação da literatura, um elo entre o passado dos grandes autores e o futuro (no hoje) criativo das novas gerações.
Sob a presidência de Sharlene Serra, educadora, escritora com livros voltados para a literatura inclusiva, a Academia se torna uma ponte viva entre educação, arte e transformação social. Mais do que formar escritores, forma cidadãos sensíveis, críticos e conscientes do papel da palavra no mundo.
A seguir, um diálogo e inspirador com Mhario Lincoln presidente da Academia Poética Brasileira e Sharlene Serra onde compartilha a essência desse projeto, seus desafios, conquistas e sonhos, revelando como a AMLIJ tem se tornado uma árvore frutífera da literatura maranhense, onde cada acadêmico é uma semente.
Respostas da presidente da AMLIJ, escritora SHARLENE SERRA
"(...) o autismo não limita, revela", Sharlene Serra
1 - Como surgiu a ideia de criar a Academia Maranhense de Letras Infantojuvenil e quais foram os principais desafios no início?
A ideia nasceu de um sonho antigo: dar às crianças e adolescentes um espaço de pertencimento no universo literário, algo que mostrasse a elas que sua voz também é legítima e necessária. Sempre acreditei que a literatura não tem idade para começar, mas precisava de um espaço institucionalizado que valorizasse isso. Estruturar e fundar a academia antes da posse dos membros, posso dizer que foi um grande desafio, pois é necessário que o sonho seja coletivo, depois mesmo sabendo dos talentos, tivemos o receio de não ter tantos inscritos, pois muitos achavam que crianças não teriam maturidade para assumir o papel de acadêmicos. Mas o que vimos foi justamente o contrário e no dia 25 de novembro de 2024, tivemos a posse de 28 membros, com idade 9 a 17 anos. A verdade é que quando oferecemos confiança e oportunidade, elas florescem e esperar essa maturidade literária, poderíamos perder talentos neste percurso.
2 - De que forma a sua trajetória pessoal influenciou o trabalho voltado para a literatura e educação das crianças e jovens no Maranhão?
Minha trajetória foi marcada pelo encontro entre literatura, educação inclusiva e autora do projeto geração de escritores, onde trabalhei no CAAHS (Centro de Atendimentos para Estudantes com Altas Habilidades e/ou Superdotação) além de projetos paralelos em escolas particulares com a geração de escritores Mirins. Como escritora e educadora, sempre busquei dar voz aos que muitas vezes não são ouvidos, crianças, jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade ou com deficiência. Trago para a Academia a minha experiência pessoal de acreditar que cada história importa, que cada olhar pode transformar, e isso se reflete em cada ação que realizamos. Quando criança, não existia este olhar de incentivo, meus poemas e histórias eram guardados em caixas, até que as caixas foram jogadas fora e tive que através de muita resiliência, retomar. As nossas vivências servem de bussola para as crianças e os caminhos podem sim, serem transformados, para que eles acreditem em si e inspirem outros jovens.
3-Na sua visão, qual é o papel da literatura na formação cidadã e na construção de valores para as novas gerações?
A literatura é um espelho, uma janela, um mapa e uma ponte. Espelho porque reflete nossa realidade, nossa identidade e nossas histórias. Janela porque abre horizontes, ensina empatia e desperta valores humanos essenciais como solidariedade, respeito e justiça, mapa por que nos direciona e ponte porque nos conecta a diferentes realidade. É pela literatura que uma criança aprende a se colocar no lugar do outro e a sonhar com um mundo melhor.
4-Como a Academia contribui para que crianças e adolescentes percebam a educação como ferramenta de transformação social?
Na Academia, cada criança se vê como protagonista. Elas não são apenas leitoras, mas escritoras, criadoras de mundos, pensadoras da sociedade. Quando percebem que seus textos têm impacto, que podem ser lidos e inspirar outros, compreendem que a educação não é apenas um caminho individual, mas coletivo, capaz de transformar sua comunidade. E para a AMLIJ eles são as vozes principais.
5-Há exemplos de histórias de alunos ou projetos que mostram claramente o impacto desse trabalho na vida das crianças?
Sim, nossa Acadêmica Maria Eduarda Silva Soares de 11 anos tem participado de palestras na Escola Crescimento e também no colégio Militar, onde foi recebida pelos alunos e professores O resultado é surpreendente, as crianças assimilam melhor através de outra criança, a importância da literatura, e a acadêmica se vê como palestrante, escritora e se reconhece também como agente de mudança.
6-Como a Academia adapta suas ações e projetos para crianças com autismo ou outras necessidades educacionais específicas?
Nós acreditamos que inclusão não é favor, é direito. Por isso, nossas ações sempre consideram a acessibilidade atitudinal como prioridade. A ideia inicial é respeitar o outro, acreditando em seu potencial e sabemos que cada pessoa é um ser único e a literatura é uma imensidão, temos gêneros diversos, e cada pessoa independente de ser autista ou não, irá escolher o que mais lhe agrada. O ponto chave, é o respeito ao tempo, a forma de expressão, onde adequamos a atividade a partir do interesse e da forma de se expressar da Academica com TEA, e todo mundo ganha: A Amlij, a literatura e em destaque a Acadêmica Olivia, pois ela tem espaço de voz, e amizades com os membros que dialogam sobre o que amam, além dos tutores que fazem parte do processo de gerar ações literárias e orientações na construção dos textos. Todas as ações partem do olhar das potencialidades e do que o Acadêmico ama, assim a AMLIJ é construída para que todos possam participar de maneira significativa com ou sem deficiência.
7-Quais práticas pedagógicas e recursos literários têm se mostrado mais eficazes para estimular a criatividade e a participação dessas crianças?
Neste momento inicial, estamos preservando a história contida em cada Acadêmico. Valorizando e estimulando o que eles já possuem.
8-Você acredita que a literatura pode ajudar a combater preconceitos e estereótipos em relação ao autismo?
Sem dúvida. Quando mostramos a potencialidade, quanto colocamos para a sociedade a produção, eles passam a ser vistos como pessoas, assim como qualquer outra, que erra, que acerta, que faz acontecer, que tem a sua maneira de ser e isso é inerente de cada um de nós
A literatura vai além dos diagnósticos e dos desafios. Ela coloca o foco no que a pessoa pode fazer, e não apenas em suas dificuldades. Isso quebra a invisibilidade e abre espaço para a admiração e o respeito e isso se estende as histórias com personagem que possuem alguma deficiência (como no caso da Coleção Incluir de minha autoria) a representatividade faz a diferença.
9-De que forma a Academia valoriza e promove a cultura e as tradições maranhenses no trabalho com a literatura infantojuvenil?
O maranhão é Berço de grandes nomes da literatura, e a AMLIJ se propõe nessa continuidade.
Assim, a AMLIJ é a ponte viva entre um passado glorioso e um futuro promissor. É ativa de um verbo que não pode parar no passado. O Maranhão assim, se renova. Através do dos Acadêmicos e de toda juventude que propaga a sua voz, seja declamando versos de grandes nomes, ou os autorais, a literatura maranhense segue escrevendo, com mãos tão pequenas, o próximo capítulo de sua história, assegurando que a fonte literária do Maranhão nunca se esgote.
10-Qual é a importância de apresentar às crianças obras que reflitam a sua própria realidade e identidade cultural?
Quando a criança se vê representada, ela se sente pertencente. A identidade cultural fortalece a autoestima, a valorização das raízes e cria um vínculo afetivo com a leitura. É diferente quando ela lê histórias que falam da sua rua, da sua festa popular, da sua cultura. É como se dissesse: “eu existo, minha história importa”.
12-Como você enxerga o futuro da educação e da leitura no estado, especialmente com as novas tecnologias e plataformas digitais?
Vejo com esperança. As tecnologias facilitam, podem aproximar, levar livros digitais onde antes não chegavam, possibilitar acessibilidade para pessoas com deficiência. Claro, precisamos de políticas públicas consistentes para garantir equidade, mas acredito que o futuro já é hoje de forma híbrida: a tradição do livro impresso aliada às novas plataformas digitais. As duas se comunicam e precisam uma da outra.
13-Quais próximos passos ou projetos a Academia pretende desenvolver para alcançar mais crianças e comunidades?
Os próximos passos da Academia Maranhense de Letras Infantojuvenil são fortalecer esse espaço como um verdadeiro celeiro de talentos, incentivando as crianças e adolescentes a produzirem, publicarem e compartilharem suas obras, mas também levando a literatura para dentro das comunidades. Queremos criar um sentimento de pertencimento nos nossos acadêmicos, com formações e encontros literários que ampliem sua visão de mundo e sua expressão criativa. Ao mesmo tempo, buscamos abrir portas para que eles participem seja por meio de saraus, feiras de livro, projetos itinerantes ou parcerias com escolas e instituições culturais. Assim, a Academia se torna um elo entre a juventude e a sociedade, promovendo inclusão, valorização da cultura maranhense e despertando, desde cedo, o protagonismo literário das novas gerações.
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