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Quando as inversões falam mais alto: “Ovelhas em pele de Lobo”. Se isso existe?

“(...) quando densidade e fricção social superam a capacidade de mediação, de diálogo de aceite da opinião do outro e do respeito humano, vínculos se rompem e os grupos implodem”.

06/11/2025 às 09h50 Atualizada em 06/11/2025 às 10h21
Por: Mhario Lincoln Fonte: Plataforma Nacional do Facetubes
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Arte: mhl/ginAI
Arte: mhl/ginAI

*Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln.

 

Em tempo: eu sugeri esse lume para criar essa ilustração, “Ovelhas em pele de Lobo” para salientar uma inversão que revela a face coletiva da ferocidade. No provérbio clássico, o perigo se esconde sob a aparência mansa: um lobo disfarçado de ovelha. Aqui, a metáfora vira a lente para o oposto — quando a mansidão, em bando, veste a couraça do predador. Não é sobre hipocrisia individual, mas sobre metamorfose social. Isto é, um rebanho que, ao reivindicar pureza e unanimidade, legitima o avanço com a retórica da autoproteção. O “nós” sente-se moralmente autorizado a brandir presas que não tinha. O traje de lobo funciona como armadura simbólica para proteger do dissenso" . (Mhario Lincoln)

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Muita gente tem acompanhado a comoção em torno do músico e compositor Lobão, reacendida por entrevistas e lives em que esse artista critica o patrulhamento de gosto e o “apagamento do direito à opinião” e expõe um traço de época: a conversação pública foi capturada por egos que transformam discordância em desonra.

 

O episódio recente em que o cantor se desentendeu com fãs e com a filha de um ídolo brasileiro já falecido, ilustra bem esse caldo ofensivo e contraofensivo que domina as redes, onde cada grupo reivindica “monopólio de verdade estética ou moral”. O resultado é previsível. Muito mais ruído e, infelizmente, menos diálogo, tornando o ambiente de convivência humana, que acaba por sabotar a própria criatividade.

 

Há um paralelo útil (Mutatis Mutandi) e com todas as cautelas, claro, mais uma metáfora, no famoso “Universe 25”, série de experimentos de John B. Calhoun, no qual foi oferecida água e comida, abundantes, para um grupo pequeno de ratos, em um espaço relativamente pequeno, assim, hipoteticamente, um espaço social de roedores. Logo, com essa abundância de água e comida, começaram a surgir padrões. Um deles, o rápido aumento da população. Com isso, a diminuição de comida e água. Tudo virou, depois, um caos. Houve um colapso comportamental, agressividade e retração afetiva; gerando inclusive casos de “comer os mais fracos”, para sobreviver.

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Hipoteticamente, repito, com a facilidade de expansão cada vez maior através das Redes Sociais diretas e “ao vivo”, cada ser humano passou a emitir opinião própria e a tecer opiniões sobre quaisquer assuntos, sem se preocupar em ouvir ou debater; e o pior: a tecer opiniões únicas e irrefutáveis. Assim, mesmo que a experiência do “Universe 25”, tenha outras aplicabilidades, que não humanas, a ideia central do caos e da antropofagia (de ações e pensamentos outros) permanece.

 

Vejamos: quando densidade e fricção social superam a capacidade de mediação, de diálogo de aceite da opinião do outro e do respeito humano, vínculos se rompem e os grupos implodem. No nosso tempo, o “espaço” que rareou não é físico: é atenção, reconhecimento e prestígio. Quando esses “alimentos simbólicos” são disputados como escassez dura, a arena vira competição de vaidades.

 

Isso traz para a mesma mesa uma frase, até então atribuída a Voltaire, mas que, na verdade é de Evelyn Beatrice Hall, em sua biografia sobre o próprio Voltaire, para resumir o pensamento desse filósofo francês: "Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las". Então... todos querem discutir ideias em, alto nível, hoje em dia. Mas, não lêem, não pensam, não estudam. Só repetem algo como um insuportável alarme mecânico. Daqueles que tocam pela manhã bem cedo, após uma noitada arrebatadora.

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Por outro lado, as redes potencializam essa economia do ego. Não é teoria; há casos documentados em que plataformas favoreceram ambientes de desumanização e violência. Em Mianmar, uma missão de apuração da ONU concluiu que o Facebook teve papel “determinante” na escalada contra os rohingya, ao permitir a circulação massiva de incitação ao ódio. Pesquisas independentes e relatórios de direitos humanos mostraram a persistência do problema mesmo após medidas corretivas. Isso é a “supervalorização da própria tribo” convertida em dano concreto.

 

Na Índia, estudos jornalísticos e acadêmicos documentaram como boatos no WhatsApp, empacotados como “verdades do grupo”, alimentaram linchamentos e ataques sectários. A dinâmica é sempre parecida: mensagens que prometem proteção do ‘nós’, contra um ‘eles’ demonizado, reforçadas por repetições, proximidade afetiva e velocidade de encaminhamento. O custo social é altíssimo e a reversão, lenta.

 

O mecanismo sociológico por trás disso é conhecido. Mesmo porque há identidades grupais fortes que reduzem a empatia por out-groups (grupos de fora da aldeia desses). Um dos setores mais impactados, diante disso, é o cultural, isso destrói projetos porque desloca a energia criativa para guerras de prestígio - “quem pode falar sobre quem”, “quem tem o cânone (regra) na mão” — e corrói colaborações que dependem de confiança mútua.

 

A indústria artística conhece essa erosão. Recentemente a revista “Veja” trouxe uma matéria acerca do assunto, onde sugere que “circuitos (ou apoios, ações) que poderiam somar viram arenas de veto, cancelamento e ressentimento”. Lobão tem razão ao apontar que “tirar do outro o direito de opinião é um atalho para a barbárie” e, na prática, uma “forma de censura social que empobrece toda a rede cultural, na sequência...”, disse-me o músico e produtor musical Chiquinho França, que há muito luta pela unificação e desenvolvimento da música e dos músicos do Maranhão, sem obter muito sucesso.

 

Esse mesmo enrijecimento aparece no campo religioso. Pesquisas recentes do “Pew Research Center” mostram persistência de crenças exclusivistas em grandes segmentos e, ao mesmo tempo, a necessidade de programas robustos de pluralismo para reduzir preconceitos entre confissões. Quando a religião prega: “só a minha fé salva”, soa mais como algo para domesticar o ego, do que levar a mensagem de um Deus Probo, Indiscutível, Uno e Bom.

 

Então, como seria para mudar essas concepções neandertais? Para sair do ciclo? A resposta passa diretamente (sem escala) por frear a indústria do ego. E mais: no plano individual, cultivar discordância respeitosa e reconhecer a dignidade do interlocutor antes de disputar a ideia. Isso pode sim, devolver “espaço social” às conversas coletivas.

 

Ainda no plano cultural, artistas e curadores podem reabrir canais de colaboração e crítica honesta, com espaço para a divergência, sem humilhação. Essa reconstrução não é concessão ao “politicamente correto”, mas sim, infraestrutura de criatividade. O contrário: a supervalorização da opinião própria como idolatria, acaba encurralando o indivíduo e o fazendo equivaler (é dramático dizer isso) ao experimento “Universe 25”. Isto é, saturação, isolamento afetivo e, por fim, colapso do comum.

 

Todos morrem! Ninguém fica para contar a história!

 

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 * Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln e mais: CNN Brasil/The Scientist/TIME/Reuters/Pew Research Center 

 

 

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Prof. Marcia Vinhas, poeta e antropóloga aposentada.Há 7 meses USP- Estado de São PauloMeu Deus, que texto, Mhario.
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