
SEGUNDA POÉTICA
1 -ANNA LIZ
O poema de Anna Liz nasce do limite. Da fadiga que pede colo, o pranto que promete conter-se. Em três movimentos curtos, a voz poética desenha um mapa de exaustão sem grito, com uma contenção que, paradoxalmente, amplia o impacto. A linguagem é enxuta, sem adornos; cada verso carrega a exatidão de quem sabe que, diante da dor, as palavras só servem se não sobram. É essa precisão que confirma a beleza do poema e a facilidade lírica de Anna Liz.
UMA MULHER MORRENDO
(Anna Liz)
estou cansada!
deixa-me repousar em teu colo.
prometo não chorar.
o choro queima minha face
e dentro de mim tudo é frio
nem em meus sonhos
há leveza, brandura.
só vejo anjos quando,
exausta, cerro meus olhos.
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2 – ELLE MARQUES
Nos versos de Elle Marques, a poesia se apresenta como uma órbita mansa e contínua, como um universo ligado à eternidade que acolhe amizade, carinho, saudade e amor. A enumeração breve, respirada, cria uma cadência de uma catarse íntima, onde cada palavra é passo íntimo (mas sem excesso e sem ruído). Ao dizer que “nunca se engasga”, o poema declara seu próprio método: linguagem clara, aroma de inspiração, nada que fira a paixão. O fecho — “cortejo gentil do coração” — funciona como imagem-síntese e assinatura afetiva da própria poesia que conduz, acompanha e celebra. É beleza de discretas intensidades, feita de proximidade e verdade.
Cortejo gentil
Por Elle Marques
A poesia é universo
ligado à eternidade
guarda sempre
a amizade,
o carinho,
a saudade e
o amor
É uma profusão
de versos e
de palavras
com as quais o leitor
nunca se engasga
pois tem o aroma
da inspiração
jamais ofende
a paixão, é
cortejo gentil
do coração.
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3 - MONICA PUCCINELLI
Nos versos de Monica Puccinelli, a chuva cai como metáfora das “lágrimas da história”, convocando o leitor a medir o descompasso entre o avanço técnico e a maturidade do espírito. Enquanto a humanidade ergue ciência e progresso, o poema pergunta pelo que falta. E isso é claro, como o cuidado do “eu”, a responsabilidade pelo próximo, o sentido da passagem pela terra. Assim, o dia chuvoso suspende o ruído do mundo e abre espaço para a pergunta essencial
— “a que viemos?”.
A voz poética sugere que a resposta não é espetáculo, mas dever silencioso de reconhecer o que nos compete cumprir, unir consciência e ação, e orientar o coração para Deus.
CHOVE
Monica Puccinelli
Chove… na terra,
são lacrimas da
história da humanidade.
Cegos construímos
tecnologia, progressos
na ciência, aparentemente
estamos evoluindo mas…
nós, o nosso eu espiritual
que maturidade emocional
carregamos nesta passagem
pela terra, o que fazemos por
nós, pelo próximo, qual é
nossa tarefa a cumprir…
sabemos o que nos compete,
a que viemos?
Nada melhor que um dia
de chuva para nós questionamos
e…buscarmos a resposta que o
a nós é a Deus, devemos
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4 - Natércia Moraes Garrido
O poema organiza-se em pares tensionados: nada/tudo, dor/cores, luz/esconder, ver/pensar. Esses contrastes não se anulam; geram um campo de força onde a experiência se reconhece ao mesmo tempo que a economia verbal — versos curtos, substantivos essenciais, verbos precisos — cria pausas que funcionam como respirações de consciência. “Refletiu a luz, fugiu”, na verdade, captura a natureza elusiva do instante. Ou seja, a realidade aparece e, no mesmo gesto, se retrai. Quando Natércia Moraes Garrido afirmar que “a razão encontrou sua dona”, o texto dá um passo decisivo, porque não é a razão que domina o sujeito, é o sujeito que se torna titular da razão. Muito bom isso.
NADA
Natércia Moraes Garrido
Era o nada.
Era o tudo que queria.
Que acreditava.
Era tanta dor...
Eram tantas cores...
Refletiu a luz, fugiu, mas o
pensamento restou.
A razão encontrou sua dona.
Os olhos viram o que a luz
escondeu.
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5 – DANIEL MAURÍCIO
Nos “origamis de palavras” de Daniel Maurício, a forma mínima carrega gesto amplo. O primeiro dobra o clima: “Fim de estiagem… / Mansamente / A chuva beija o telhado.” Há uma kigo clara (estiagem/chuva) e um corte que instala o instante — o som do telhado substitui a narrativa. Bem à propósito, mínimas palavras guardam imensa densidade. O advérbio “mansamente” regula o andamento, a imagem do “beijo”. No segundo, “as rendas / bordadas pelo tempo” deslocam o olhar do ornamento para a duração da própria vida, que “revela seus segredos” sem estardalhaço, como quem levanta um véu. O terceiro origami é sinestésico e preciso: “Na penteadeira da noite” aninha a cena no íntimo, enquanto “folhagens iluminadas” “se perfumam ao luar”. Lindo essa imagem de perfume de luz. Uma espécie de mistura botânica, quarto e céu. (Incrível simbolismo).
ORIGAMES DE PALAVRAS
Daniel Maurício
Fim de
estiagem…
Mansamente
A chuva beija o
telhado.
*
Com as rendas
Bordadas pelo
tempo
A vida revela os
seus segredos.
*
Na penteadeira
da noite
As folhagens
iluminadas
Se perfumam ao
luar.
6 – JOIZACAWPY COSTA
O poema “Quem Será?”, de Joizacawpy Costa, já nasce com pulsação melódica e com profusão de imagens nítidas, versos respirados, refrões naturais (“Águas calmas no córrego…”) e uma cadência de espera que oscila entre rio e mar. Chiquinho França e Mhario Lincoln perceberam nessa beleza de lírica, uma letra para uma trilha musical que por si só, já estava pronta. E foi a partir de versos como “o colibri, o bem-te-vi, a canoa e o pescador” como que se formasse uma orquestra de símbolos, a música foi construída. Tudo, pela grande sensibilidade da autora. Uma prova de que na música, a brisa que “afaga os cabelos” vira dinâmica, a pausa vira síncope, e a “espera”, companhia e consolo.
Foi assim que Chiquinho e Mhario traduziram essa delicadeza de letra, sem perder a clareza do conjunto de sentimentos do poema, pois deixaram a palavra respirar, dando passagem sonora para o tempo da maré. (O vídeo está abaixo)
QUEM SERÁ?
Joizacawpy Costa
Amanheceu e eu aqui
Pés no chão descalça
A espera do meu amor
Um amor que demora chegar.
Quem será o meu amor
Um colibri faceiro
Ou um bem-ti-vi cantor
Um animal guerreiro.
Águas calmas no córrego
Mar a vista logo à frente
Canoa já no leito
Pescador solitário a deslizar o leme.
Do mar ao rio
Ou do rio ao mar
Vento afaga meus cabelos
E pede para esperar.
Águas calmas no córrego
Mar a vista logo a frente
Canoa já no leito
Pescador solitário a deslizar o leme
Se virá não sei
Amar-me também pouco sei
A espera é minha companhia
Para aliviar a minha agonia
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VÍDEO-BÔNUS
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