
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma c/Mhario Lincoln.
Tive a honra e o prazer de conversar alguns minutos (por mensagem) com o poeta Bioque Mesito e o tema foi “liberdade poética”. Imediatamente meus dedos coçaram e desde então tenho tentado escrever sobre o tema. Difícil o mote porque, a tal da “licença poética”, apesar de ser algo que dá ao autor a oportunidade de “sair da casinha’ e desobedecer a algumas regras linguísticas e éticas (muitas delas insuportáveis) para alcançar um efeito estético, cognitivo ou emocional específico - e mesmo assim - não há uma espécie de ‘carta branca’ para o uso indiscriminado dessa licença. Além disso, não é qualquer bom poeta, que consegue encaixar uma “porra” no seu verso, e transformá-la em pacto retórico, entendível para o leitor.
Memo porque, essa “liberdade” só se legitima quando não serve ao sentido exato; nem ao tom, mas à verdade artística do texto. Essa foi a razão para eu tentar descobrir alguns estudos que mostrassem que o ‘palavrão’, longe de ser apenas um desconforto ortográfico, poderia, também, intensificar realismo, marcar oralidade, revelar posição social, produzir humor e, sobretudo, convocar o corpo e a sensibilidade eutanásica do leitor para a cena do poema.
Por incrível que pareça, quando abri o “Google”, olha só o que encontrei:
"agora recluso entre gotas interestelares seringas peidos
fortuitos e azedos o deserto de barreirinhas
é o arpoador das minhas
abstrações bundinhas tesas adornadas de branco
tangenciam minha
libido meu cacete endurece
entre uma e outra troca de antibióticos".
Ele, Bioque Mesito! Antes havia folheado uma obra de Hilda Hilst. Contudo, não havia encontrado algo forte para singularizar minha escrita. E aí, Mesito aparece com esse texto que mostra o quanto é difícil se situar nessa perigosa linha tênue entre o poético e o obsceno.
Sobre esse texto poético acima, alguém já parou (mesmo) para ler e interpretar o que Mesito se referiu ao escrever “Leito Quatro”, em 2015, de cujo conteúdo tirei esses versos acima? São simplesmente deslumbrantes. Há uma envergadura calculada entre “gotas interestelares” e “seringas peidos fortuitos e azedos”. Alguém já viveu essa realidade? Sim! Muitos de nós já vivemos a mesma coisa e nunca fomos (eu e um monte de gente) calculistas suficientemente para escrever, reações almáticas dessa forma. Mesmo porque se insere no contexto, um certo medo de ferir suscetibilidades. E mais: medo igualmente do risco calculado do feedback, ao expor o nervo ciático de uma poética corajosa ao ponto de aceitar esse risco com uma finalidade precípua: dizer a verdade como catarse!
Bioque corre e correu esse risco de livre e espontânea vontade. Isso é sublime; é uma metáfora asseptizada em grilhões da ignorância. No mesmo poema, as “bundinhas tesas” se encaram no mesmo plano, devolvendo ao leitor a experiência concreta do desejo, da dor clínica (“troca de antibióticos”), da precariedade cotidiana, onde, de fato, o poeta se encontrava.
Surfando ainda mais no tema, no site “Academia.edu” procurei referências e encontrei explicações pertinentes a esse tipo corajoso de poesia, como que ferramentas pragmáticas e estilísticas, onde, na maioria dos casos, o ponto decisivo é a função e o entendimento irreal, licenciados. Lembrei de Lenny Bruce, comediante e crítico social norte-americano, célebre por levar aos palcos temas-tabu — sexo, religião, política — e por enfrentar processos de obscenidade que acabaram por transformá-lo em símbolo da liberdade de expressão no stand-up moderno. Ele dizia assim: “There are no dirty words, only dirty minds.” Tradução direta: “Não existem palavras sujas, apenas mentes sujas.”.
Bruce tem razão do porquê do palavrão ‘poético’ atuar como estilete crítico. E tal fato dá um medo incrível nos conservadores de ontem e de hoje. O que (eles) deveriam entender, todavia: esse tipo de manifestação (poucos sabem escrever), está mais para uma poesia de ataque, escrita com ampla lucidez; e não, com desleixo. Vide: “Poema Sujo”, de Ferreira Gullar.
Este é o ponto: o vocabulário forte parece podre na cabeça de quem “pensa podre” (Lenny Bruce), ou quer entender a intelectualidade do jeito que ‘pensa’ a intelectualidade. Por isso que alguns tiveram dificuldade em entender, por exemplo, “CISÃO AMÉM!”, um clássico de Mesito, em homenagem a outro grande nome da literatura brasileira: Antonio Aílton, por ocasião do seu aniversário de 50 anos.
Poetou Bioque Mesito: “satã faz habitat na planície da noite é mais belo que o compulsivo sexo da amante”. Será que o leitor parou para entender isso aqui, repergunto? É explícito, o implícito: pecados, frustrações, jogos, crenças, incensos, ilusões de ótica ilógicas e lógicas, dor, angústia, traição, decepção, gozo, muito gozo e troca humana letal. É realmente incrível.
Por isso e por causa disso, que são poucos os que sabem usar da palavra (e outros entendê-la) com sensibilidade oculta. A palavra “suja” iminentemente lírica, funciona como grito crítico, que rasga a poderosa retórica. E isso incomoda – e muito - àqueles que se sentem confortáveis retoricamente, mas que não passam de homo-stegosaurus, por fazerem questão de não entender que fora de seus mundos, também há vida poética.
Para mim, então, posso afirmar após suar bastante para escrever este texto: muitas vezes a palavra dita “suja”, com dom, não é adereço, é atmosfera. É pura vida extraterrestre!...
------------------
Fontes: definição e discussão de “licença poética” em dicionários e guias didáticos; estudos acadêmicos sobre palavrão na poesia brasileira e sua função na lírica erótica e satírica; pesquisas internacionais sobre obscenidade e xingamento como recurso pragmático e estilístico; leituras críticas de Gregório de Matos, Glauco Mattoso, Hilda Hilst e da Beat Generation; teoria do realismo grotesco em Bakhtin.
Mín. 13° Máx. 20°