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Por que os 'homo-stegosaurus' ainda não entenderam o valor de um grito linguístico ‘sujo’?

A palavra “suja” iminentemente lírica, funciona como grito crítico, que rasga a poderosa retórica. E isso incomoda – e muito - àqueles que se sentem confortáveis retoricamente. (MHL).

17/11/2025 às 18h11 Atualizada em 17/11/2025 às 20h30
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln/Facetubes
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arte: mhl/arquivos
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Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma c/Mhario Lincoln.

 

Tive a honra e o prazer de conversar alguns minutos (por mensagem) com o poeta Bioque Mesito e o tema foi “liberdade poética”. Imediatamente meus dedos coçaram e desde então tenho tentado escrever sobre o tema. Difícil o mote porque, a tal da “licença poética”, apesar de ser algo que dá ao autor a oportunidade de “sair da casinha’ e desobedecer a algumas regras linguísticas e éticas (muitas delas insuportáveis) para alcançar um efeito estético, cognitivo ou emocional específico - e mesmo assim - não há uma espécie de ‘carta branca’ para o uso indiscriminado dessa licença. Além disso, não é qualquer bom poeta, que consegue encaixar uma “porra” no seu verso, e transformá-la em pacto retórico, entendível para o leitor.

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Memo porque, essa “liberdade” só se legitima quando não serve ao sentido exato; nem ao tom, mas à verdade artística do texto. Essa foi a razão para eu tentar descobrir alguns estudos que mostrassem que o ‘palavrão’, longe de ser apenas um desconforto ortográfico, poderia, também, intensificar realismo, marcar oralidade, revelar posição social, produzir humor e, sobretudo, convocar o corpo e a sensibilidade eutanásica do leitor para a cena do poema.

 

Por incrível que pareça, quando abri o “Google”, olha só o que encontrei:

 

"agora recluso entre gotas interestelares seringas peidos

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fortuitos e azedos o deserto de barreirinhas

é o arpoador das minhas

abstrações bundinhas tesas adornadas de branco

tangenciam minha

libido meu cacete endurece

entre uma e outra troca de antibióticos".

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Ele, Bioque Mesito! Antes havia folheado uma obra de Hilda Hilst. Contudo, não havia encontrado algo forte para singularizar minha escrita. E aí, Mesito aparece com esse texto que mostra o quanto é difícil se situar nessa perigosa linha tênue entre o poético e o obsceno.

 

Sobre esse texto poético acima, alguém já parou (mesmo) para ler e interpretar o que Mesito se referiu ao escrever “Leito Quatro”, em 2015, de cujo conteúdo tirei esses versos acima? São simplesmente deslumbrantes. Há uma envergadura calculada entre “gotas interestelares” e “seringas peidos fortuitos e azedos”. Alguém já viveu essa realidade? Sim! Muitos de nós já vivemos a mesma coisa e nunca fomos (eu e um monte de gente) calculistas suficientemente para escrever, reações almáticas dessa forma. Mesmo porque se insere no contexto, um certo medo de ferir suscetibilidades. E mais: medo igualmente do risco calculado do feedback, ao expor o nervo ciático de uma poética corajosa ao ponto de aceitar esse risco com uma finalidade precípua: dizer a verdade como catarse!

 

Bioque corre e correu esse risco de livre e espontânea vontade. Isso é sublime; é uma metáfora asseptizada em grilhões da ignorância. No mesmo poema, as “bundinhas tesas” se encaram no mesmo plano, devolvendo ao leitor a experiência concreta do desejo, da dor clínica (“troca de antibióticos”), da precariedade cotidiana, onde, de fato, o poeta se encontrava.

 

Surfando ainda mais no tema, no site “Academia.edu” procurei referências e encontrei explicações pertinentes a esse tipo corajoso de poesia, como que ferramentas pragmáticas e estilísticas, onde, na maioria dos casos, o ponto decisivo é a função e o entendimento irreal, licenciados. Lembrei de Lenny Bruce, comediante e crítico social norte-americano, célebre por levar aos palcos temas-tabu — sexo, religião, política — e por enfrentar processos de obscenidade que acabaram por transformá-lo em símbolo da liberdade de expressão no stand-up moderno. Ele dizia assim: “There are no dirty words, only dirty minds.” Tradução direta: “Não existem palavras sujas, apenas mentes sujas.”.

 

Bruce tem razão do porquê do palavrão ‘poético’ atuar como estilete crítico. E tal fato dá um medo incrível nos conservadores de ontem e de hoje. O que (eles) deveriam entender, todavia: esse tipo de manifestação (poucos sabem escrever), está mais para uma poesia de ataque, escrita com ampla lucidez; e não, com desleixo. Vide: “Poema Sujo”, de Ferreira Gullar.

 

Este é o ponto: o vocabulário forte parece podre na cabeça de quem “pensa podre” (Lenny Bruce), ou quer entender a intelectualidade do jeito que ‘pensa’ a intelectualidade. Por isso que alguns tiveram dificuldade em entender, por exemplo, “CISÃO AMÉM!”, um clássico de Mesito, em homenagem a outro grande nome da literatura brasileira: Antonio Aílton, por ocasião do seu aniversário de 50 anos.

 

Poetou Bioque Mesito: “satã faz habitat na planície da noite é mais belo que o compulsivo sexo da amante”. Será que o leitor parou para entender isso aqui, repergunto? É explícito, o implícito: pecados, frustrações, jogos, crenças, incensos, ilusões de ótica ilógicas e lógicas, dor, angústia, traição, decepção, gozo, muito gozo e troca humana letal. É realmente incrível.

 

Por isso e por causa disso, que são poucos os que sabem usar da palavra (e outros entendê-la) com sensibilidade oculta. A palavra “suja” iminentemente lírica, funciona como grito crítico, que rasga a poderosa retórica. E isso incomoda – e muito - àqueles que se sentem confortáveis retoricamente, mas que não passam de homo-stegosaurus, por fazerem questão de não entender que fora de seus mundos, também há vida poética.

 

Para mim, então, posso afirmar após suar bastante para escrever este texto: muitas vezes a palavra dita “suja”, com dom, não é adereço, é atmosfera. É pura vida extraterrestre!...

 

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Fontes: definição e discussão de “licença poética” em dicionários e guias didáticos; estudos acadêmicos sobre palavrão na poesia brasileira e sua função na lírica erótica e satírica; pesquisas internacionais sobre obscenidade e xingamento como recurso pragmático e estilístico; leituras críticas de Gregório de Matos, Glauco Mattoso, Hilda Hilst e da Beat Generation; teoria do realismo grotesco em Bakhtin.

 

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Bioque Mesito Há 7 meses São Luís-MA Obrigado, Mhario Lincoln, por escreveres e comentares um lado peculiar que existe em minha obra. Às vezes até acho que "exageras" ao me colocar em voga dessa forma. Mas entendo esse caminho que gostas de trilhar. Aos poucos vamos nos aproximando com o respeito e o carinho que deve existir neste caminho da literatura. Abraço, meu irmão!
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