
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
“Fragmentos do Olhar”, em cartaz no Convento das Mercês sob a chancela da Fundação da Memória Republicana Brasileira e do Governo do Maranhão, marca a estreia pública de Rogério Pelegrini como artista visual em grande formato – e as fotos das obras, no catálogo revelam, em close, a coerência desse projeto.
Magistrado de formação, nascido em Penápolis (SP) e radicado em São Luís, ele chega à sua primeira individual com uma produção iniciada há apenas três anos, e já organizada com rigor museográfico em trinta telas que cruzam memória, fotografia e pintura, numa narrativa visual em que a cidade, a família e a paisagem interior compõem um mesmo mapa afetivo.
A biografia recente explica parte da energia que vibra nas obras. Pelegrini mergulhou na pintura em 2022, no espaço Morada dos Artes, no Centro Histórico de São Luís, e desde então vem lapidando um vocabulário que claramente dialoga com o impressionismo e o realismo, filtrado pela experiência de quem passa o dia entre códigos e processos.
A editoria de Literatura e Arte, da Plataforma Nacional do Facetubes ao analisar o catálogo que apresenta a exposição, imediatamente destacou esse cruzamento entre "toga e tela", como bem escreveu o imortal AML, Daniel Blume, em feliz análise: a mesma atenção aos detalhes que o juiz aplica à prova dos autos, acaba migrando para o enquadramento técnico pluricolorido, mostrando o modo como as cores costuram luz e sombra. Cada tela, como registram as matérias de apresentação da mostra, é tratada como um fragmento de vivências pessoais – uma estrofe visual em que memória e presente se encontram.
Há de se destacar, por exemplo, as telas, “Portal do Reviver” e “Convento das Mercês”, onde a técnica (O/S/T) explora com precisão o repertório arquitetônico de São Luís: sacadas de ferro, janelas altas, pátios internos, palmeiras e escadarias aparecem em perspectivas calculadas, quase fotográficas, mas resolvidas com pincelada solta e cores saturadas.
O azul intenso das fachadas, o laranja das paredes históricas e o verde da vegetação formam contrastes complementares que remetem tanto à escola impressionista quanto à tradição de pintores maranhenses que fizeram da cidade um personagem luminoso. Não é turismo pictórico: é um olhar de morador adotivo que transforma cartão-postal em lugar de passagem íntima, de onde se vê o mar, o cais, a rua de infância que ele mesmo reconstrói em tinta.
Vale também ressaltar um clássico onde a maioria dos grandes artistas visuais, seja de qualquer época, recorre: a série de naturezas-mortas e flores – “Vaso Amarelo”, “Natureza Morta”, “Tulipas Gregas”. Todas essas, com mesma lógica de outras grandes obras. Assim, a composição é fechada, quase de estúdio, com fundo densamente trabalhado e volumes bem marcados.
O vaso, as frutas, as tulipas amarelas emergem de campos azuis e roxos construídos em camadas, sugerindo o uso de veladuras e sobreposição de cor para obter profundidade. A luz incide lateralmente, como num set fotográfico, talhando reflexos na cerâmica e nas superfícies brilhantes das frutas. O resultado é uma pintura de observação, mas também de memória: tudo parece um pouco mais vibrante do que seria no mundo real, como se o artista deliberadamente amplificasse a lembrança das coisas.
Pelo catálogo ainda se vê, trabalhos figurativos como “Minha Princesinha”, “Pajem e Daminha”, “Meu Príncipe”, revelando outro um fragmento de olhar de ternura que o artista explicita de forma carinhosa. “A Fazendinha” e outras paisagens rurais presentes no catálogo completam esse percurso, abrindo o quadro para horizontes mais largos. O verde úmido da margem do rio, a casa pequena ao fundo, a árvore em flor, o reflexo d’água, tudo indica um artista atento às gradações de cor na natureza, disposto a construir profundidade por planos sucessivos.
Diante de tão belos quadros, quase catarses, tinha que ter uma grande curadora por trás. Aí é que entra a assinatura da marchande Silvânia Tamer. Ela, sem dúvida, é decisiva. Pela experiêcia. Conhecida por conduzir projetos de longa duração com artistas como Fransoufer – de cuja obra destaca a pincelada firme e o uso de cores vibrantes ligadas à cultura popular maranhense – Silvânia traz para “Fragmentos do Olhar” a mesma capacidade de organizar narrativas visuais em torno da memória e da identidade.
Ao ordenar as telas em núcleos que alternam cidade, casa, campo e infância, ela transforma o percurso expositivo em uma espécie de diário fragmentado, em que o visitante reconhece no artista não só o magistrado, mas o caminhante, o pai, o fotógrafo, o menino que ainda olha o mundo com curiosidade.
Fora do circuito estrito das galerias, Silvânia também tem se destacado por iniciativas ligadas à leitura e aos clubes de livros, o que reforça o traço pedagógico e democratizador de sua atuação: aproximar público, literatura e artes visuais como experiências que se iluminam mutuamente.
Desta forma, o leitor percebe que “Fragmentos do Olhar” não é simples inventário de belas paisagens ou cenas domésticas. É o registro inaugural de um percurso que cruza toga e cavalete, fotografia e óleo sobre tela, rigor e delicadeza. Ao assumir o risco de seu primeiro voo solo, Rogério Pelegrini coloca diante do público não a vaidade de um hobby, mas o começo de uma obra que se quer duradoura. E a curadoria sensível de Silvânia Tamer, apoiada pelos patrocinadores da mostra, garante que esses fragmentos encontrem o lugar certo: o olhar de quem, ao sair do Convento das Mercês, passa a ver a própria cidade – e a própria vida – com outras cores.
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
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