
Luis Augusto Guterres
“Muitos são os prodígios; entretanto, nada é mais prodigioso do que o homem.” — Sófocles.
O recente best-seller do escritor Sérgio Rodrigues, Escrever é humano: como dar vida à sua escrita em tempos de robôs, lança uma indagação provocadora: se a inteligência artificial generativa tornou possível criar, em instantes, um texto melhor que o da imensa maioria dos escribas humanos, estaria a milenar tradição da escrita literária condenada a desaparecer?
Atualmente, diversas ferramentas — ou “plataformas”, em linguagem mais moderna — estão à disposição para a elaboração dos mais variados tipos de textos: acadêmicos, jurídicos, científicos, redacionais e até poéticos. Entre as mais conhecidas, destacam-se o Google Gemini, que pode ser usado para gerar textos; o ChatGPT, um dos modelos mais versáteis e amplamente aplicáveis, capaz de criar e aprimorar textos; o Wordtune, que ajuda a reescrever frases, melhorando clareza, tom e fluidez, sendo especialmente útil na escrita acadêmica; e o Hemingway Editor, que simplifica frases complexas e aprimora a estrutura geral do texto.
É prescindível dizer que os textos gerados por essas ferramentas, sobretudo os de cunho literário, geralmente soam artificiais. Frequentemente se apoiam em clichês e imagens óbvias de natureza burlesca. Por exemplo: se pedirmos a uma IA que crie um conto sobre uma pessoa solitária, ela provavelmente começará com algo como “numa casinha perdida no fundo do vale...”. Se, por outro lado, o pedido for uma poesia, é possível esperar uma profusão de oximoros do tipo “o fogo gelado do amor” ou “teus sorrisos são minhas lágrimas”.
No mundo jurídico, já se percebe a resistência ao uso de IAs sem a devida responsabilidade. Há casos de advogados que causaram prejuízos aos jurisdicionados com petições anuladas, por conterem ementas ou citações falsas — geradas aleatoriamente pelas máquinas, sem compromisso com a veracidade. Além disso, surgem peças excessivamente longas e monótonas, que apenas aumentam o volume de trabalho dos julgadores e contribuem para a morosidade do Judiciário. No outro lado do balcão da justiça, magistrados também já foram advertidos ou sancionados por órgãos reguladores devido ao uso indevido e desmedido da automação na elaboração de despachos e sentenças.
A criação humana na arte literária, assim como a produção das IAs, pode cair em clichês. Afinal, quantas histórias, novelas e filmes não foram inspirados — ou meramente copiados — de Romeu e Julieta, a tragédia do amor impossível que Shakespeare tornou imortal? Quantos célebres autores não foram influenciados por antecessores ilustres? Gabriel García Márquez, ao explorar o realismo fantástico, teria feito um “control C” de Kafka?
A resposta a tais questionamentos é simples: a genialidade humana é insuperável. Ainda que a literatura se repita em temas e motivos comuns a vários autores, cada obra possui um DNA único, distinguido por um estilo próprio, geralmente inimitável — algo impossível de ser recriado por uma máquina. O que nos leva a finalizar citando uma frase associada a Ferreira Gullar: O universo maior é o próprio homem.
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