
*Mhario Lincoln
“Gracilene Pinto enxerga a ambivalência do progresso mutações recentes: casas ainda inacabadas por dentro, mas com TV, parabólica, celular caro e moto na porta; a passagem da rede de fio para o sofá diante da novela; a substituição das farinhadas e engenhos por produtos importados de outros estados; o impacto dos programas de transferência de renda na lógica do trabalho e da autonomia (...)”.
Conheci há alguns anos, em São Luís, a autora. Minha mãe Flor de Lys a convidou, inclusive, para ser candidata a Miss Maranhão. Depois desse episódio, nunca mais a tinha visto. Eis que de repente, nos cruzamos pela FALMA e a partir daí passei a conhecer toda uma plêiade de trabalhos que ela escreve de forma brilhante, como por exemplo, este “Serões na Baixada do Maranhão”, que ora resenho com muita emoção.
Sim! Emoção porque ao lê-lo com acuidade cordiana, notei como ela conseguiu resgatar na linguagem escrita, um modo de falar, sentir e conviver com os originais dos terreiros, das redes, dos campos alagados, antes de qualquer tela de LED ou uso frequente do tal do celular. E nessa época – eis a razão de meu lado emotivo, também – tive o prazer de participar do Projeto Rondon”, na região e lá aprendi a ver, a sentir e a degustar, por exemplo, a tradicional “Ceia de Bagre”. Aliás, nessa época, conheci minha primeira namoradinha, a Dolores, que era nascida em Pinheiro (MA).
Pois bem, ao ler Gracilene Pinto, comecei a entender, um palavriado inesquecível: o “conversê” dos baixadeiros como arquivo vivo da memória. Sem dúvida, aquilo que preserva o que a História oficial costuma dispensar. Essa, acredito eu, é a matriz do livro, quase uma biografia comunitária. Gracilene explica, inclusive, que esses relatos começaram a ser recolhidos ainda na pesquisa para seu primeiro livro, e só ganharam corpo depois do AVC que a obrigou a interromper a vida ativa e a “parar”, “uma parada física que vira movimento de escrita”, explicou depois, em longo telefonema, para comemorar esse reencontro. Ela em São Luís; eu, em Curitiba-PR.
A bem da verdade, essas crônicas, pelo que entendi, nasceram de noites enluaradas em São Vicente Férrer, São João Batista, Viana, sob a “orquestra de sapos e grilos” e a fala interminável de pais, tios, vizinhos e serandeiros.
Por outro lado, o eixo forte da obra é o contraste entre o serão antigo e a sociabilidade contemporânea. A autora descreve o hábito de pôr cadeiras na calçada, tocar violão, ouvir causos, acompanhar a vida da comunidade – prática hoje rarefeita pela violência urbana e pela centralidade da televisão e, depois, do WhatsApp. O “pau da jura”, tronco de árvore que funcionava como pequeno parlamento popular em São Vicente, migra simbolicamente para os grupos de aplicativo: a roda de conversa se virtualiza, amplia o raio (já não é só o município, mas toda a Baixada), mas perde o corpo, o cheiro, o risco calculado da noite.
Há, aí, uma crítica clara à importação de hábitos “alienígenas”, vamos dizer assim, que desestruturam o tecido comunitário sem oferecer em troca novos valores sólidos. Outra vertente essencial é o retrato do “caboclo e seu viver”. Gracilene desmonta o seu estereótipo. Mostra o homem da Baixada que acorda ao primeiro canto do galo, trabalha na roça, na pesca, na farinhada, extenuado, e encontra na rede, na comida simples e na conversa o seu horizonte de felicidade possível.
Ao mesmo tempo, ela não idealiza: denuncia a acomodação, a falta de ambição, o “quinto homem” que não trabalha mas é ganancioso, e a forma como políticas públicas mal desenhadas podem reforçar esse imobilismo. O texto alterna ternura e dureza, num tom que lembra crônica sociológica. Há empatia com a pobreza, mas também um incômodo ético com a renúncia aos próprios potenciais.
O livro também investiga as mutações recentes: casas ainda inacabadas por dentro, mas com TV, parabólica, celular caro e moto na porta; a passagem da rede de fio para o sofá diante da novela; a substituição das farinhadas e engenhos por produtos importados de outros estados; o impacto dos programas de transferência de renda na lógica do trabalho e da autonomia.
Gracilene, assim, enxerga a ambivalência do progresso – a estrada MA-214, por exemplo, como vetor de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, de criminalidade – e insiste num “caminho do meio”: usar o que há de melhor da tradição como base de um desenvolvimento sustentável, que passe por iniciativas como o Fórum em Defesa da Baixada e projetos de piscicultura e cachaça artesanal.
Há, ainda, um capítulo muito eloquente sobre “os medos e as crenças”. Em vez de ridicularizar visagens, curacangas, lobisomens e discos voadores, a autora trata essas figuras como índice de uma cosmologia própria, onde natureza, mortos e vivos se misturam. Ela registra o medo, o encantamento e a persistência dessas narrativas – agora também debatidas em grupos de WhatsApp; contrapondo-se à explicação científica do ‘fogo fátuo’, ratificando o que disse Shakespeare: há mais coisas entre céu e terra do que supõe a filosofia. A crônica constrói uma ponte entre imaginação popular e saber erudito, reconhecendo que tais crenças são, em si, uma forma de organizar o desconhecido.
Outra beleza que eu simplesmente achei muito interessante. “Serões na Baixada do Maranhão” opera num registro híbrido. Sem dúvida é um documento memorialista. Mas igualmente, ensaístico e francamente jornalístico. A linguagem alterna o português padrão com regionalismos (“baixadeiro”, “menineiro”, “taliquá”), diálogos saborosos e ditados, mas – olha essa bela técnica dela - está sempre atravessada por referências cultas, citando Eça de Queirós, Gonçalves Dias, Shakespeare, a Bíblia, que colocam a Baixada em diálogo com a literatura universal.
Esse cruzamento produz um efeito interessante porque o leitor (como eu) acaba percebendo que a conversa de calçada não é “menor”. É outra forma, igualmente legítima, de pensar o mundo. Isso me levou a outro ponto fundamental do livro. Seu caráter político subterrâneo. Ao narrar causos sobre tesouros enterrados, esperteza cabocla, relações de compadrio, clientelismo, promessas de campanha e a transformação do prefeito em “pai” de todos, Gracilene está, na prática, descrevendo o modo como o poder circula na Baixada – e como a mesma astúcia que protege o caboclo também pode alimentá-lo de ilusões.
É sensacional a maneira como ela registra iniciativas recentes de organização coletiva e projetos produtivos de longo prazo. Por isso, esse livro me fez um homem maranhense muito mais original e imediatamente afastar quaisquer que sejam as influências de uma nova realidade em que vivo. Ler “Serões na Baixada do Maranhão”, assim, é se descolar do puro saudosismo e se afirmar como interventor memorial de uma mobília intelectual e vivencial do que se perdeu. Essa obra acabou me dando forças para engrossar na fileira daqueles que são convocados garantir a imortalidade baixadeira, tão importante para a história.
Claro que eu vou lendo a obra e vou me lembrando de outras que também li. Nessa leitura de essência, me veio José Lins do Rego, especialmente em “Menino de engenho”. Mutatis Mutandi, ambos partem da memória de infância e da observação íntima do ambiente de vida, para narrar um mundo em transição. Até tomei a liberdade, em meu bestunto, de comparar José Lins e Gracilene.
Convidando ambos para a mesma mesa, descobri que as duas obras revelam um parentesco fundamental: a convicção de que o Nordeste não é apenas cenário, mas personagem; que o “pequeno mundo” de uma região, seja o engenho paraibano, seja o baixadeiro maranhense, os dois contêm, em miniatura, tensões universais entre tradição e mudança, pobreza e dignidade, fatalismo e desejo de futuro. Se José Lins é o romancista da grande estrutura em declínio, Gracilene se afirma como cronista de um patrimônio imaterial ameaçado.
Lidas em conjunto, as duas vozes ajudam a redesenhar o mapa simbólico do Nordeste: não só sertão e seca, mas também lagoas, campos, serões e uma conversa teimosa que insiste em sobreviver. E como meu neto costuma dizer nessa linguagem nova e ameaçante, maçante e desentendível: “Tô dentro!”. Sim estou dentro, quando o assunto é preservação de um patrimônio imaterial tão justo, tão lindo e tão abandonado...
Obrigado por me enviar seu livro, Gracilene Pinto.
Curitiba, 17.11,2025 3.15h da madrugada.
Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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