
Editoria de Literatura e arte da Plataforma Nacional do Facetubes.
A "poesia nova" em São Paulo capital não se restringe a um movimento único e coeso, mas sim a um cenário diversificado e vibrante, marcado por uma forte presença da periferia, a oralidade, a performance e a valorização do cotidiano urbano.
As principais características e manifestações incluem:
Poesia da Periferia e Slams: Um dos movimentos mais potentes é a poesia que emerge das periferias, frequentemente apresentada em formato de slams (competições poéticas) e saraus. Nomes como Sérgio Vaz são referências importantes, levando a voz da "quebrada" para o centro da cidade e para museus. A USP, por exemplo, já ofereceu oficinas de texto de slam, reconhecendo a relevância do movimento.
Oralidade e Performance: Diferente da poesia tradicionalmente confinada às páginas, a poesia nova em São Paulo frequentemente valoriza a performance e a palavra falada. Eventos em centros culturais, bares e espaços públicos transformam a poesia em uma experiência coletiva e performática.
Temática Urbana e Social: A cidade de São Paulo, com suas dicotomias (moderna e arcaica, aberta e fechada, riqueza e pobreza), é um cenário constante nos versos dos novos poetas. Questões sociais, como a população de moradores de rua e a desigualdade, são temas recorrentes.
Hoje uma das poetas mais respeitadas nesse novo gênero poético: Mel Duarte nasceu na primavera de 1988 em São Paulo. É escritora, poeta, slammer, produtora cultural e atua com literatura desde 2006. Também integra a coletiva Slam das Minas SP, batalha de poesias autorais voltada ao gênero feminino. Publicou os livros “Fragmentos Dispersos” (2013), “Negra Nua Crua” (2016) traduzido para o espanhol “Negra Desnuda Cruda” (2018, Espanha) e “Querem nos calar.
orquídea roxa
Mel Duarte
Entre a distância do que os olhos dizem e as palavras enxergam
existe um corpo negro imerso em pensamentos
as mulheres que nele habitam falam ao mesmo tempo,
e hoje entendo que até o caos pode ser acolhimento.
Percebi que desatar os nós que me prendem
é tão importante quanto firmar os que me fortalecem
e essa força que me puxa pra baixo, mesmo com os pés cansados
vem pra ficar raiz e me conectar com o passado.
Me pergunto:
De tudo que guardo no peito, o que posso trazer á tona pra me dar mais acalento?
De tudo que ofereço pro mundo, o que posso absorver agora dele
pra me despertar mais conhecimento?
São tantas perguntas, tantos anseios
essa pausa no tempo, esse silêncio…
Então, contemplo o desabrochar da minha orquídea roxa
enquanto espero pelo prenúncio de novos tempos
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O TEMPO URGE!
Francisco Baia (MA)
Esse canto,
que encanta minh’alma,
que me acalma, me faz
rever a intenção de ter
constantemente, e me leva
a aprisionar-me na masmorra
da minha dor, antes que morra
por ti, o meu amor.
Dói, sangra,
dilacera todo o desejo
que acumulo há tempo;
todavia, nada posso fazer,
a não ser te esperar, sentado
talvez sobre o monte
mais alto da minha paciência
e desejar que a profecia
daqueles que enaltecem
a poesia, se cumpra, e você
venha vestida com o véu
belo e transparente do céu,
acompanhada co’anjos
tocando acordes suaves
das boas novas, carregada
pelas estrelas, sobre as
nuvens do infinito!
Ah! Como te espero,
e só em pensar esse dia
me desespero em
arrumar minha alegria
desesperada — euforia
de um sentimento ávido
de carência, da essência
que te envolve completamente.
Tocar-te inteiramente
com dedos de pianista
é um sonho que não carece
ser acordado; beijar-te,
docemente, sofregamente,
é um afã que precisa ser
realizado; sentir, enfim,
teu corpo pueril, ardente,
quente, viril — é loucura
dominante nesse teu
homem, que só implora
um cadinho do teu momento,
pra não terminar sozinho,
morto de sentimento,
sem amar, sem tempo.
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Silêncio musical
Tânia Rêgo (MA)
Estou só
Solidão abissal
Noite de três meses
Corte real
Caíram por terra
Certezas
Geleira selvagem
Inacessível
Restando o vital
Sobrevivência
Amor na sua verdadeira face
Ele que nunca houvera existido
Agora o sei
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EPÍLOGO
Leonardo de Magalhaens (BH).
Angustiado, no alto do Mangabeiras,
contemplo a cidade enfumaçada —
trânsito, buzinas, lama, bueiros,
onde a flor nasce na asfaltada
avenida da metrópole, ex-jardim
cidade de condomínios e grades,
cheia de migalhas dos festins
aos mendigos, gente sem vaidades,
trapos que o rude vento carrega.
Quero flanar só por entre as ruas
loucas de noturnos, música brega,
seguindo os vultos leves de Hildas nuas.
Te amo e odeio, cidade planejada,
templo de consumo de mil produtos,
que exploras vil a igualdade adiada.
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ENTRE FLORES, CORES E AROMAS
Maura Luza Frazão. São Luís – MA/Brasil.
Cultivei belas flores
Adotando visão Shakespeariana
Regando meus interiores
Com fragrâncias, cores, sabores.
Meu jardim?
Eu mesma projetei
Pedacinhos de mim
Por todos os canteiros espalhei.
Meu beija-flor?
Cativo permanece
Entre laços, fitas, aromas. Aquiesce.
Ao decorar minha alma
Encantei-te sem pudor
Sou tua verdade, tua amante, teu amor.
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