
Editoria de Música – Plataforma Nacional do Facetubes.
Ilustração: Prompts de MHL/GINAI-Facetubes Artificial Intelligence Management
Jards Anet da Silva, o Jards Macalé, nasceu na Tijuca, nas imediações do Morro da Formiga, ouvindo ao mesmo tempo os batuques do morro e as valsas ao piano tocadas pela mãe, Lígia, enquanto o pai dedilhava o acordeom em casa. Nesse caldeirão de foxes, modinhas, samba e rádio, o menino tímido que cantava em coro com o irmão foi se formando músico por dentro, até ganhar o apelido “Macalé” nas peladas de Ipanema, e depois o Brasil inteiro. Antes de se tornar o “anjo torto” da MPB, construiu uma base sólida: estudou piano e orquestração com Guerra Peixe, violino e violoncelo com professores eruditos e violão com mestres como Turíbio Santos, conectando rigor clássico com a rua carioca.
Nos anos 1960, Macalé começou a aparecer como uma presença rara na cena do Rio. Tocava na Churrascaria Pirajá, em Ipanema, endereço frequentado por Vinicius de Moraes e Grande Otelo, e se integrava ao Grupo Opinião como violonista em espetáculos músico-teatrais. A casa da família virou ponto de encontro quando ele passou a hospedar Maria Bethânia, recém-chegada do Opinião. Em 1964, sua primeira composição gravada, “Meu mundo é seu”, na voz de Elizeth Cardoso, mostrou que aquele violão “sujo”, de ataque aparentemente desleixado, escondia uma técnica refinada e um compositor com assinatura própria.
O início dos anos 1970 consolidou Jards Macalé como peça fundamental da renovação da música brasileira. Em 1971, ele foi a Londres a convite de Caetano Veloso e se tornou violonista solo e produtor musical de Transa, um dos discos mais cultuados da carreira de Caetano.
No retorno ao Brasil, em 1972, lançou o primeiro LP, Jards Macalé, um power trio em plena MPB: violão de Macalé, guitarra de Lanny Gordin e bateria de Tutty Moreno. O álbum reuniu parcerias com poetas como Waly Salomão, Torquato Neto, Capinam e Duda Machado, abrindo caminho para canções que se tornariam clássicos do repertório brasileiro, como “Vapor Barato”, “Hotel das Estrelas” e “Mal Secreto”, que depois ganhariam leituras de Gal Costa, Maria Bethânia, O Rappa e tantas outras vozes.
Em paralelo à discografia, Macalé foi um articulador de encontros históricos. Em 1973, organizou o show O Banquete dos Mendigos, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, inicialmente para se ajudar financeiramente e, depois, como celebração musical da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O registro ao vivo, lançado mais tarde em disco, junta um elenco impressionante: Paulinho da Viola, Chico Buarque, Gonzaguinha, Raul Seixas, Gal Costa, Edu Lobo, Milton Nascimento, Dominguinhos, entre outros, com Macalé no centro, como mestre de cerimônias de uma noite em que a canção brasileira mostrou sua força coletiva.
Os anos seguintes revelaram um artista que recusava repetir a própria fórmula. Aprender a Nadar (1974), mais experimental, retomava sambas e boleros da infância; depois viriam Contrastes (1976) e projetos como Quatro Batutas e um Coringa (1987), em que relia Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues e Geraldo Pereira, recolocando o samba tradicional sob luz moderna sem nunca desrespeitar suas raízes.
Na virada do século, o tributo Macalé Canta Moreira (2000) reafirmou o diálogo amoroso com Moreira da Silva, ídolo e parceiro, e o álbum O Q Faço é Música (1998) mostrou um compositor maduro, menos vanguardista na superfície, mas ainda inquieto na forma de misturar samba, choro, blues e ecos de rock num mesmo corpo de canções.
Das parcerias com Waly Salomão emergiram verdadeiros manifestos sonoros, mais tarde revisitados em Real Grandeza (2005), que reuniu exclusivamente canções dessa dupla, com participações de Maria Bethânia, Luiz Melodia e Adriana Calcanhotto.
Já Macao (2008) trouxe um Macalé intimista, em tom de conversa ao pé do ouvido, relendo clássicos próprios e alheios. Em paralelo, ele seguia compondo trilhas para o cinema — de Macunaíma a O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro — e participando como ator, sempre transitando entre o experimental e o popular com naturalidade rara na música brasileira
A consagração tardia de Besta Fera (2019) mostrou que o anjo torto continuava em voo alto. O disco, primeiro de inéditas em duas décadas, uniu Macalé a uma nova geração de criadores — Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Juçara Marçal, Tim Bernardes, Ava Rocha, entre outros — e foi indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira, além de figurar entre os melhores trabalhos do ano para a crítica especializada.
Em 2020, sua trajetória ganhou registro aprofundado no livro Eu Só Faço o Que Quero, de Frederico Coelho, um “ensaio biográfico” que acompanha a vida e a obra de um artista que preferia o risco à acomodação.
Até os últimos anos, Macalé seguia em cena: comemorou 80 anos em shows voz e violão, recebeu homenagens em programas de TV, levou sua música a turnês internacionais e celebrou 50 anos de álbuns históricos em palcos da Europa. Sua morte, em 2025, encerra a presença física, mas não o diálogo que sua obra mantém com cada ouvido disposto a escutar. Ficam o violão de ataque indócil, a voz rouca que sabia ser doce e ferina, e uma coleção de canções que lembram ao país que a música brasileira é mais profunda quando aceita a contradição, a melancolia e o humor como parte da mesma partitura. Ouvir Jards Macalé hoje é reencontrar um Brasil que se permite ser complexo, indomável e, por isso mesmo, inesquecível.
VÍDEO-BÔNUS
O primeiro grande sucesso de Jards Macalé, na voz da imortal Elizete Cardoso
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