"Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira". Manoel de Barros /// Agostinho de Hipona – "Não gritem contra mim os comerciantes da gramática, pois, se eu os interrogar sobre se é verdade [...] como afirma o poeta, os néscios responderão que não sabem, e os sábios negarão o fato".
Agostinho de Hipona – És grande, Senhor e infinitamente digno de ser louvado; grande é teu poder, e incomensurável tua sabedoria
Manoel de Barros – É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Agostinho de Hipona – E o homem, pequena parte de tua criação quer louvar-te, e precisamente o homem que, revestido de sua mortalidade, traz em si o testemunho do pecado e a prova de que resistes aos soberbos.
Manoel de Barros – Tudo que não invento é falso.
Agostinho de Hipona – Acaso não estás todo em todas as partes, sem que haja coisa alguma que te contenha totalmente?
Manoel de Barros – Tem mais presença em mim o que me falta.
Agostinho de Hipona – Tao oculto e tão presente, formosíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível; imutável, mudando todas as coisas; nunca novo e nunca velho; renovador de todas as coisas, conduzindo à ruína os soberbos sem que eles o saibam; sempre agindo e sempre repouso; sempre sustentando, enchendo e protegendo; sempre criando, nutrindo e aperfeiçoando, sempre buscando, ainda que nada te falte.
Manoel de Barros – Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Agostinho de Hipona – Dize a minha alma: Eu sou a tua salvação. Que eu ouça e siga essa voz e te alcance. Não queiras esconder-me teu rosto. Morra eu para que possa vê-lo para não morrer eternamente.
Manoel de Barros – Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Agostinho de Hipona – Não quero contender em juízos contigo, que és a verdade, e não quero enganar-me a mim mesmo, para que não se engane a si mesma minha iniquidade.
Manoel de Barros – Sou muito preparado de conflitos.
Agostinho de Hipona – Permita, porém, que eu fale em presença de tua misericórdia, a mim, terra e cinza; deixa que eu fale, porque é à tua misericórdia que falo, e não ao homem, que de mim escarnece. Talvez também tu te rias de mim, mas, voltado para mim, terás compaixão.
Manoel de Barros – Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
Agostinho de Hipona – Acaso alguém pode ser artífice de si mesmo? Porventura existirá algum outro manancial por onde corra até nós o ser e a vida, diferente da que nos dais, Senhor, tu em quem ser e vida não são coisas distintas, porque és o Sumo Ser e a Suprema Vida?
Manoel de Barros – O meu amanhecer vai ser de noite.
Agostinho de Hipona – Que importa que alguém não entenda essas coisas? Que este alguém se ria, e diga: que é isto? Que se ria assim, e que prefira encontrar-te sem indagação do que, indagando, não te encontrar.
Manoel de Barros – Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
Agostinho de Hipona – Logo, era então digno de repreensão o meu proceder; mas como não podia entender a censura, nem o costume nem a razão permitiam que eu fosse repreendido.
Manoel de Barros – O que sustenta a encantação de um verso é o ilogismo.
Agostinho de Hipona – Por isso, sendo tais coisas perdoáveis em um menino, quando se acham em um adulto, mal as podemos suportar.
Manoel de Barros – Sábio é o que adivinha.
Agostinho de Hipona – Tenho vergonha, Senhor, de ter de somar à vida terrena que vivo aquela idade que não recordo ter vivido, na qual acredito pelo testemunho de outros, por vê-lo assim em outras crianças, embora essa conjectura mereça toda a fé.
Manoel de Barros – Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
Agostinho de Hipona – Para que ocupar-se dele, se dele já não conservo nenhuma lembrança?
Manoel de Barros – A inércia é meu ato principal.
Agostinho de Hipona – Mas donde podia proceder essa aversão, senão do pecado e da vaidade da vida, porque eu era carne e vento que caminha e não volta?
Manoel de Barros – Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Agostinho de Hipona – Não gritem contra mim os comerciantes da gramática, pois, se eu os interrogar sobre se é verdade [...] como afirma o poeta, os néscios responderão que não sabem, e os sábios negarão o fato.
Manoel de Barros – Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Agostinho de Hipona – Do mesmo modo, se lhes perguntar o que seria mais prejudicial para a vida humana: esquecer o ler e o escrever, ou todas as ficções dos poetas, quem não vê que logo responderia aquele que não estivesse de tudo esquecido de ti?
Manoel de Barros – Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Agostinho de Hipona – Era a dificuldade de ter de aprender totalmente uma língua estranha que, como fel, aspergia de amargura todas as doçuras das fábulas gregas.
Manoel de Barros – Eu queria ser lido pelas pedras.
Agostinho de Hipona – Eu ainda não conhecia nenhuma palavra daquela língua, e já me obrigavam com veemência, com crueldades e terríveis castigos, a aprendê-la.
Manoel de Barros – As palavras me escondem sem cuidado.
Agostinho de Hipona – [...] eu, ainda criança, também não conhecia nenhuma palavra de latim; contudo, com um pouco de atenção, o aprendi [...] impelido unicamente por meu coração desejoso de dar à luz seus sentimentos, e o único caminho para isso era aprender algumas palavras, não dos que as ensinavam, mas do que falavam, em cujos ouvidos ia eu depositando quanto sentia.
Manoel de Barros – Aonde eu não estou as palavras me acham.
Agostinho de Hipona – Muitas palavras úteis aprendi nelas, é verdade; porém, estas também se podem aprender em estudos sérios, e este é o caminho seguro pelo qual deveriam encaminhar as crianças.
Manoel de Barros – Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Agostinho de Hipona – Acaso não foi em ti que li a fábula de Júpiter que troveja e adultera? É verdade que não podia fazer tais coisas ao mesmo tempo, mas assim se representou para autorizar a imitação de um verdadeiro adultério com o encantamento de um falso trovão.
Manoel de Barros – A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Agostinho de Hipona – “Aqui se aprendem as palavras; aqui se adquire a eloquência, tão necessária para persuadir e explicar os pensamentos; não poderíamos, pois, aprender as palavras:
Manoel de Barros – Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Agostinho de Hipona – E, não obstante, meu Deus, cuja presença me protege desta lembrança, confesso que aprendi estas coisas com gosto e que, miserável, nelas me comprazi, sendo por isso chamado menino de grandes esperanças.
Manoel de Barros – Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Agostinho de Hipona – Assim peca a alma, quando se aparta e busca fora de ti o que não pode achar puro e ilibado senão quando se volta novamente para ti. Perversamente te imitam todos os que se afastam de ti e se levantam contra ti. Porém, mesmo imitando-te, mostram que és o criador de toda criatura e que, portanto, não existe lugar onde alguém se possa afastar de ti de modo absoluto.
Manoel de Barros – Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Agostinho de Hipona – Mas eu, desventurado, amava então a dor, e buscava motivos para senti-la. Naquelas desgraças alheias, falsas e mímicas, agradava-me tanto mais a ação do ator, e me mantinha tanto mais atento quanto mais copiosas lágrimas me fazia derramar.
Manoel de Barros – O artista é erro da natureza.
Agostinho de Hipona – “Verdade! Verdade!” – Incessantemente, falavam-me da verdade, que nunca existiu neles; antes, diziam muitas falsidades, não apenas de ti, que és verdade por excelência, mas também dos elementos deste mundo, criação tua. Sobre isso, mesmo quando os filósofos diziam a verdade, tive de ultrapassá-los nos raciocínios por amor de ti, ó pai sumamente bom, beleza de todas as belezas!
Manoel de Barros – Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
Agostinho de Hipona – Essa a razão pela qual só se pode voltar para ti com piedade humilde, para assim purificares nossos maus costumes; pela piedade te mostras, propício, com pecados dos que te confessam e ouves gemidos de cativos. Nos livras dos grilhões que nós mesmo forjamos, contanto que não ergamos contra ti os chifres de uma falsa liberdade, quer arrastados pela cobiça de mais haveres, quer pelo medo que temos de perder tudo, preferindo nosso próprio egoísmo a ti, Bem de todos.
Manoel de Barros – Por pudor sou impuro.
Agostinho de Hipona – De fato, sem ti, que sou eu para mim mesmo senão um guia que conduz ao abismo? Ou que sou eu, quando tudo me corre bem, senão uma criança que suga o leite, e que se alimenta de ti, alimento incorruptível? E que é o homem, seja ele quem for, se é homem?
Manoel de Barros – O branco me corrompe.
Agostinho de Hipona – Lembro-me também de que, querendo participar de um certame de poesia, um arúspide mandou-me indagar que dádiva lhe daria para eu sair vencedor. Mas eu, que abominava aqueles nefandos sortilégios, respondi-lhe que não consentiria que se matasse uma mosca para obter a vitória, mesmo que o prêmio fosse uma coroa de ouro incorruptível [...]
Manoel de Barros – Não gosto de palavra acostumada.
Agostinho de Hipona – Lento é o sentido da carne, por ser da carne, mas essa é a sua condição. É suficiente para o que foi criado, mas não o é para reter o curso das coisas, do princípio que lhes foi fixado, até o fim que lhes foi designado, porque em teu Verbo, que as criou, ouvem estas palavras: “Daqui até ali”.
Manoel de Barros – A minha diferença é sempre menos.
Agostinho de Hipona – Eis onde jaz enferma a alma que ainda não se apoiou na firmeza da verdade. É levada e trazida, atirada e rechaçada, segundo os sopros das línguas que ventam dos peitos dos que opinam! E de tal modo a luz lhe é toldada, que não distingue a verdade, apesar de estar ela à nossa vista.
Manoel de Barros – Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Agostinho de Hipona – E que maior soberba haveria que afirmar, com inaudita loucura, que eu era da mesma natureza que tu? Porque, sendo eu mutável, e reconhecendo-me tal – pois, se queria ser sábio, era para fazer-me de menos para mais perfeito – preferia, contudo, julgar mutável a ti do que não ser o que tu és.
Manoel de Barros – Não preciso do fim para chegar.
Agostinho de Hipona – Nesse tempo, veio-me à mente a ideia de que os filósofos chamados acadêmicos haviam sido mais prudentes que os outros, por sustentarem que se deve duvidar de tudo, e que nenhuma verdade pode ser compreendida pelo homem. Julguei então que era esse o seu pensamento, como geralmente se crê, não tendo ainda compreendido suas verdadeiras intenções.
Manoel de Barros – Do lugar onde estou já fui embora.
Olhando cada um no que faz, lendo o que escreveram, ouvindo o silêncio das palavras escritas, fui adaptando aqui e ali, mas, ao final, me vejo feliz pelo resultado. Eu não esperava um tratado de retórica, ou uma acalorada discussão jurídica, porém, creio que a conversa aconteceu, com todas as nuances de duas pessoas que realmente, não davam a mínima, um para o outro. Pude me colocar em paz, descansar. Não há quem possa dizer que não cumpri a missão, portanto, não preciso me preocupar com mais nada. Sei que Mhario Lincoln resenhará; Keila Martha comentará, se mais alguém se pronunciará, não sei. Resta saber se João Batista Gomes do Lago, se dirá por satisfeito.
Agora, quero descansar a cabeça. A pesquisa foi extensa e intensa. Putz..., mergulhei a fundo numa piscina existente na casa de Morpheu. Emergi assustado. Acima da lamina d'água estava bem claro. Olhei o celular para ver as horas e ele estava desligado. Bateria em zero. Caraca, então o João Batista não me ligou?
Fiquei estupefato. Entendi. Que sonho!
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