Marco Neves (Portugal)
Na Antiguidade, não se usavam habitualmente sinais de pontuação — e nem sequer espaços. Por exemplo, neste manuscrito do século IV (Vergilius Augusteus) não vemos nem espaços nem pontuação.
Ao longo do tempo, lá fomos inventando os espaços, os pontos, as vírgulas. Estes sinais começaram por assinalar pausas e entoações, para ajudar na leitura em voz alta, mas também passaram a mostrar como se organizam os textos e as frases, ajudando a ler em silêncio.
A pontuação é muito parecida nas várias línguas da Europa, mas há alguns pontos em que as línguas seguiram caminhos diferentes. Basta pensar nos pontos de interrogação e exclamação ao contrário que vemos no início de muitas frases em castelhano: também já existiram em português, mas perderam-se ao longo do século XX.
O uso dos sinais também vai mudando ao longo do tempo: por exemplo, se formos ver livros publicados no século XIX, encontramos muito mais vírgulas, mesmo entre sujeito e predicado (o grande pecado da pontuação actual).
Não sei porquê, mas gosto muito destes sinais. Quando conversamos uns com os outros, usamos a voz, mas também o resto do corpo: a cara, os olhos, as sobrancelhas, as mãos… A própria disposição do corpo ajuda-nos a transmitir a mensagem — e, às vezes, até transmite mais do que queremos. Ora, quando escrevemos, estamos a conversar sem que nos vejam. A pontuação ajuda-nos a substituir as mãos, a cara, o corpo. Não chega, mas ajuda muito.
Nos dias de hoje, escrevemos constantemente, provavelmente mais do que em qualquer outra época da história. Conversamos por escrito, namoramos por escrito, zangamo-nos por escrito.
Ora, a pontuação ajuda quem nos lê a compreender-nos melhor, mas também ajuda quem escreve, ao obrigar a pensar onde pôr a vírgula, onde usar um travessão, onde deixar reticências… Ajuda-nos a conversar melhor, ajuda-nos a viver melhor.
Podemos não acertar sempre: ninguém acerta sempre. Podemos discutir esta ou aquela vírgula. Podemos exagerar neste ou naquele sinal. Mas, se pensarmos na pontuação que usamos, mostramos que nos preocupamos com quem nos lê.
Há também um certo encanto nestes sinais, do simples ponto tão final ao arrogante travessão — a riscar a linha e a ocupar o espaço de uma palavra — passando pelo musical ponto de interrogação e pela caprichosa vírgula.
Para lá das regras e das proibições, a pontuação dá-nos várias opções. É um excelente sinal do grau de proximidade que queremos demonstrar… É ainda um piscar de olhos no papel. Mesmo numa mensagem rápida, cada sinal (ou a falta de sinal) transmite mensagens diferentes:
Beijo.
Beijo
Beijo!
Beijo!!!
O beijo com ponto parece‑me mais formal — ou mais seco — que o beijo sem nada. O beijo com ponto de exclamação é um beijo ligeiramente mais premente… Já o beijo com uns excessivos três pontos de exclamação revela um entusiasmo que talvez decorra da personalidade da pessoa — ou da vontade de beijar.
Excerto do livro "Pontuação em Português".
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