
JOIZECAWPY COSTA, colunista da Plataforma Nacional do Facetubes.
Sob os olhares atentos daqueles que prestigiaram a abertura da exposição BONECAS SONHOS E CORDÉIS de Goreth Pereira que aconteceu na galeria Trapiche, houve um verdadeiro momento de encanto e encontro.
O encantamento do sonho da infância perpassando pelo amadurecimento artístico e literário da artista, artesã e poeta, deram forma a uma arte única, impregnada de sentimentos, memórias, afetos e sonhos sonhados durante muito tempo.
A amostra traz personagens ignificativos da história principalmente da cultura popular, revelando um trabalho maduro que levou tempo para se constituir e tomar a forma até virar exposição.
E são os detalhes de cada peça que ganham atenção dos admiradores , um cuidado que revela a paixão pelo que é feito e construido com as mãos.
A artista empresta a suas peças sua alma, seu brado de resistência como mulher que teve que enfrentar muitas batalhas para alcançar espaços. Há uma pegada identitária em cada boneca construída, é impossível não visualizar o cacuriá na bonequinha graciosa com sua caixa a "tocar", ou na coreira figura marcante da cultura popular maranhense. A artista trouxe ainda a inclusão em suas bonecas com a Menina Autista e a cadeirante.
O cordel é marca expressiva da poeta que já é consagrada em solo maranhense na arte de fazer cordel, uma poesia melódica que traz diversos aspectos da vida cotidiana e da história.
A exposição ficará em cartaz na Galeria Trapiche até o dia 15 de maio.
Bonecas, Sonhos e Cordéis
Goreth Pereira
Eu aprendi nessa vida
A entender desde cedo
Nem tudo é o que parece
Não crer em qualquer enredo
O adágio diz que nem
toda boneca é brinquedo.
Algumas até são espelho.
Feitas de pano e de linha
E silêncio delas causam
Sonhos para criancinha
São tão cheias de histórias
Mas ninguém contou a minha.
Eu também cresci assim…
Costurada pela vida,
Remendada pela dor
As vezes mal entendida
Mas bordada com amor
Me tornando tão querida.
Sou feita de E.V.A
No toque do sentimento
Cada arte bem moldada
Em um forte pensamento
Quem ver minha arte vê
Que tem muito encantamento
Cada um ponto da boneca
É um pedaço de alguém…
Da mãe que chorou calada,
A filha sonhou também
Um pai que não soube ler,
O pensamento de ninguém.
A menina que sonhava
Alto, mesmo sem comer.
Mas, sonho… ah, é sonho...
Toda vez que acontecer
Nunca aceitará pobreza.
Em nosso peito, vai crescer.
Vira canto, vira cordel
Gritando que ninguém nasce
Para pranto. que chororô
Só joga lágrima na face
É melhor sonhar que sonho
Nunca houve quem matasse.
O cordel é minha voz.
Meu grito desenrolado.
É palavra de quem veio
Do esquecido proclamado.
Sou do povo e não nego.
Na poesia sou inspirado.
Sou poesia que resiste,
História que quer falar
Sou aquela que insiste
Que nunca vai se calar.
Já me disseram: “Cale-se!
Aqui não é seu o lugar
Mas esqueceram que quem
Do povo veio a nascer
Aprendendo desde cedo
Como faz pra sobreviver.
Eu varri ruas, mas os sonhos
Meus ninguém vai varrer.
Juntei restos, mas construí
Minha vida em poesia.
Essa boneca aqui, não
É frágil, tem energia
Carrega em suas costuras
Força da geração, que cria.
Nossas Bonecas têm voz.
Cordéis têm asas, que vem
E sonhos não cabem em caixas.
E em nossos sonhos tem
Escute… é o povo falando
através de mim, também.
Se você olhar também,
Garanto vai perceber
que dentro de você tem
uma boneca, a crescer
um sonho e um cordel.
Que nunca irão morrer.
Enquanto houver um sonho,
Haverá a poesia.
Enquanto ela existir
Não faltará alegria
Ninguém jamais estará
Sozinho sem companhia...
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