
Por José Carlos Castro Sanches
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Eram precisos seis horas e cinco minutos da manhã de um Domingo de Páscoa, quando despertei com a alma banhada em lágrimas. O sonho, de um realismo cortante, ainda pulsava em minhas pálpebras. Nele, eu corria com amigos por uma estrada de barro, ladeada por um mato que exalava o perfume rústico dos caminhos de roça. No vigor da maratona, contudo, o destino impôs um compasso de espera: o cabresto da minha japonesa rompeu-se, e ela se perdeu de minha vista. Ao retornar para buscá-la, vi o grupo distanciar-se, deixando-me a sós com o atraso e a poeira.
Mais adiante, em um cruzamento onde o caminho estreito abraçava uma estrada de terra mais larga, encontrei meu irmão, Carlos Henrique Castro Sanches. Ele revelou-me a intenção de embrenhar-se na mata para suprir uma necessidade oculta; orientei-o a seguir a estrada, apontando-lhe a direção segura, mas segui meu próprio curso. O tempo, esse senhor implacável, viu passar a noite e o dia seguinte, e meu irmão não retornou. No peito, eu acalentava a esperança de uma boa notícia antes de levar a angústia ao coração de nossos pais. Acordei atônito, sem o desfecho da corrida, mas com uma certeza dolorosa: a sua ausência doía no âmago do amor fraterno.
Amanheci sob o impulso urgente de ouvir sua voz, de certificar-me de sua presença. Ao verter este sonho em crônica, redescubro o simbolismo da data: o Domingo de Páscoa, o ápice da Ressurreição. Como escreveu Guimarães Rosa: "Viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo". E, nesse aprendizado, a vida nos mostra que o "caminho de roça" do sonho é a própria existência, onde muitas vezes nos perdemos de quem amamos por distrações do trajeto.
A Ressurreição de Cristo não é apenas um evento histórico, mas um convite perpétuo ao renascimento do afeto. É o triunfo da luz sobre a sombra, do encontro sobre a perda. No Livro Sagrado, em João 11:25-26, lemos: "Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá". Essa promessa nos ensina que o amor é o único fio que costura o tempo, vencendo a efemeridade da carne.
Valorizar o outro em vida é a nossa maior urgência. Como bem ponderou o filósofo Sêneca: "Enquanto adiamos, a vida passa". Não esperemos que o "cabresto se quebre" ou que o cruzamento nos separe para reconhecermos a preciosidade do abraço. A vida é um sopro, um "instante de ver" entre duas eternidades. Que o mistério deste sonho seja o lembrete de que a verdadeira Páscoa acontece quando ressuscitamos em nós o cuidado, a ligação e o zelo por aqueles que caminham ao nosso lado. Afinal, como disse Santo Agostinho: "A medida do amor é amar sem medida". Que amemos hoje, pois o amanhã é um mistério que apenas a fé pode atravessar.
José Carlos Castro Sanches. Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador e poeta maranhense.
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