Canto do Canto: Convidada: Joema Carvalho
PIGMENTO
Joema Carvalho
Sexta-feira. Dia da semana que chegava em casa, tirava a roupa e ia direto para o banho. Passava com calma o creme, colocava o roupão, penteava o cabelo castanho cacheado e reduzia o ritmo da semana. Em uma destas sextas. Depois deste ritual, colocou John Coltrane e foi para a cozinha. Fatiou o pão feito com germe de trigo, picou o queijo e abriu o vinho. Deitou-se no tapete do chão da sala acomodada nas almofadas. Recentemente, lera que este músico era quântico. No artigo havia um círculo, semelhante ao disco das cores, com intervalos marcando tons e semitons. Lembrou-se de quando participava de festivais, oficinas e cursos de música, onde ouvira falar sutilmente sobre a relação das cores com as notas musicais. Coltrane penetrava na sua sala. Havia lido Goethe e a sua relação com as cores, o que lhe deu um frenesi de ir buscar mais. Chegará em Platão.
Descobrira que este músico nada mais fez que misturar Platão, Goethe e Planck. Nada novo. Na música sim. Ele reinventou a percepção desta arte através destes princípios eternos. Embalada pelo som e cores daquela conexão, resgatou quando fazia ioga e foi dito que o “OM”, em sânscrito, era o som do universo. Vibrava em Lá. Estava envolvida por “My favorite things”.
Acreditou que esta nota musical fosse verde. Situava-se no centro do universo, disco das cores. Aquela que tem todas as outras em uma proporção perfeita. Confirmou que aquela nota vibrava no intervalo entre os tons e semitons de verde e de azul. Era representada pelo símbolo do infinito. O azul é algo sagrado, nos acolhe e protege, como o manto sagrado de Maria e o céu azul. Atribuído à mãe e à Arcanjo Miguel, guerreiro e protetor. Aquele que transita por diversos caminhos, independente de religião ou tendência espiritual.” After the rain”, outro gole de vinho e um pedaço de pão. Continuou depois do queijo. Concordou então que cada cor era um tom, uma vibração, uma frequência. As vezes nos faltava alguma cor. O movimento das cores, em seus diversos tons e semitons eram necessários para conectar o diapasão de nossa orquestra interna, cheia de órgãos feito de moléculas, células e átomos com o som essencial. O preto e branco, Yin e Yang, representam o equilíbrio dinâmico da flutuação cíclica que sustenta o ritmo fundamental. Ou como deveria ser.
A faixa era “Impressions”. A partir de uma conversa durante a semana, penetrava mais um pouco no sabor do queijo, depois de outro gole de vinho com pão. Naquela retrospectiva semanal, lembrou que lera que da África saíram 12,5 milhões de humanos e chegaram no continente entre 10 milhões e 70 mil, em torno de 2 milhões foram despejados mortos no mar, 14 cadáveres, todos os dias durante 350 anos. Isto alterou o hábito alimentar dos tubarões. Peixes com comprimento em torno de 5 m, carnívoros que passaram a seguir estes navios nos mares e oceanos do planeta. Crianças negras eram utilizadas como iscas para caçar jacarés, depois de servirem de distração, embaixo da mesa dos senhores brancos. “Pets’ eternizadas no quadro denuncia de Debret. Negros eram presos em gaiolas como mais uma espécie em exposição dentro de zoológicos. “I want to talk about you”. Em uma auto avaliação, acreditava que fosse esclarecida. Até que um dia a sua resposta fora “independente de classe social a discriminação acontece”.
Teve como retorno: “esta é a resposta que todo branco dá”. Aquilo a colocou em contato com o seu processo de vida, onde também sentirá dor. Jamais quisera dar uma resposta racista. O vinho descia lento, acolhendo o seu corpo. Neste momento, acreditou que o silencio seria mais efetivo. Na mesma sequência, outro retorno: “muitos brancos deixam de se manifestar sobre o racismo como se não fizesse parte da vida deles”. Tentou novamente: “Tenho vários amigos negros bem sucedidos”. Reação seguinte: “Garanto que estes seus amigos são a minoria”. “Tudo o que uma mulher branca passa em relação a discriminação por ser mulher, se multiplica de forma exponencial, em relação a mulher negra". “Say it”, seguia no meu espaço. O negro era educado desde cedo a não correr, a sempre estar bem arrumado, a comportar-se em todos os locais, caso contrário, era abordado de forma indelicada e humilhante, como marginal. Bastava ser negro. O seu ritmo relaxado, de quem estava em um momento de prazer, tornou-se tenso diante destas memórias recentes. Uma notícia de destaque da semana fora sobre uma juíza de Curitiba, Paraná, que havia encerrado uma sentença considerando a cor do réu. Atitude típica de uma elite que abusava do seu poder porque sabia que nada iria lhe acontecer. Concluiu depois de um pedaço de queijo: A corrupção e os colarinhos brancos. A advogada de defesa expos a magistrada na mídia. Caso contrário, ela entraria com recurso e se safaria. A estratégia a desmoralizou em função da opinião pública. A resposta fora a de sempre, “uma colocação dentro de um contexto, mal compreendida”. “It’s easy to remember”. Pelo menos ela não iria dizer que “todas as vidas importam”. Repetira várias vezes que: “todo mundo tem direito a vida e todo mundo tem um direito igual”, copiando Lenine. A alguns anos a trás, após uma sequência de constantes erros, percebeu que estava passando por iniciação do erro.
Na medida do possível, aprendeu a transitar por eles de forma natural, sem resistência. Naquele momento, agora mais lento, chegara à conclusão de que era branca e que estava diante de uma situação que desconhecia. O branco “era frágil em discussão racial”. O que se relacionava a um sentimento de superioridade e de direito racial. Quase havia entrado em uma situação como uma “pessoa boa e moral”. Ela se sabia, a isto, não se nivelaria, não era hipócrita. “Giant Step” dominava seu apartamento. Colocou-se em uma situação de aprendiz. Um novo conteúdo estava se apresentando. Seu discurso era contra genocídio de jovens, independente de cor, contra encarceramento de pessoas, empobrecimento e ou exploração da força de trabalho. Dizia isto como uma retórica que a classificaria como bem intencionada. Encheu o copo de vinho mais uma vez. Resolvida a questão racial, estas problemáticas são dissolvidas em um efeito cascata. Nosso sistema é opressor e racial, de forma estrutural. Os negros foram condenados a marginalidade a partir do momento que foram promulgadas as leis de abolição sem um respaldo do governo o que consolidou a violência estatal sobre a pigmentação da pele. Os efeitos históricos se atualizam constantemente. O primeiro caso de COVID 19 no Brasil fora de uma empregada doméstica de uma mulher recém chegada da Itália, contaminada. A patroa se cura e a empregada negra não. Em um artigo da BBC questionou-se a falta de planejamento estratégico considerando a questão social, econômica, ambiental e a de saúde, em relação as medidas de controle da pandemia.
O isolamento no país fora baseado em uma realidade burguesa, “um luxo inviável para os mais pobres”. A maioria reside em casas pequenas com uma quantidade grande de indivíduos, distribuídos nos poucos e pequenos cômodos. O exemplo caracteriza a hierarquia racial, onde brancos de posse, possuem recursos que permitem tudo o que diz respeito a qualidade e a dignidade de vida. Ouvia “Moment’’s Notice”, comia mais um pedaço de pão com queijo. Estava satisfeita, mas aquele banquete estava delicioso. O tempo em total descontrole da marcação do relógio, nao sabia mais das horas. Sua busca transitava sem distinção através do passado e do presente. Relembrava o contraponto entre o banquete dos brancos e os dois punhados secos de farinha com alguma fruta para os escravos. Em 1911, João Batista de Lacerda ministrou uma palestra no Congresso Universal das Raças no qual disse: “O negro passado a branco na terceira geração por efeito do cruzamento de raças”. Experiência genética exposta no quadro “A redenção de Cam”. Projeto que tem como objetivo o darwinismo social, a limpeza da raça negra através do apagamento do homem e do estrupo da mulher, tendo como resultado o embranquecimento. Agora os goles de vinho eram automáticos. Era então, esbranquiçada, fruto de uma experiencia política e genética. Seu bisavô era negro de senzala, segundo o seu avô. Tudo o que sobrara de uma origem eram alguns cachos e alguma espiritualidade meio misturada. O disco da história era antigo, bolachão riscado que fica em uma mesma faixa. Um novo design gravado em um CD, que não cedia e não se atualiza, nem em USB. “Lonnie”s Lament” terminava e trazia outra música e o sono. Optou por buscar o cobertor e dormir na sala. Ela era uma das notas de Coltrane percorrendo o apartamento em outro plano.
Em síntese, considerou que havíamos percorrido trilhas e mais trilhas na utopia de alguns direitos e de mundo melhor para todos. “Love Supreme”. Nesta hipocrisia, os nossos versos e infantilidade enquanto espécie eram expostos. Tudo o que se temia era eliminado. Apesar de todas as injustiças históricas, os negros possuíam o poder de sorrir. Não eram mais e nem menos. Tinham o que ensinar através de uma forma de vida baseada no prazer, na conexão com os elementos naturais que regiam a sua cultura e espiritualidade. Para ela era claro que o humano nascera desprovido do dispositivo que ligava a percepção do outro. Do quartinho da empregada, derivado das senzalas brasileiras, agora, a África se desenvolve economicamente mais que muitos país, exerce a sua soberania. Expulsa oportunistas religiosos que fazem fortunas, sem pagar impostos, as custas de seus fiéis. Aqui, ditam as regras de nossa vergonha histórica, onde somos conduzidos como fantoches de um projeto maquiavélico. Na multiplicidade de cores, o movimento se propagava na música de Coltrane, na frequência de uma visão maior. Deixou o som ligado. Na ausência de cor, dormiu. Em Lá longe, percorreu o símbolo do infinito.
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