
No ano anterior, 1962, eu fora desligado do Seminário de Santo Antônio de São Luís não por uma falta grave cometida, mas por uma série de pequenas indisciplinas, irreverências, enfim, não tinha mesmo vocação para o sacerdócio.
O padre Manoel da Penha Oliveira, meu educador e protetor (o considerei sempre uma espécie de pai espiritual), via em mim algumas qualidades e algum potencial de inteligência, e conseguiu uma vaga no Seminário da Prainha, onde cheguei no início do ano estudantil de 1963.
A fundação da capital do Ceará está ligada à criação de uma vila ao redor da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, isso no ano de 1726.
A história da cidade remonta, porém, ao século XVII, com a criação do Forte Schoonenborch, edificação erguida pelos holandeses quando da ocupação do território cearense. Esse Forte, que deu origem à atual cidade de Fortaleza, localizava-se na margem direita do riacho Pajeú que corre integralmente pelas terras fortalezenses, e que Luiz Gonzaga cantou numa de suas belas canções: “Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no meio do mar O rio São Francisco Vai bater no meio mar. Ah, se eu fosse um peixe Ao contrário do rio Nadava contra as águas E nesse desafio Saía lá do mar pro Riacho do navio Eu ia direitinho pro Riacho do navio. Pra ver o meu brejinho Fazer umas caçada Ver as pegá de boi Andar nas vaquejada Dormir ao som do chocalho E acordar com a passarada Sem rádio e sem notícia Das terra civilizada Sem rádio e sem notícia Das terra civilizada.
Riacho do navio Riacho do navio Riacho do navio Tando lá não sinto frio”.
Pois quando lá cheguei, em 1963, um caboclinho maranhense com seus catorze anos de idade, Fortaleza tinha um pouco mais de 500 mil habitantes, nada dessa metrópole de hoje com seus mais de dois milhões e quatrocentos mil cabeças chatas. Ora, não vão se ofender com esse apelido carinhoso, que tem mais de uma origem, e uma delas é a de que deve-se ao fato do cearense carregar tanto saco na cabeça, e isso é um elogio ao povo conhecido como um dos mais trabalhadores do nosso país.
Aí, como eu ia dizendo, nos meus primeiros dias de Seminário me senti como na história infantil do Patinho Feio ou quem sabe o personagem de Um estranho no ninho, tão bem representado no filme do Jack Nicholson.
O nosso mundo mental é uma colcha de retalhos construída e reconstruída de tal sorte que sempre nos deixa muito mais perguntas que respostas. Do ano de 1962 no Seminário de Santo Antônio, em nossa São Luís, lembro tudo nos mínimos detalhes: o pé de abricó no quintal, também ali a fonte dágua onde a gente se banhava após o futebol do fim das tardes; o nome da maioria dos padres: Bosco, meu excelente professor de português; Marcos, o ecônomo; Carlos Melo, nosso diretor espiritual, Othon, professor de latim; o padre Paulo, branquinho, baixinho… E até do professor de Matemática, Lázaro, que não era padre, e tinha aquele dedinho mindinho a mais em cada mão. Lembro tudo. A torre da igreja, o pátio com seu viveiro de pássaros, os amplos e extensos corredores por onde andávamos, sempre em fila, rumo à igreja, às salas de aula ou ao refeitório… Os bules verdes de porcelana descascada em que era servido o chá mate no café da manhã e no lanche da tarde, meu Deus!, tudo tão real e presente sessenta e três anos depois, quando escrevo essas memórias!...
Do Seminário da Prainha em Fortaleza nenhuma memória tão viva como essas. Só lembro o nome do padre Pedro Giszelé, francês, ancião e senil, cujo quartinho que ocupava, era cheio de livros abertos e marcados, espalhados na cama, sobre cadeiras e no chão… Sua batina puída, suja na altura do peito por manchas de café com leite, grãos de arroz e farelos de manuê, um bolo feito à base do milho.
Nomes? De mais ninguém, a não ser do padre reitor, tão feio que tinha o apelido de Padre Curuja. Dos outros padres professores zero na memória.
Dos meus colegas seminaristas lembro, primeiro, dos irmãos Zé: Zé Maria, Zé Antônio, um pouco mais velhos, e o Zé Raimundo, da mesma idade que eu e o mais próximo de todos. E tinha o Quesquecé, que no futebol do Seminário era um zagueiro entroncado, firme no lance, valente e carniceiro… Na frente os atacantes eram o Joca, olhos de gato, daquela cor de gasolina, ponta direita que driblava como um Garrinha, e o centroavante alto e magricela, um pouco cabeçudo, mas elegante, um dançarino na frente do goleiro, fazendo gols e mais gols.
Eu nem existia, sentado à beira do campinho, sem nunca me deixarem entrar! Da sala de aula, das atividades religiosas e práticas rotineiras ficaram apenas o rigor e a disciplina.
Ah! episódio marcante foi quando voltei a sofrer, pela segunda vez, com um problema de unha cravada em ambos os dedões dos pés, e que já tivera aos oito anos de idade, quando ainda menino, morando em São Domingos do Maranhão.
Então o Padre Coruja me mandou para a Santa Casa de Misericórdia onde foram feitas duas pequenas cirurgias, arrancando-me as unhas cravadas: uma inteira e outra pela metade. Fiquei dois ou três dias naquela casa de saúde. E num passe de mágica, uma enfermeira me trouxe para ler o primeiro livro que li do escritor Machado de Assis, esse nosso clássico mundial, autor daquilo que podemos chamar de duas ou três pequenas grandes obras-primas: Dom Casmurro, O Alienista e Quincas Borba.
Foi o Quincas Borba que ela me deu para ler, claro que não deu tempo lê-lo todo, pois logo em seguida me deram alta. Ninguém do Seminário veio me buscar, nenhum táxi pra me levar de volta, apenas alguém do hospital me levou até a porta da saída, e foi como se me dessem um empurrãozinho em direção à rua dizendo: “te vira, menino!”
Saí andando meio trôpego e vacilante, segurando uma sacolinha com alguns pertences, escova de dente, creme dental, sabonete, terço e só me faltou um patuá para me proteger e me fazer andar por aquela Avenida, imensa e ampla, a Monsenhor Tabosa, que me levaria até à porta de entrada do Seminário da Prainha. Sentindo dores, sem analgésico, e lembro que estava me apoiando na parede de um muro, quando o milagre aconteceu.
Uma elegante senhora parou o seu carrinho Renault-Gordini, veio até mim toda consoladora e aflita, “que é isso, meu filho, está passando mal?”. Olhou para os meus pés com as unhas enfaixadas e me perguntou “o que foi isso, meu bem?”, maternal e carinhosa alisou meus cabelos com a ternura de uma verdadeira mãe.
Contei-lhe o ocorrido e ao chegarmos ao Seminário ela me apoiou na descida, sorriu na despedida, e ao adentrar o portão me vem a imagem do Padre Coruja que me provoca uma crescente raiva, embora por fora os olhos estivessem marejados de invisíveis lágrimas.
Ah! o quartinho do Padre Pedro Giszelé, onde terminaria de ler o Quincas Borba do Machado de Assis e todos os outros, incluindo o Memórias Póstumas de Brás Cubas, seus poemas, contos e até os romances mais românticos e frouxos do seu início.
A Biblioteca de Alexandria e a Biblioteca encontrada no livro O Nome da Rosa, do escritor e filósofo italiano Umberto Eco, são as minhas referências para o quartinho do padre Giszelé.
A cada semana era deslocado um seminarista para o serviço de zeladoria e cuidados com o padre Pedro. Aguardava ansioso a minha vez, pois fazendo o mais rápido possível o meu trabalho, o resto do tempo eu dedicava à leitura daquela montanha de livros, a maioria deles proibida, pois era literatura profana não permitida aos alunos. Cervantes, A Divina Comédia, poetas franceses de montão, Rimbaud, Baudelaire, Verlaine, Poesia Greco-latina, Homero, Virgílio, Horácio, Ovídio, Catulo. A literatura inglesa toda. Filósofos alemães, teatro clássico e moderno, Brecht, de vanguarda, do absurdo, Balzac, quase todo, Camões… Li tudo ou quase tudo. Tanto que por volta do final dos anos sessenta minha epígrafe preferida era uma citação de Mallarmé: “a carne é triste, e eu li todos os livros, todos”.
Não sei o motivo, se prêmio ou punição, a partir de certo mês passei a ser o único a cuidar do padre Pedro e do seu quarto-biblioteca. E pude construir nos seus livros a base sólida de uma vida cem por cento dedicada à literatura. Por isso estou até aqui, hoje, escrevendo.
E voltarei amanhã para terminar desse relato mais uma parte se, como diz Camões, para tanto não me faltarem “engenho e arte”.
(Próximo episódio: O desligamento insano do Seminário e a alegre despedida de Fortaleza)
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