REFÚGIO
Joema Carvalho
A montanha ficava ao lado de um condoreiro. Viam os ninhos ao longe. A asa dos condores passava a menos de um metro. Ouviam seu crocitar sussurrando no ouvido. Ave imponente que refletia a soberania dos Andes.
Depois do primeiro refúgio seguiram um grupo que continuava pela trilha. Cheia de neve. Ela não sentia frio. Seguiam naquela paisagem.
Um transecto rente ao topo. Gradiente formado por um contraste de folhosas e coníferas. A base iniciava pelo bosque de arrayán seguido pelo notro, árvore de fogo. Ñire decíduas sediam espaço para as aciculadas de altitude. Alerces e pehuén, próximas ao topo, davam suporte para as lengas. Lá em cima, os glaciares substituíam a vegetação.
Uma árvore solitária e tortuosa contava a história do movimento do gelo, de um período pretérito ainda mais frio. Ela adaptou-se, ao contrário das outras, que não estavam mais ali. Era primavera. Ar gélido vindo do Sul que nunca ia embora.
Seguiam aquele que conhecia a trilha. Os passos na neve eram sobre as marcas daqueles que iam a frente.
Chegaram no limite do risco. Onde o abismo se confundia com o próprio caminho. Um passo a mais, piso em falso que não poderia ser dado.
Avalanche do que já fora e não lhe pertencia. Escorreu no degelo sutil. Voou na envergadura da ave de rapina.
Foto da autora, abaixo.
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