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Seja pelo COVID-19 ou quaisquer outras doenças, “perguntar de que morreu alguém é estúpido

Com o tempo a causa esquece, só uma palavra fica, MORREU” (José Saramago – Ensaio sobre a Cegueira)

06/04/2020 às 13h55
Por: Mhario Lincoln Fonte: Alessandra Rocha
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De ontem para hoje... Por: ALESSANDRA LELES ROCHA
De ontem para hoje... Por: ALESSANDRA LELES ROCHA

De ontem para hoje...
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA

Escritora especialmente convidada.

Louvados sejam os esforços de todos os envolvidos direta e indiretamente na Saúde Pública brasileira, nesses tempos caóticos da Pandemia. Louvadas sejam as perspectivas que se abriram diante de nossos olhos em relação à realidade, por conta desse novo vírus.

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Até bem pouco tempo existiam questões que pareciam intransponíveis. Aliás, falar em Saúde Pública era, para muitos, sinônimo de atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e, portanto, dedicado a suprir as necessidades médico-hospitalares da parcela populacional menos favorecida economicamente, lançada as margens das oportunidades e direitos.

Longas filas de espera para marcação de consultas e exames. Desabastecimento de insumos básicos nas unidades de atendimento. Ausência de profissionais nas diversas áreas de especialização médica e cirúrgica. Hospitais sucateados. Limitada oferta de leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) ou Semi-Intensiva. ... Sempre estiveram associados à realidade da desigualdade brasileira.

De modo que as carências e insuficiências crônicas presentes nesse sistema não pareciam incomodar ou perturbar a paz e a tranquilidade de todos os que dispunham de atendimento na rede privada de serviços de saúde. Mesmo porque, o fato de terem um plano privado de saúde já lhes significava o passaporte para o atendimento a tempo e a hora, sem maiores sofrimentos e incertezas.

Pena que essa realidade de bonança e privilégio vem se transformando. O desemprego no Brasil, nos últimos anos, retirou de milhões de pessoas a oportunidade de desfrutar da rede privada de saúde, lançando-as diretamente ao imenso gargalo que padece o SUS. Sem contar que, custear particularmente os tratamentos ou as mensalidades desses planos é uma tarefa, quase, impossível para a grande maioria das famílias brasileiras, dadas as projeções estabelecidas para cada faixa etária, as quais tornam os custos várias vezes superiores à própria renda.

Eis, então, que o COVID-19 apareceu e falar sobre saúde se tornou inevitável. De repente, as pessoas passaram a entender que Saúde Pública refere-se aos programas, serviços e instituições responsáveis por intervir nas necessidades sociais de saúde. O caráter público e privado se esvaziou, portanto, diante da consciência de algo muito maior. Assim, a ansiedade e o medo fizeram emergir a urgência, as demandas, os cuidados, as informações.

A realidade que antes pertencia a alguns passou a ser de todos, no que tange a publicidade manifesta sobre tantas carências e insuficiências. Para quem viveu o dilema da judicialização por um leito de UTI, por exemplo, ouvir que a oferta existente tanto na rede pública quanto privada é insuficiente, não surpreende. Mas, para quem passou a vida acreditando em uma “pseudo garantia” de conforto, fomentada pelos planos de saúde privada, isso é certamente estarrecedor.

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A verdade é que essa situação extrapolou, fugiu do controle. Dentro ou fora do país, ninguém estava preparado para a dimensão das demandas provenientes de uma Pandemia. A corrida contra o relógio para mitigar os efeitos desse despreparo, que de certo modo foi negligenciado ao longo de décadas, vai ser cruel e vitimar milhões de pessoas tanto nos serviços públicos quanto privados de saúde.

Chegamos a um patamar social que não mais adianta buscar socorro em medidas jurídicas. A Saúde Pública está à beira de um colapso e vai assistir a tragicidade estampada pela difícil tarefa de escolher quem vai viver e quem vai morrer; não mais pelo poder aquisitivo, mas pela carência de equipamentos, remédios, leitos etc. O que antes soava tão distante de alguns, se faz nesse momento realidade pulsante para todos.

Assim, seja pelo COVID-19 ou quaisquer outras doenças, “perguntar de que morreu alguém é estúpido, com o tempo a causa esquece, só uma palavra fica, MORREU” (José Saramago – Ensaio sobre a Cegueira). Essa reflexão é importante porque nos traz o sentido sobre a insensatez que tem nos paralisado, nos consumido a humanidade lentamente durante décadas.

 

De ontem para hoje, talvez, o que nos impeça de emergir uma percepção responsavelmente social é o fato de alguns ainda permanecerem insistindo em certas dissociações e distorções, no âmbito de um imenso emaranhado de linhas divisórias, comumente chamadas de desigualdade. O que é lamentável, visto que o momento atual chega com ares de possibilidade para compreender a dimensão exata da relação que queremos desenvolver conosco, com o outro, com o mundo, validada tanto pelas linhas da vida quanto da morte; sejam elas já conhecidas ou não.

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MarianaHá 6 anos Curitiba ???????????????????????????????????????? Excelentes reflexões
Roger da Gama RochaHá 6 anos São Luis MaVamos rezar e procurar obedecer as orientações para pelo menos não atrapalhar.
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