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Mundo BASTIDORES DA ARTE

Disputa de R$ 5 bilhões por obra de Da Vinci revela lado oculto do mundo da arte

Por Nina dos Santos, CNN Com Lauren Kent, CNN

10/06/2021 18h19 Atualizada há 3 meses
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Por: Mhario Lincoln Fonte: CNN/Brasil
Dennis Van Tine/Sipa EUA/AP
Dennis Van Tine/Sipa EUA/AP

Conheça os bastidores da maior disputa judicial por uma obra de arte que recebeu um nome digno de cinema: "O Caso Bouvier”

 Textos escolhidos: Por Nina dos Santos, CNN Com Lauren Kent, CNN

Foto: O “Salvator Mundi” em exibição em uma prévia para a imprensa na Christie’s em Nova York em 2017. (Dennis Van Tine/Sipa EUA/AP).

É a maior disputa judicial que o mundo da arte já testemunhou. De um lado, um oligarca russo, que afirma ter sido roubado ao comprar obras-primas multimilionárias; do outro, um negociante de arte suíço que diz que foi apenas um negócio.

Após seis anos de ações judiciais em várias jurisdições, o jogo parece estar virando mais uma vez em uma saga tão dramática que recebeu um nome digno de cinema: "O Caso Bouvier”.

Há anos, o magnata russo Dmitry Rybolovlev, cujo principal negócio é do setor de fertilizantes, vem perseguindo o negociante de arte suíço e magnata dos armazéns do tipo freeport Yves Bouvier em vários tribunais ao redor do mundo, alegando ter sido roubado em US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões) em 38 obras de arte com preços exorbitantes vendidas a ele por Bouvier ao longo de uma década.

Mas, em uma nova reviravolta, Bouvier disse à CNN que está preparando sua própria contra-ação de bilhões de dólares contra Rybolovlev, após abrir um processo em Singapura em fevereiro, alegando que uma longa batalha judicial com Rybolovlev arruinou seus negócios e reputação.

Os casos até agora mantiveram um exército de advogados e profissionais de relações públicas empregados em ambos os lados, já que há acusações das duas partes, incluindo alegações de intimidação e intriga política.

De forma bastante apropriada, o tortuoso imbróglio também envolve algumas das peças de arte mais inestimáveis e polêmicas da história, incluindo a compra em 2013 do que agora é a pintura mais cara e enigmática do mundo: “Salvator Mundi”, considerada por alguns como obra de Leonardo da Vinci (apesar de anos de debate sobre sua autenticidade), uma obra na qual Bouvier conseguiu uma margem de lucro de mais de 50%.

Por muito tempo considerada como uma cópia ou obra do ateliê de Da Vinci, “Salvator Mundi” foi comprado em 2005 por um consórcio de negociantes de arte especulativa por menos de US$ 10 mil (cerca de R$ 50 mil). Oito anos depois, após a pintura ter sido restaurada e declarada obra do mestre da Renascença, Bouvier a comprou por US$ 80 milhões (cerca de R$ 404 milhões) depois de pedir a ajuda de um jogador de pôquer para reduzir seu preço.

O negociante rapidamente vendeu por US$ 127,5 milhões (cerca de R$ 643 milhões) para seu então cliente, o russo Rybolovlev, por meio de empresas offshore tanto do vendedor como do comprador, de acordo com uma fatura mencionada em documentos judiciais. O suíço recebeu uma comissão de 1%. Embora o magnata russo tenha vendido a obra por surpreendentes US$ 450 milhões (cerca de R$ 2,27 bilhões) em um leilão em 2017, para um comprador secreto (que seria o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman), ele alega que Bouvier o fraudou. Bouvier nega as acusações.

Rybolovlev se recusou a ser entrevistado para esta reportagem, mas um porta-voz da organização familiar de Dmitry Rybolovlev disse à CNN: “Essas questões estão sendo disputadas nos tribunais nos quais esperamos provar o que aconteceu e que a história fantasiosa de Bouvier é falsa. Por enquanto, o mais notável é o que Bouvier não contesta: como consultor de arte, ele fingiu ajudar seus clientes a montar uma coleção de arte a um custo de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10 bilhões), enquanto secretamente colhe metade desse preço para si mesmo”.

No entanto, Bouvier nega que alguma vez tenha sido um “consultor de arte”, uma questão que tem estado no cerne do litígio e das alegações de Rybolovlev de quebra de confiança.

“Sou um negociante de arte”, afirmou o suíço à CNN. “Os contratos preparados pelos advogados de Rybolovlev e todas as minhas faturas me descreviam explicitamente como ‘o vendedor’. Rybolovlev nunca conseguiu convencer um único juiz ou promotor do contrário, em qualquer jurisdição, pela simples razão de que suas alegações não correspondem à realidade de nossas relações contratuais”.

A saga da batalha legal envolve muitos dos problemas que os reguladores identificaram com o crescente mercado de arte global: a arte, nas mãos erradas, tornou-se mais uma mercadoria para movimentar dinheiro com pouca responsabilidade.

Por sua vez, a pintura “Salvator Mundi” não é vista desde o leilão. Mas voltou às manchetes depois que um documentário francês afirmou em abril que a pintura fora o centro de uma disputa diplomática entre os governos francês e saudita, em meio a dúvidas sobre sua autenticidade e um pedido dos sauditas para que fosse mostrada no Louvre.

A CNN entrou em contato com o Reino da Arábia Saudita para comentar, mas ainda não recebeu uma resposta.

No documentário “The Savior for Sale” (“O Salvador à Venda”), uma autoridade francesa do alto escalão que pediu anonimato afirma que o príncipe Bin Salman foi categórico ao exigir que o “Salvator Mundi” fosse exibido ao lado da “Mona Lisa” para solidificar seu lugar como um autêntico Da Vinci – apesar das dúvidas contínuas sobre se a obra é inteiramente do mestre italiano.

O governo francês acabou decidindo não expor a pintura nas condições dos sauditas, algo que a autoridade francesa diz no filme que “seria o mesmo que lavar uma peça que custou US$ 450 milhões”. Mesmo com a pintura fora dos olhos do público, historiadores da arte e especialistas continuam debatendo se o "Salvator Mundi" é um autêntico Da Vinci ou se o mestre italiano apenas contribuiu para uma pintura que foi predominantemente feita por outras pessoas em seu ateliê. A diferença pode afetar seu valor em centenas de milhões de dólares, visto que existem menos de 20 pinturas autenticadas de Leonardo da Vinci no mundo.

Um verdadeiro Da Vinci?

Aparentemente, mesmo aqueles que buscavam lucrar com a pintura tinham dúvidas sobre sua autenticidade.

Os e-mails compartilhados com a CNN por Bouvier mostram a comunicação entre Bouvier e um representante de Rybolovlev em 2013. O suíço avisa seu cliente que o trabalho era lindo, mas não um bom investimento. O quadro foi tão restaurado, escreveu o negociante suíço, que os especialistas duvidaram que a obra havia sido inteiramente concluída pelo próprio Leonardo da Vinci, e nem o Vaticano nem qualquer grande museu mundial expressaram interesse em comprá-lo.

“As mãos são as partes mais bem preservadas”, diz o e-mail de Bouvier, datado de 22 de março de 2013, enquanto “o resto foi restaurado em grande parte”.

Em outro e-mail, Bouvier escreve que qualquer “comprador que adquirir esta pintura que ninguém quer por um preço muito alto será visto como um ‘pato’, vai virar motivo de chacota no mercado e perderá credibilidade”, dada a “proporção original muito baixa que parece ter sido pintada pelas mãos do próprio Leonardo”.

Mesmo assim, Bouvier conseguiu emprestar o “Salvator Mundi” (com um depósito de US$ 63 milhões, ou cerca de R$ 318 milhões, segundo ele) da Sotheby's. Ele afirma que então providenciou para que a obra fosse entregue na cobertura do russo em Manhattan em um “porta-documentos preto”.

Antoine Vitkine, o cineasta que passou dois anos produzindo o documentário lançado recentemente, disse à CNN que ficou surpreso ao saber que Bouvier, que começou sua carreira como um outsider do mundo da arte, estava entre os que duvidaram das credenciais da pintura, visto que especialistas mais proeminentes autenticaram o “Salvator Mundi”.

“Isso é extraordinário”, disse Vitkine, acrescentando que acredita que alguns historiadores de arte importantes que arriscaram sua reputação no "Salvator Mundi" foram mais relaxados do que normalmente seriam quando se trata de avaliar uma pintura redescoberta.

Entre aqueles que puseram a mão no fogo por trás da atribuição a Leonardo da Vinci está a National Gallery do Reino Unido, que exibiu o "Salvator Mundi" em 2011 e catapultou-o para os holofotes globais. A exibição do quadro teve, na época, ampla cobertura da imprensa, inclusive da CNN. “É preciso lembrar que muitas pessoas têm interesse neste trabalho”, pontuou o documentarista.

Um amargo vai e vem

Bouvier sempre negou as acusações de fraude feitas contra ele por Rybolovlev. O russo, por sua vez, já teve sua própria cota de controvérsia exposta na imprensa sensacionalista, incluindo um divórcio que ganhou as manchetes e a compra de um imóvel caríssimo de Donald Trump anos antes de o ex-presidente assumir o cargo.

O oligarca russo, que é presidente e coproprietário do AS Monaco Football Club, está combatendo acusações relacionadas a um escândalo de suborno de funcionários monegascos em conexão com o litígio de Bouvier, em um caso apelidado de “Monacogate” pela imprensa francesa.

Os advogados de Rybolovlev disseram em um comunicado: “No que diz respeito a essas acusações, Dmitriy Rybolovlev continua sendo considerado inocente. Ele está totalmente confiante quanto ao desfecho deste caso, no qual, após mais de três anos e meio de investigação, nenhuma prova convincente foi encontrada contra ele”.

Para ler a íntegra, (https://www.cnnbrasil.com.br/estilo/2021/06/06/disputa-de-r-5-bilhoes-por-salvator-mundi-revela-lado-oculto-do-mundo-da-arte) ou o texto original em inglês, clique aqui.

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