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O legado e o sorriso de Camilo Mariano, músico brilhante, vão continuar imortais na MPB

Com, Fernando Rodrigues, José Américo, Wellington Reis e Salomão Junior

30/07/2021 às 21h32 Atualizada em 01/08/2021 às 14h05
Por: Mhario Lincoln Fonte: Divulgação facetubes.com.br
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Capa do LP de
Capa do LP de "Nonato e seu Conjunto" , Camilo na Banda.

Não o via desde 2017 quando nos encontramos fortuitamente no aeroporto de São Paulo. Ele ia fazer uma demonstração instrumental numa casa de baterias musicais. Conversamos e relembramos alguns episódios de nossa adolescência, na velha São Luís, quando eu, ‘metido a músico’, ia assistir aos ensaios do “Nonato e seu Conjunto’, para ver a preciosidade artística de Garrincha, um dos bateristas incríveis que conheci naquela época. Ginga de malandro e um pedal de ouro.

Com o maestro José Américo.

E nesses ensaios, sempre ele estava junto e tinha o sonho de um dia virar baterista profissional. Eu tocava no ‘Super 5’, um conjunto de estudantes. Ele, Camilo Mariano de Oliveira, nascido em 18 de julho de 1955, estudava na Escola Técnica onde era aplaudido por seu talento ao tocar tarol na Banda Marcial da instituição.

Logo, esse menino apareceu aos olhos da música do Maranhão. O primeiro conjunto onde passou a tocar bateria foi o “Ilustrasom”, cuja sede era o bairro da Camboa, em S. Luís-MA. Na primeira apresentação de Camilo nesse conjunto musical, eu estava lá. Bem na frente, admirando o ‘sotaque’ único de suas batidas no pedal e na caixa coberta, pela metade, com uma flanela – ‘isso pra deixar o som mais encorpado e tirar o zunido da esteira...”, me confessou alguns anos depois.

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Assim começaram nossas vidas de artista. A minha foi abruptamente interrompida por questões familiares. A dele, qual um cometa, brilhou desde o momento em que passou a ser um dos principais músicos do conjunto “Os Fantoches”. Observado de perto pelo excelente tecladista (hoje maestro e prêmio Grammy Latino), José Américo Bastos, ele foi convidado para substituir exatamente nosso ídolo de adolescência: Garrincha, com problemas de saúde. E lá fui eu novamente vê-lo estrear no fabuloso “Nonato e seu Conjunto”, tocando com uma galera excepcional. Ficou até o grupo se desfazer.

Em 1986, a convite do próprio José Américo, Camilo se transferiu para o Rio de Janeiro: “Mhario, eu já o admirava. Por isso, levei Camilo para o Conjunto de Nonato” - me disse Américo - ”(...) eu o conhecia desde a Escola Técnica. Inclusive gravou comigo várias vezes em um estúdio de propaganda, onde dirigia a parte musical, em São Luís-Ma. No Rio, ele morou em minha casa, até casar, com Glória. Tive a grande honra de ter oportunizado sua carreira profissional. E agradeço muito a Deus por ter feito isso. O inseri no mercado das gravações e nos shows de Alcione, Elba Ramalho, junto comigo. Depois ele andou com as próprias pernas. E eu fiquei muito feliz por ter colaborado nessa brilhante carreira de Camilo”, diz emocionado o maestro.

É realmente triste a perda de um amigo. Todos com quem conversei ficaram abalados com a notícia. Porém lembraram de um detalhe muito especial: uma espécie de ‘kit sorriso’. Camilo, com esse sorriso, provocava um efeito esfuziante nas pessoas. Acabava contagiando de humor quem estivesse ‘pra baixo’. É o que diz Wellington Reis, compositor e músico maranhense:

Com Fernando Rodrigues.

“(...) a última vez que nos encontramos foi em São Paulo, numa Feira de Instrumentos Musicais e ele fazia demonstrações de uma marca de bateria. Mas havia algo muito interessante em Camilo: ele realmente carregava aquele sorriso maroto, aquele ar de criança. Uma pessoa extremamente bondosa. Como profissional, a minha ideia é que ele tinha um metrônomo na cabeça. Isso lhe rendia uma impressionante capacidade rítmica e musical. Um músico competente, habilidoso. A bateria era o mundo dele. Quando o encontrei em São Paulo, na demonstração da marca de bateria, me senti orgulhoso em ver um conterrâneo sendo amplamente aplaudido diante do show que ele dava”, confessa Reis.

Sobre Camilo, fui conversar também com uma pessoa de muito amizade. O líder da banda “Máquina do Tempo”, guitarrista Fernando Rodrigues (fomos músicos no conjunto do maestro Zé Quita). Fernando me disse: “Ele nos deixou muita saudade, Mhario. Eu e Camilo tínhamos uma forte ligação não só de amizade. Mas de trabalhos que fazíamos quando ele vinha para São Luís-Ma. Tem uma máxima que diz que quando nascemos, sempre trazemos algumas missões importantes. Uma delas é aprender a amar. A outra é ensinar a amar. E por último, de alguma forma, interceder para mudar a vida de alguém. Essas três qualidades, Camilo tinha de sobra”.

Wellington, Camilo e Salomão jr. (Edição: ML).

Welington Reis completou: “No pouco tempo que passei com ele em São Paulo, observando aquela movimentação dos novos músicos e aprendizes, diante da performance instrumental, pude notar o quanto Camilo intercedeu diretamente na mudança da vida de tanta gente. Não só músicos, mas de muitos amigos que conviveram com aquele sorriso maroto”.

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E sorrisos, são importantes? Sim, porque parece que Camilo tinha um específico para cada amigo. Especialmente quando ele sentia que o interlocutor não estava bem. Dessa forma, “conquistava a todos, sem ego e sem hipocrisia”, confessa o intérprete e músico Salomão Junior, que completa:

Eu tive um bom relacionamento com Camilo. Desde os anos 80. Tocamos juntos. Fizemos Carnaval juntos por diversas cidades do interior do Maranhão e éramos colegas de quarto. Isso porque, naquela época, começava-se a cantar sambas-enredo nas festas de Momo. Então, no mesmo quarto, ensaiávamos. Ele também cantava. Ele escondida isso. Mas tinha uma boa interpretação. Estou muito abalado com o falecimento dele.”

Salomão Junior é, sem dúvida, uma pessoa muito querida e quando lhe liguei para falar de Camilo ele chorava e me contava que a amizade entre eles era enorme. “Nunca vi o Camilo de mal com a vida. Hoje o Céu ganha o sorriso mais maroto que eu conheci”. Coincidência ou não, ele era músico do grupo “Sorriso Maroto”, até adoecer e ficar impossibilitado de continuar.

Tentei contato, também, com o baixista e amigo pessoal de Camilo, Antonio Paiva, prêmio ‘Universidade FM’, mas ele estava sem condições de falar naquele momento. E com razão. É muito difícil encarar a morte de quem se gosta.

Mesmo com aquelas mensagens de ‘tudo passa’, ‘ele está num bom lugar’, ‘a vida se completa em espírito’, e outros enunciados filosóficos ou doutrinários, é difícil compreender a morte. Pois o que pesa - e é real - é a saudade, a presença física, o abraço, a voz, o estar junto. Essa falta traz imenso vácuo em tudo isso. Fica, sim, a saudade, a lembrança. E especialmente a certeza de que ele ainda iria produzir muita coisa bonita, como frisa Chiquinho França, produtor musical e instrumentista de alto nível, um dos mais atuantes defensores da música do Maranhão:

“(...) Mhario, eu como um amante da música do Maranhão e do trabalho de grandes músicos maranhenses, espalhados por esse Brasil e pelo Mundo, ao saber dessa notícia, imediatamente senti profunda tristeza. Ele ainda tinha muito para produzir. Mas veio a lembrança de quando eu era adolescente, ouvindo os shows de ‘Nonato e seu Conjunto’ em Santa Inês-MA. Eu ouvia, porque não tinha idade para entrar no baile. E ficava no ‘sereno’ até meia-noite, ao som da música que vinha lá de dentro. Curtia Oberdan na guitarra, Zé Américo no Teclado, Walbert crooner, Pintomba no baixo, Camilo na bateria, e a galera do metal. Alguns anos depois, reencontro Camilo trabalhando com grandes artistas da MPB. Desta forma, não tem como esquecê-lo. Mesmo porque, trabalhei muito tempo com o baterista Oliveira Neto, filho dele, que herdou toda a habilidade do pai. Por isso que eu acredito, Mhario, que o Maranhão exporta o melhor da MPB para todo o Brasil, sem dúvida. Essa perda abalou muita gente. Era uma pessoa alegre, do bem e deixa um grande legado para o Brasil”.

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Muito se falou em algumas inovações que o artista maranhense conseguiu realizar em sua vida profissional. E quem acompanhou isso foi Fernando Rodrigues: “(...) Camilo foi inovador em muitas dessas atividades como músico de grupos de Pagode, tanto no Rio, como em São Paulo. E isso me deixava muito orgulhoso. Um cara técnico e que não via nenhuma dificuldade em ensinar sua profissão para quem precisasse. Técnicas de pedal e exercícios para execução de 'frases' mais difíceis faziam do ritmo de samba dele, quase único. Todos do ‘Sorriso Maroto’, último grupo que trabalhou, amavam Camilo”.

Edição: ML. (Mhario e Camilo).

Aliás, como oportunidades a gente nunca deve perder, em 2017 quando reencontrei Camilo Mariano, no Aeroporto de São Paulo, e recebi autografado o “CD Banana Mix”, um de seus trabalhos alternativos, ele me falou “Mharão, vai lá hoje. Depois a gente come uma pizza e tu me contas as novidades da Ilha...”. O convite, claro, veio acompanhado daquele sorriso inesquecível, após um longo abraço.

Não pude ir e acabei por não desfrutar da bela companhia de Camilo nem tê-lo mais visto “sorrir com tanta facilidade”, como me disse Wellington Reis e Salomão Junior. Porém, como tudo nessa vida é um caminho e como todas as vidas de bem acabam deixando um grande legado, Camilo está imortalizado nas gravações dos últimos 3 LP’s de “Nonato e Seu Conjunto’, nas gravações da ‘Banda Viva’, de Alcione, de Elba Ramalho, de Tim Maia, do ‘Sorriso Maroto’ e tantos outros nomes e grupos musicais da Música Popular Brasileira. E finalizo com uma frase muito interessante de José Américo Bastos: “Deus me deu oportunidade de oferecer a Camilo Mariano as chances profissionais. E ele estará imortalizado nas inúmeras gravações que fez com grandes artistas brasileiros”.

Essa é a essência de Camilo Mariano. E nunca morrerá!

 

*Mhario Lincoln, Presidente da Academia Poética Brasileira e ex-baterista.

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Marcia LourdesHá 5 anos São LuísO que escreveu José Raimundo, Mhário, sobre Camilo. José Raimundo Rodrigues A SAUDADE QUE FICOU: CAMILO, EX BATERISTA DO GRUPO MUSICAL MAIS FAMOSO DO MARANHÃO, NONATO E SEU CONJUNTO, NOS DEIXOU NESTA QUARTA-FEIRA, 28 DE JULHO DE 2021.
ZecaHá 5 anos São Paulo Estou escutando Sorriso Maroto agora e lendo esta crônica de vcs. Obrigado. Obrigado por deixar escrita esta bela homenagem.
BethHá 5 anos Rio de JaneiroEssa é a certeza que temos na vida: a morte. Mas, antes que ela aconteça, que se faça um montão de coisas lindas que ficarão pra sempre em nossas cabeças. Isso foi o que Camilo Mariano fez. Muitas coisas lindas que ficarão pra sempre aqui nesta Terra.
Salomão JuniorHá 5 anos (Facebook). São Luís-MaCamilo, meu amigo, meu irmão. Que Deus o Tenha
Fernando RodriguesHá 5 anos (Facebook)Camilo: meu irmão, parceiro, amigo muitas saudades de todos os bons momentos vividos. Orgulho da nossa música.
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