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"AS CORES DO SWING", Livro de Augusto Pellegrini é publicado em capítulos, semanalmente

Sob autorização do autor.

29/10/2021 às 18h03 Atualizada em 29/10/2021 às 18h23
Por: Mhario Lincoln Fonte: Augusto Pellegrini.
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George Gershwin e Pellegrini (Montagem ML).
George Gershwin e Pellegrini (Montagem ML).

Capítulo 6 – A expansão mundial do swing – Parte 5 (final) 

Augusto Pellegrini*

De todos os compositores eruditos da época, Darius Milhaud foi quem chegou mais perto do jazz quando compôs "La Création Du Monde" com muitos motivos do Harlem e do blues, a começar pela utilização da música "Saint Louis Blues", de W.C.Handy, como principal referência da composição.

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Mais tarde, Stravinski e Hindemith se envolveriam com a música de Benny Goodman, mas este envolvimento se daria estritamente no campo erudito.

Partindo em um rumo diferente, George Gershwin e Leonard Bernstein combinaram a música erudita com o jazz, mas não chegaram fazer música dançante, que era a tônica do swing.

Leonard Bernstein.

Em 1900, a música americana ainda não havia sofrido as transformações que a levariam a ser chamada de jazz, mas o espírito de um novo som estava presente na forma de execução das marchas e no ragtime estilizado que John Philip Sousa levou para Londres e Paris com a sua banda. Além do mais, a presença do banjoísta Vess L.Ossman na orquestra trouxe um rompimento de todas as estruturas harmônicas e formas de improviso que os ouvidos daqueles europeus conservadores poderiam conceber na época.

Possivelmente, a celebridade que mais abalou os alicerces da música europeia tenha sido o clarinetista e saxofonista-soprano Sidney Bechet, que se apresentou em 1919 com a Syncopated Southern Orchestra de Will Marion Cook. O maestro suíço Ernest Ansermet proclamou que "Bechet era um gênio", e anos mais tarde o músico americano teria uma estátua na Riviera Francesa erigida em sua homenagem.

Diversos outros músicos americanos começaram a levar para o território europeu, primeiro os rudimentos do jazz e depois o jazz já totalmente formatado, e muitos músicos do Velho Continente assimilaram com muita propriedade o espírito da nova concepção musical, sendo incentivados a compor e executar coisas semelhantes. No início dos anos 1920, muitas obras mostrando este sentido de renovação já haviam sido produzidas por músicos europeus, alguns decididamente copiando os sons americanos, outros tentando criar um jazz com identidade própria.

O swing fez parte desta nova realidade ao lado do dixieland, e já durante os anos 1930 existiam excelentes grupos orquestrais na Alemanha, na França e na Inglaterra, que no futuro marcariam presença no mundo das big bands com a consolidação das orquestras de Kurt Edelhagen, Max Gregor, Peter Herbolzheimer e Werner Baumgart (na Alemanha), de Claude Bolling, Francy Bolland e Les DeMerle (na França), e de Humphrey Littleton, Ted Heath e Chris McGregor (na Inglaterra), somente para citar as mais conhecidas.

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Glenn Miller.

É verdade que no início da Era do Swing os europeus – com exceção dos músicos – viam o jazz mais como uma nova forma de dançar do que como um estilo revolucionário de música, mas ficava patente que alguma coisa diferente estava acontecendo.

E assim, de repente, um continente que tivera que se contentar por muitos séculos com o seu próprio folclore e com as sempre belas e instigantes – mas pouco inventivas – músicas regionais (como as tarantelas italianas, as czardas húngaras, as danzas flamencas, e a coreografia campestre das danças russas e cossacas) podia agora universalizar toda a sua arte musical, fazendo com que holandeses, franceses, italianos, belgas e quem mais fosse pudessem interpretar o mesmo tipo de música, sem maiores necessidades de qualquer ensaio ou mesmo de qualquer prévio conhecimento entre si!

A influência da música americana no continente europeu se fez sentir especialmente nos anos que se seguiram após a Segunda Guerra, em especial na Inglaterra, onde cresceu de forma assustadora, propiciando uma grande escalada do blues – vide Eric Clapton, Jeff Beck, John Mayall, Long John Baldry e outros – e de orquestras diversas, como as de Sidney Lipton, Chris Barber, Freddy Randall e principalmente Ken Colyer.

O jazz chegou na Europa nos primeiros anos do século vinte e de lá nunca mais saiu. Pelo contrário, ele se expandiu, criou raízes próprias e menos de um século depois já rivalizava com os Estados Unidos no interesse do público e na quantidade de intérpretes, compositores, gravações, programas radiofônicos, festivais, clubes e locais de apresentação. 

Durante a sua época áurea, o swing representou para a classe média americana a soberania do país, e foi um dos seus motivos de orgulho.

John Philip Sousa.

Mesmo quando teve que enfrentar os tempos magros da Depressão e as suas consequências funestas, o país se sentiu motivado e fortalecido pela força do swing. Afinal, o swing conseguira o que centenas de discursos de políticos e previsões de economistas não haviam logrado: trazer confiança ao povo. E esta confiança aconteceu por conta da alegria da música.

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Nem mesmo o ingresso na Segunda Guerra Mundial, fato que normalmente levaria a população à tristeza e ao pessimismo, conseguiu arrefecer o ânimo norte-americano.

Pelo contrário, orquestras se uniram para promover bailes com a finalidade de angariar fundos que seriam transformados em bônus de guerra. Muitos músicos se alistaram não exatamente para pegar um fuzil e sair pelo front atirando na cabeça dos soldados inimigos, mas para manusear o seu instrumento e participar de um esforço concentrado a fim de restaurar o otimismo e o alto astral das tropas.

Entre outras, duas das mais formidáveis e mais bem pagas orquestras do país abdicaram dos cachês altíssimos e do glamour dos salões para se embrenharem nas selvas das ilhas do Pacifico, sujeitas a um oceano de mosquitos e doenças tropicais, ou nos campos de batalha da Europa Ocidental, sujeitas à lama e ao inverno rigoroso: as orquestras de Artie Shaw e Glenn Miller.

Mas o swing também se tornou querido porque fez o povo dançar. E como o povo gostava de dançar o swing!

Apesar de uma parte do público considerar que jazz era uma música para ser ouvida, permitindo no máximo a batida dos pés ou o balanço do corpo, outra parte achava maravilhoso poder combinar as duas coisas – ouvir e dançar.

Esta combinação de jazz com dança foi o que de fato provocou a grande aproximação entre o swing e o povo americano, originando um namoro e um casamento que duraram cerca de trinta anos.

Como o swing tinha na sua alma a parte negra do blues, pela primeira vez na história do país, brancos e negros se uniram ao redor de uma única ideia, ainda que fosse musical. Esta comunhão ressaltou um sentimento de orgulho nacional que ajudou muito a fortalecer o espírito americano durante a Segunda Guerra e perdurou após o evento, se constituindo numa das molas propulsoras do progresso local e da integração americana com o resto do mundo que se iniciara durante o intervalo das duas Guerras, 1918 a 1938.

 Artie Shaw.

Dizer que o swing foi o responsável pela importância que os Estados Unidos tiveram resto do mundo no mundo seria um exagero, posto que esta importância acabou se evidenciando também nos campos econômico, político e científico. Devemos admitir, no entanto, que foi a partir do jazz tradicional dos anos 1910-1920 e do swing dos anos 1930-1940 que a música americana se impôs praticamente em todo o mundo, mesmo com a relutância dos blocos comunistas que durante muito tempo vetaram a sua execução nos seus territórios, mormente nos tempos de Guerra Fria.

Mas mesmo em Moscou, Praga, e se duvidar, até em Pequim, ouvidos ávidos pela boa música apreciavam o swing, o jazz e o rhythm & blues trancados em porões e escondedouros clandestinos, desafiando o poder da autoridade.

O swing contribuiu para que as raízes americanas se fincassem no solo europeu e colaborou para que uma grande simpatia popular fosse devotada aos Estados Unidos também em outros campos de atividades.

Depois da Coca-Cola, lançada na Europa no começo do século vinte, o swing foi a mais marcante marca registrada dos Estados Unidos da América no solo europeu.

E, assim como a Coca Cola, o swing chegava para ficar.

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Augusto Pellegrini é membro da Academia Poética Brasileira e seu livro sairá publicado pela editora APB, "Acadêmica", em 2022.

Video-Bônus - "American Patrol" com Glenn Miller

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