
O DESPERTAR DA POESIA PLENA DE ROSAS
DIONE M. S. ROSA
[…] D’un beau rouge sont les roses. Enigmático verso ressoou na alma durante toda a minha existência, encontrado na canção francesa Aranjuez, mon amour, cantada pelo imortal Richard Antonny.
Depois de ouvir os versos e a canção imergi em rosas debruçadas por beirais apocalípticos. É o lugar em que fontes secam e só se escutam os murmúrios do vento...
No espaço de um suspiro reverberando no turbilhão de inspiração, nasceram meus sonetos.
De vermelho e de sangue é a canção; todavia é com vermelho e sangue que componho meus sonetos para o livro O segredo da rosa – sonetos sobre as quatro estações e os quatro elementos.
Rosas de paixão
Lua entre nuvens brancas. A noite está linda
Sobre o casto jardim. Ela esconde o reflexo
Para o pequeno lago. Oculta estrela vinda
Da longa escuridão ilude o luar perplexo.
Os aromas de mirra espalham-se nos ares
Às rosas em botão. Os rubros lábios quentes
Inflamados por beijos... Habitados mares
De amor e de ilusão: são desejos ferventes.
Poetas buscam a boca em pétalas guardadas
Sedentas de paixão. O fogo arde em delícias.
Caem frutos maduros. E cedem, atadas.
Albores da manhã num êxtase sufocam
Em perfumes de sândalo. Aura em carícias
Que espraia azul na luz. Os suspiros se tocam...
Amor proibido
Muito longe a madeira arde. Junto ao fogo
A dançarina ri: véus esvoaçantes roçam
O etéreo vento sobre o Nilo. Muito adoçam
As madrugadas sem luz. Ela treme em rogo.
Um violino que toca música serena.
Ela dança feliz. O poeta aspira e lê
As linhas dum destino. Ele a quer. E vê
Na sombra a alma só, delicada e morena.
Fulgores penetram a tenda, confessando
O desejo no olhar. Crescem arcos de flores
Pelos sinuosos gestos. Ele está amando.
Beijos proibidos tão sonhados e esperados
Supondo ser cerejas em tantos licores
São bem toques de amor em luares extasiados.
Cascata de rosas
Fugaz encontro espia o pôr-do-sol
Serenando o pranto das despedidas.
Amores proibidos brincam no atol
Deleitando-se em paixões prometidas.
Uma lua brinca entre suaves sonhos
Enquanto o oásis armazena o som d’ água
Supondo seduzimentos tardonhos...
Brota poesia em fonte que deságua.
Poetas buscam aromas inspirados
No refúgio de areias que remansam
Em sagrados relicários fechados.
Cascatas vão penetrando interiores,
Tão repletos de rosas que balançam
Na suave sombra dum arco-de-flores.
Rosas de areia
Silentes águas mornas duma fonte
Escondem lágrimas da lua cheia,
Pelos amores que choram defronte
De sonhos feitos em rosas de areia...
Espraiam folhas levadas ao vento
para os exóticos jardins cativos.
Suspiram os amores sem alento
Em tantos segredos inspirativos.
Mil rosas despetalam de arrepio.
Uma triste bruma noturna anseia
Pela quintessência longe do estio...
Frágeis rosas dos lábios purpurina
Escondem tanta dor que desnorteia.
É o coração roto da dançarina.
Caem as folhas secas
Silenciosas folhas em taciturnos
Bosques falam da tristeza de outrora
Em lágrimas derramadas. A aurora
Sai do horizonte entre sonhos noturnos...
Vagando na desvairada ilusão
Amores buscam os encantamentos
Na sutileza do desejo em lentos
E suaves aromas no ar de paixão.
As desnudadas árvores esquecem
A mutação espalhada na relva
Dourada, até que luares anoitecem...
O vento carrega as folhas além,
Esquecendo-as numa longínqua selva
Onde pássaros sondam o vai-e-vem...
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