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Os Estatutos do Homem, de Thiago de Mello

Thiago de Mello morreu hoje pela manhã, por complicações de saúde.

14/01/2022 às 09h55 Atualizada em 15/01/2022 às 09h15
Por: Mhario Lincoln Fonte: Ass. de Imprensa da APB
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Thiago de Mello jovem
Thiago de Mello jovem

Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony

 

Artigo I 

Fica decretado que agora vale a verdade. 

agora vale a vida, 

e de mãos dadas, 

marcharemos todos pela vida verdadeira. 

 

Artigo II 

Fica decretado que todos os dias da semana, 

inclusive as terças-feiras mais cinzentas, 

têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 

 

Artigo III  

Fica decretado que, a partir deste instante, 

haverá girassóis em todas as janelas, 

que os girassóis terão direito 

a abrir-se dentro da sombra; 

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 

abertas para o verde onde cresce a esperança. 

 

Artigo IV   

Fica decretado que o homem 

não precisará nunca mais 

duvidar do homem. 

Que o homem confiará no homem 

como a palmeira confia no vento, 

como o vento confia no ar, 

como o ar confia no campo azul do céu. 

 

        Parágrafo único:  

        O homem, confiará no homem 

        como um menino confia em outro menino. 

 

Artigo V  

Fica decretado que os homens 

estão livres do jugo da mentira. 

Nunca mais será preciso usar 

a couraça do silêncio 

nem a armadura de palavras. 

O homem se sentará à mesa 

com seu olhar limpo 

porque a verdade passará a ser servida 

antes da sobremesa. 

 

Artigo VI  

Fica estabelecida, durante dez séculos, 

a prática sonhada pelo profeta Isaías, 

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos 

e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 

 

Artigo VII  

Por decreto irrevogável fica estabelecido  

o reinado permanente da justiça e da claridade,  

e a alegria será uma bandeira generosa  

para sempre desfraldada na alma do povo. 

 

Artigo VIII   

Fica decretado que a maior dor 

sempre foi e será sempre 

não poder dar-se amor a quem se ama 

e saber que é a água 

que dá à planta o milagre da flor. 

 

Artigo IX   

Fica permitido que o pão de cada dia 

tenha no homem o sinal de seu suor.   

Mas que sobretudo tenha  

sempre o quente sabor da ternura. 

 

Artigo X  

Fica permitido a qualquer  pessoa, 

qualquer hora da vida, 

uso do traje branco. 

 

Artigo XI   

Fica decretado, por definição, 

que o homem é um animal que ama  

e que por isso é belo, 

muito mais belo que a estrela da manhã. 

 

Artigo XII   

Decreta-se que nada será obrigado  

nem proibido, 

tudo será permitido,  

inclusive brincar com os rinocerontes  

e caminhar pelas tardes  

com uma imensa begônia na lapela. 

 

        Parágrafo único:  

        Só uma coisa fica proibida: 

        amar sem amor. 

 

Artigo XIII   

Fica decretado que o dinheiro 

não poderá nunca mais comprar 

o sol das manhãs vindouras. 

Expulso do grande baú do medo, 

o dinheiro se transformará em uma espada fraternal 

para defender o direito de cantar 

e a festa do dia que chegou. 

 

Artigo Final.   

Fica proibido o uso da palavra liberdade,  

a qual será suprimida dos dicionários  

e do pântano enganoso das bocas. 

A partir deste instante 

a liberdade será algo vivo e transparente 

como um fogo ou um rio, 

e a sua morada será sempre  

o coração do homem.

Nota da APB.

 

 

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