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Eloy Melônio, sem dúvida, é um contista aplaudido. Basta ler, "Velhacos".

Eloy Melônio é membro da Academia Poética Brasileira.

30/01/2022 às 10h51 Atualizada em 31/01/2022 às 13h52
Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melônio
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Eloy Melônio é autor de
Eloy Melônio é autor de "Travessia", poemas.

VELHACOS

A tarde transcorria sob um sol de lascar. Cansados, os ponteiros do relógio do salão principal atrasavam a chegada da tardinha. Era novembro em São Luís do Maranhão, e os residentes do Nova Vida, em suas cadeiras de embalo, ansiavam por algum sopro da viração. O casarão do retiro ficava num morro a trezentos metros da praia, mas a maré vazante não ajudava.

O Nova Vida acolhia idosos da classe média alta. Gente que, por alguma circunstância ─ pessoal ou social ─ precisava de um novo lar. E oferecia quartos adequados a cada necessidade ou exigência. O da Angelina Farias tinha banheira, ar-condicionado e outras comodidades. O nível de conforto e funcionalidade dependia do bolso de cada um.

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Depois de ficar viúva, Anabela Saraiva, juíza aposentada, bonita e jovial aos setenta e cinco anos, foi morar com Aninha, sua filha única. Solteira, e com vida atribulada no ramo hoteleiro, a filha não tinha tempo para a mãe. Saía cedo, voltava tarde. E viajava muito.

Nessas condições, Anabela optou por se instalar no Nova Vida. Lugar privilegiado, quase um paraíso. A brisa passava por lá todos os dias. Manhãs encantadoras, próprias para atividades físicas. E à tardinha, o arrebol se exibia sobre o céu ocidental de Alcântara, do outro lado da Baia de São Marcos.

Mulher comunicativa, gostava de pessoas com quem pudesse trocar ideias. Conversas abertas e construtivas, preferencialmente. Em seu primeiro sábado, a expectativa era de um fim de tarde espetacular. Lá fora, o palco já estava montado. Só faltava o astro-rei permitir que seus raios avermelhados se debruçassem sobre as nuvens que ofuscavam o horizonte.

O sossego da tarde cedeu lugar ao falatório de Valdico e Getúlio. Agitados, arrastavam cadeiras e derrubavam coisas num barulho infernal. Eram gente boa, mas, quando bebiam, faziam coisas desagradáveis. Ora uma piadinha chula do Valdico, ora música alta na caixinha de som do Getúlio. Palavrões também faziam parte de seu repertório de bobagens.

O quase oitentão Valdico foi um destacado advogado criminal, e era o mais apresentado dos dois. Acostumado a embates retóricos nos tribunais foi logo puxando conversa com a recém-chegada:

─ E então você decidiu acabar seus dias aqui no Nova Vida?

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─ Não, não. Ao contrário, estou começando uma vida nova.

─ Tem certeza? 

─ Absoluta. Aqui tenho tempo e sossego para fazer o que gosto.

─ Por exemplo?

─ Ler, ouvir música! Escrever...

─ Você tem jeito de artista, sabia?

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─ Será? Sou reflexiva, introspectiva... Só isso. E quero escrever um livro.

Mais retraído, Getúlio ouvia a conversa. E viu que os dois estavam se entendendo bem. Tinham coisas em comum; afinidades da profissão. Mesmo assim resolveu entrar “de gaiato” na conversa:

─ E o maridão, não veio?

─ Sou viúva. Verdade! (confrontando olhares desconfiados). Desde o ano retrasado.

A pergunta não afetou Anabela, que voltou sua atenção ao livro de Agatha Christie que repousava sobre suas coxas. Getúlio arriscou uma saída irônica:

─ Antes só do que bem-acompanhada, não é mesmo?

─ Não! De jeito algum! Seria bem melhor se o Edgar estivesse aqui. Era um homem como poucos por aí.

A conversa esfriou, e os dois pularam para outro galho, onde estava uma vítima preferida. Valdico foi logo insinuando: “E aí, Seu Everaldo! Já viu a boazuda que chegou esta semana?” No mesmo embalo, Getúlio desferiu o golpe mortal: “Uma coroa lindona, viuvinha da silva!”

O pobre senhor de noventa e poucos anos não ouvia bem. E se tivesse entendido os comentários indecorosos, não teria respondido. Não era dado a esse tipo de brincadeira. Reservado, passava o dia com seu celular. E ainda lia poemas de Vinicius, que o ajudavam a recordar momentos inesquecíveis com sua amada esposa, morta há três anos.

O Nova Vida era um retiro democrático. Havia regras, mas nada exagerado. Podiam sair para um cineminha ou restaurante. Receber visitas, ir à praia. Dormir e acordar na hora que quisessem. Lugar perfeito, não fosse os desmantelos, às vezes excessivo, da dupla dinâmica Valdico e Getúlio.

Domingo passado a filha de D. Maria Piedade levou-a para passar o dia com a família. Fazia isso uma vez ao mês. Já com 86 anos, sua mãe aproveitava para rever as amigas da igreja e se confessar. E fazia questão de entregar pessoalmente ao padre Jairo suas ofertas para “a obra” do Senhor.

Valdico e Getúlio geralmente ficavam no retiro nos fins de semana. 

Daniel, filho mais novo de Valdico, vinha buscá-lo duas vezes ao mês para rever a família. E eventualmente ligava para Seu Jaime procurando saber se estava tudo bem. Esse “tudo bem” era porque o pai tinha a mania de “mexer” com as mulheres. Mexia com as empregadas de sua casa, mesmo quando Dona Aparecida ainda era viva. Suas impertinências se repetiram no retiro, e o filho foi chamado para uma conversa com o gerente. Conhecido e influente na vara criminal, conseguiu safar-se de um processo por assédio sexual dois anos antes de se aposentar.

Valdico achava-se o tal “homem alfa”. Fazia caminhadas na praia e usava a esteira da salinha de musculação três ou quatro vezes por semana. Tinha contatos de garotas no seu Whatsapp, e não saía sem levar no bolso da calça uma cartela com dois "azulzinhos" de 100 mg.

Segunda voz da dupla, Getúlio era um pau-mandado. Funcionário público federal, já estava no Nova Vida quando Valdico chegou há um ano e meio. Antes, um homem educado, prestativo. Depois, um gozador insolente, que aprendeu rápido as lições do novo mestre.

Os dois permitiam-se umas latinhas de cerveja nos fins de semana. E era aí quando “o bicho pegava”. Ficavam atrevidos. Mas não escapavam à vigilância de Seu Jaime.

Numa tarde de domingo, Valdico retomou o flerte a Anabela. Depois da abordagem inicial, foi incisivo.

─ Sabe, querida, por aqui ainda não passou uma mulher como você?

─ Hum! Verdade?!

─ Suas pernas são dignas de olhos mal-intencionados.

─ É mesmo?! De quem, por exemplo?

─ Dos meus, em especial. 

─ Obrigada.

─ Obrigada?! Ah, então você não conhece a piada do elefante e da formiguinha?

─ Não. Acho que não.

E contou a piada em que “um elefante, depois de fazer um favor a uma formiguinha, exige recompensa em sexo”. Anabela não gostou da piada nem da atitude machista do elefante. E desabafou: “Meu amigo, vou lhe dar um conselho que aprendi com o Jô Soares: Faça piada velha para público novo e piada nova para público velho (sic)”.

Dias depois, Valdico lhe entregou uma folha com um poema escrito do próprio punho, supostamente de sua autoria. Anabela deu uma rápida olhada, e concluiu: “Lindo! Adoro o Quintana”. Além de poesia, a juíza aposentada era voraz leitora de ficção. E já tinha o esboço de um romance policial que pretendia escrever. Por isso não se separava do livro “Escrevendo com a alma”, da norte-americana Natalie Goldberg ─ um best-seller referência em escrita criativa.

Causídico respeitável, Valdico se saiu da saia justa, tentando mostrar-se leitor contumaz do poeta gaúcho: “Sabia que você ia gostar. Quintana é espetacular!”

Valdico não era um tipo confiável. E, sempre que oportuno, tentava “tirar o cartaz” do amigo Getúlio. Certo dia, numa conversa com Anabela, confidenciou: “Aqui entre nós: sabia que ele nunca teve mulher, não tem filhos? Parece até que... Bem, deixa pra lá.”.

Na semana seguinte, o Dr. Valdinar Henrique de Melo foi convidado para defender um rico fazendeiro num julgamento de feminicídio. Teria de se ausentar por uns três dias. Convites para esse tipo de assessoria eram comuns, e ele quase não os aceitava. Mas, tratando-se do Dr. Sérgio Moritz, amigo e ex-sócio, não tinha como recusar.

Fora do Nova Vida, o palco ficou livre para o coadjuvante. Mais jovem, Getúlio pensava numa estratégia mais interessante. Algo que provocasse os sentimentos de Anabela. Não queria parecer tão inconveniente quanto o suposto protagonista, com seus gracejos impertinentes.

Voltando de uma saidinha, Getúlio encontrou Anabela no salão principal, assistindo à sua novela preferida. Hesitante, aproximou-se e lhe entregou uma rosa.

─ Adoro rosas vermelhas. Não lembro a última vez que ganhei uma rosa.

─ Espero que jamais se esqueça dessa que acabou de ganhar?

─ Prometo que vou guardá-la num lugar especial. Mas as flores não são eternas, você sabe.

─ Sim, claro. Mas as atitudes são. Ou não são?

De volta ao retiro, e sabendo dessa conversa mais que amigável, Valdico não gostou. E tirou satisfação com o amigo. Disse-lhe que estava a um passo de conquistar Anabela, e o chamou de “traíra”. Getúlio se defendeu: “Uma rosa não quer dizer nada”. “Ah, não! Mas uma traição pode dizer tudo”, retrucou Valdico com olhar ameaçador.

A relação entre os dois desandou e se transformou em indiferença, inimizade. Dali em diante era cada um em seu canto. Inevitavelmente viram-se diante do gerente para uma conversa conciliatória. Não resolveu. O incidente serviu para que um conhecesse o outro. Eram homens complexos e sensíveis, com monstrinhos adormecidos dentro de si.

Anabela percebeu que era a “estrela” de uma novela da vida real. Estava entre dois mocinhos, que pareciam realmente dispostos a conquistá-la. Chegaram a lhe propor, cada um, sair do Nova Vida para morar juntos. E logo viu que eram dois desvairados. Acostumada a julgar lides complexas, aprendera o que havia de intangível no coração de uma pessoa, seus dilemas, suas fraquezas e suas angustias.

Apesar de não ser uma beata, tinha suas convicções cristãs. E não estava disposta a encarar um relacionamento profano, uma vida com alguém que não respeitasse a santidade das coisas sagradas.

Enquanto isso, ocupava-se com seus poucos prazeres. Além dos livros, cuidava das plantas na frente do casarão, uma atividade que lhe servia para se expor ao sol da manhã. E depois de um banho relaxante, os cabelos molhados a deixavam mais jovem e atraente.

Numa tarde de domingo, a mais calma que já vivera no Nova Vida, folheava as páginas do livro que escolhera para reler em seus primeiros meses no retiro. “Um Crime Adormecido”, romance predileto de sua não menos predileta Agatha Christie. E ansiava reacender-se com as façanhas de Miss Marple, a senhorinha detetive dos romances da escritora britânica.

Da ficção, seus pensamentos fogem para a realidade. E aí, a imagem incômoda de dois homens insolentes. Pensa na forma como as pessoas vivem sob o assédio de suas paixões e perversões. E ─ como personagens de ficção ─ refugiam-se em seus delírios, vivendo sob assédio de fraquezas pessoais e reações impulsivas.

Na quarta-feira desta semana, os dois velhacos assistiam ao futebol na TV, cada um em seu canto. Era evidente que não se suportavam. E, aproveitando a ausência de Seu Jaime, tomavam sua cervejinha. Além de Seu Everaldo, fanático torcedor do Botofogo, havia outros senhores na sala. Indiferente ao que acontecia, Anabela preferiu a cadeira preguiçosa na varanda para viajar nos mistérios de seu romance policial.

Três dias depois, por volta da meia-noite, um carro da PM na frente do casarão denunciava uma tragédia. Em poucos minutos já estavam todos no salão principal. Atônitos, observavam Seu Jaime conversando com o sargento que comandava a patrulha.

Dentro de seu quarto, terrivelmente abalada, Anabela mal conseguia se mexer na cama. No assoalho, os corpos de Valdico e Getúlio, inertes e ensanguentados, dormiam seu último sono.

 

Eloy Melonio

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carmen regina diasHá 4 anos cascavel PRUm conto envolvente, interessantíssimo, recheado de toques literários. Personagens marcantes, ponderações importantes sobre machismo arraigado, uma bela estória, agradeço por poder acessá-la e curti-la. Parabéns por sua rica inspiração.
Hilmar HortegalHá 4 anos São Luís MAA beleza e a sensualidade provocam e seduzem a qualquer tempo! A vaidade e a masculinidade são dotes inoxidáveis que se manifestam em qualquer idade, sem respeito às consequências.
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