
Joema Carvalho
"Quando na educação não há verdade, o produto lógico, é a mentira".
Bibiana deixou o Rodrigo, seu filho, na balada. Voltou para casa. Toda sexta era dia de birita. Tomou duas long necks e foi assistir um filme. Depois dormiu.
As 00:30 horas, o celular toca.
- Mãe...vem me buscar. Deu polícia aqui e a gente só pode ir embora com o pai ou com a mãe.
Não deu tempo nem de xingar. No mesmo movimento de desligar o fone, levantou e colocou a primeira roupa que viu pela frente. Saiu bufando. O filho não estava no lugar que havia deixado. Estava começando a dormir. Saiu igual a um zumbi.
O GPS gerou dúvidas e parou em um lugar, antes do que era. Dali indicaram que era o da frente. Lá tinha carros de polícia. Aquele olhar prestativo de quem a orientou, como se estivesse segurando a gargalhada de ver a situação da cara de simpática da mãe. Cara de quem está segurando uma chinela psicológica na mão para arrebentar o traseiro do filho.
Chegou no local. Estacionou o carro onde havia uma placa de proibido estacionar, ao lado das viaturas. Não tinha onde parar além deste. Disse para um dos policiais:
- Vim buscar o meu filho, tudo bem deixar rapidinho aqui?
- Vou fingir que não vi, respondeu o guarda de forma muito simpática. Já era acostumado. Talvez estivesse realizando o trabalho mais agradável em relação aos demais, que por dever, fazia.
Lá dentro era escuro, com poucas luzes coloridas. Mix de madeira e alvenaria, combinação que pedia uma arquiteta.
Havia uma fila de pais que estavam na mesma situação. Alguns estavam indo embora, outros, recebendo lição de moral da assistente social. Ela, a Bibiana, ficou ali, aguardando a sua vez.
A sua frente, viu a Marília, mãe do Dirceu e disse:
- Que bom ver você aqui! No sentido de que não estava sozinha. A Marília respondeu:
- Bem, bom não é, né?!! Compartilhava da sua raiva inicial, que já havia dissipado, parcialmente.
Nisto, o Erasmo, pai do Carlos passa transtornado, com a cara, do tipo, não pensei que fosse viver isto. E cumprimenta com um sorriso tímido e vai embora.
Lembrou destes pais na fila do colégio do Fundamental, quando aguardavam para conversar com a professora e a diretora sobre as notas do boletim.
- 'Vai lá"! Dizia a Marília, colocando fogo na fogueira!!! Agora é a vez da Bibiana!!
- Ficou tempo lá, agora é minha vez, completava a Maiara, mãe do Bruninho, que não estava nesta festa. Ele se sentava na carteira, ao lado do Rodrigo. Não se desgrudaram na aula. Não paravam de falar.
A Ofélia, mãe do Horácio, aguardava lá fora. O filho dela ia dormir na casa da Bibiana. Ele tinha combinado com o Rodrigo de subir montanha no dia seguinte.
Todos ali, enfileirados, pelos filhos, novamente.
Uma vez quando o Rodrigo ainda era bebê, ela disse para os pais dela:
- O bom que depois dos cinco anos fica mais tranquilo, eles têm independência.
Os pais responderam em coro, com uma gargalhada sarcástica:
- Espera entrar na faculdade, espera isto e aquilo...que nem lembrava mais.
Chegou a vez dela. Escutou o mesmo “Sermão da Montanha” da assistente social que já tinha ouvido algumas vezes dos outros pais enquanto aguardava na fila:
- “Mãe, não pode menor depois das 00 horas em ambiente noturno. Você sabe dos riscos? Eles ficam vulneráveis a muitas coisas: álcool, drogas...”
Enquanto isto, uma policial disse para uma moça de menor que aguardava um responsável:
- “Desmiolada, mentirosa, vagabunda”. Repetiu várias vezes: “Você é desmiolada, mentirosa. Mentiu a sua idade”. A jovem estava com documento falso.
Os jovens tinham um esquema de fazer uma identidade falsa digital para poder entrar em casas noturnas. Era idêntica a original, porém, com dia de nascimento alterado. Pagavam um valor irrisório para quem fazia.
Bibiana teve uma sensação extrema, que a neutralizou o seu julgamento. A maioria dos jovens tiveram, ali, pai e mãe presentes. As jovens não.
Duas jovens estavam sozinhas naquele lugar. Vestiam um top quase transparente que tinham configuração de sutiã e uma microssaia. Bibiana ficou incomodada com o que viu. Questionou o conceito de liberdade, a simbologia do que vestimos e a exposição da solidão de duas vulneráveis. Como era mãe, considerou a situação de que, e se em vez de uma advertência estes jovens, tivessem sido levados para a delegacia? Depois o Rodrigo disse que elas estavam aguardando o tio mais novo que já estava na “night” virem buscá-las. Um deles já estava ali. Em casa é princesa e o pai e a mãe não podem saber do lado B? Onde estão os pais presentes? Precisa ser bipolar ora para ser respeitada dentro de uma família perfeita ora para poder respirar?
Exposição sexual em troca de atenção e presença? Quando na educação não há verdade, o produto lógico, é a mentira. O conceito de liberdade, leva ao conceito de
responsabilidade, respeito e limite.
A advertência foi assinada. A Bibiana foi para o carro junto do Rodrigo e do Horácio, que aguardava do lado de fora com a mãe dele.
No carro o Rodrigo foi contando sobre o ocorrido:
- Mãe, estava escrito na chamada da desta festa que era para menor também.
Por isto veio todo mundo. O cara que organizou tomou uma multa de 40.000 reais. Foi preso.
- Devolveu a grana da entrada?
- Tentei mãe, mas não consegui. O cara é mano mãe, coitado.
- Tá mas, não agiu corretamente, estava ilegal. Não é tão mano assim, concorda? E como que foi lá dentro?
- Mãe, os policiais eram de boa. Foram supertranquilos conosco. Ficamos lá, sentados no chão. Acredita que o Dirceu ficou trocando ideia com eles? E o Carlos... jogando no celular, sentado no chão esperando o pai dele. Os policiais eram “parças”.
Mas sabe aquela policial que você falou, então. Ela pegou a bolsa das gurias, abriu, jogou tudo o que tava dentro na mesa, tacou de volta às coisas para dentro da bolsa, jogava a bolsa para cima e fala o nome das gurias para elas correrem e pegarem as bolsas no alto antes que caísse no chão. Não pode fazer isto, mãe. As gurias e que tinham que abrir as bolsas delas.
- Desprezível, quando olhei para ela, baixou o rosto e falou baixo aquelas coisas. Ela percebeu que eu estava olhando porque ela sabe que não poderia estar agindo daquele jeito.
- Puts mãe, uma coisa que mexeu comigo. Chegou um casal, a mãe chorando desesperada e o pai meio perdido. Os policiais os chamaram porque o filho estava traficando.
- Vixe. Complicado. Que bom que vivenciou esta cena e mexeu com você.
- O duro é que o cara não vendeu e estava com muita droga. O problema será pagar o valor para quem forneceu.
- O duro é que foi preso e irão questionar a procedência. Muito complicado.
Mas me conta uma coisa, deixei você no “Flood”... e vocês no “Cave-In”? E aí se ocorre algo mais complicado e eu não fico sabendo?
- Mas mãe, eu falei para você que iria para outro lugar.
- Eu não lembro.
- Você nunca lembra das coisas que eu falo. Fica difícil assim.
O Rodrigo buscava a mensagem no WhatsApp:
- Olha mãe, escuta:
- Eu não lembrava disto, disse um monte de coisa e no meio falou que disse ia para outro local. Tem outra coisa, não diz o nome do lugar, nem onde fica. E aí? Esteja mais atento da próxima? Como vocês foram?
- Rachamos um Uber mãe.
- Última vez ok? Nunca mais vai passar das 0 horas e acabou esta história de mudar de lugar. Regra ok? Não consigo pensar em tudo antes de acontecer... Na década de 80, com a tua idade, bebíamos e não tinha tudo isto... Eu vivia no interior, todo mundo conhecia todo mundo. Os policiais e as assistentes sociais estão corretos.
É cuidado e seguem a lei. Estaremos mais atentos. A realidade é outra.
Chegaram em casa. Já era depois das duas horas. O Rodrigo foi para o quarto arrumar o local para o Horácio dormir. A Bibiana foi para a cozinha. Ela voltou e parou na porta do quarto do Rodrigo com as duas long necks vazias:
- Mãe!! Você foi me buscar na “batida” bêbada?
- Era para vocês terem voltado de UBER!!! Rezei para não ter bafômetro!
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