Resenhas Especiais
AXIOMA DO CORAÇÃO
"Os axiomas servem como base para a dedução de outras verdades."
*Mhario Lincoln
Caro Daniel,
O que leio neste espaço, com raras inserções de poucos caracteres líricos, não é algo novo, mas algo que transmuda o cio da construção poética e engravida algo além dos simples conceitos literários. O que leio aqui, sem dúvida, representa uma arrumação evolutiva, além do normal, do usual, do propedêutico:
"A olhos vistos
Era tanta realidade
Que os sonhos
Ficaram escondidos
Só no cantinho dos olhos".
É a isso que me refiro! E para provar meu conceito, chamo para nossa conversa Júlio Dantas que diz:
" (...) o mais difícil não é escrever muito; é dizer tudo, escrevendo pouco (...)".
Júlio Dantas tem obras memoráveis como ”Pátria Portuguesa”, “O Amor em Portugal no Século XVIII” e “Marcha Triunfal”. Um português, ex-embaixador no Brasil. Com certeza ficaria muito feliz se lesse esta obra de Daniel Maurício, como eu assim o estou fazendo agora.
Aliás, nem sei como chamar esse trabalho impecável. Seria micropoesia ou poesia minimalista? Mutatis mutandi, há exemplos incríveis em diversos segmentos literários, nacional e estrangeiro, que norteiam essa linhagem poética.
Quem leu "Primeiro caderno do aluno de poesia, de Oswald de Andrade (1927)", se deparou com a menor construção poética do Mundo:
"AMOR
humor".
Só isso!
Agora imagina o que Daniel Maurício pode fazer com 42 caracteres?
"O segredo do sol
É que ele nasce
Todos os dias
Sem nunca ter morrido".
Com toda certeza, Hans-Georg Gadamer acrescentaria a sensibilidade de Daniel, às ideias em que fundamentou seus estudos sobre hermenêutica.
E não só isso. Daniel também me incita a visitar Lygia Fagundes Telles, in “Confissão”:
"— Fui me confessar ao mar.
— O que ele disse?
— Nada."
Desta forma, quando me concentro em “Palavras de Cheiro”, imediatamente acrescento a minha leitura uma quantidade imensa de sentimentos sistólicos e diastólicos, porque dentro dessa obra extremamente meticulosa, perfeccionista e técnica, há muito da personalidade do autor.
Dá pra sentir emoções pululantes, abastecendo células de seu corpo, todas, famintas por oxigênio lírico. Mesmo assim, nesse turbilhão, orgânico-celular, ele é imperturbável. Costumo observá-lo nos saraus em que frequentamos na Feira do Poeta, em Curitiba-PR.
Dele, costumo ouvir algo suave que sonoriza as irrequietas sinapses neurônicas, cravejando com dez, trinta ou sessenta caracteres de poesia, a pureza das páginas quase em branco.
Se não, veja-se a suavidade explícita, abaixo:
“Lágrimas.
Na carta de despedida
Caem pingos em todas as letras
E não somente no ‘I’ ”.
Aqui, nesta obra, eu não tenho dúvidas da originalidade indelével de Daniel. Nem posso, sequer, duvidar de sua capacidade orgânica de fazer seu ‘eu lírico’ abissal, paradoxalmente vivenciado em textos com alto índice de síntese. (Lembra do que disse o lusitano Júlio Dantas?
Eis o segredo!
Nesta altura do raciocínio, nem mesmo a mim, me caberá analisar etimologicamente a arte de Daniel como sendo micropoema ou poema minimalista, pois não me preocupei com essas conclusões, mesmo depois de tentar aprender com o romancista WG Sebald, que pode ter sido o primeiro a usar o termo micropoema, em referência às construções líricas de cerca de 20 palavras (ou 20 caracteres, como se passou a chamar, depois da moda do twitter). Há, na verdade, certa similitude de construção orgânica, mas bem diferente na essência, onde Daniel se sobrepõe com maior dinamismo lírico.
O mais importante no trabalho que ora leio e me emociono é o ritmo. Ah! Esse tal de ritmo acaba derrubando tantas obras líricas, não é mesmo? Aqui, neste livro, cada poema escrito (ou micropoema ou, ainda, poema minimalista) tem profundidade rítmica. Como se Daniel escrevesse ouvindo um metrônomo. Tal acessório faz os versos adquirirem um fôlego extraordinário e complementam a suavidade da ideia exposta.
Vide:
“Num bocejo vazio do tempo
Sonolentamente
Pingam estrelas adormecidas.
Vida que passa tão rápido”.
Destarte, esta obra, deveria ser consuetudinária, pois guarda em seu bojo uma mistura de ritmo, suavidade, segredos, estornos, entornos, solidão, reencontro, norte, desnorte, paixão, saudade e medo. Um livro-apêndice, costurado com renda brejeira de talento e da consciência, além da magnificente simplicidade. Esta, ratificada pela mesma noção filosófica que brilhou na Grécia antiga: o ‘princípio da simplicidade’.
Como disse às primeiras linhas, este livro não tem forma nova, todavia, se cheguei a ler e comentar algo parecido ao longo de minha vida, tenho o direito homérico de escolher – “Palavras de Cheiro“ – como obra preferível, pois, pelo axioma da lógica, quando há obras parecidas, a mais simples é sempre a mais preferível, porque é uma cópia do coração.
Curitiba, 2021
Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira
e membro do Centro de Letras do Paraná.
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