E as aquarelas viraram história
Em “Um Conto para Davi Dormir”, com ilustrações sensacionais, a autora, mergulha fundo, a fim de que a consciência metropolitana e virtual da maioria das crianças seja romanticamente envolvida no mundo natural. Não de antanho. Mas do hoje, do agora, fortalecendo a consciência de que ainda se pode preservar muitas de nossas verdadeiras raízes.
Mhario Lincoln - Presidente da Academia Poética Brasileira.
Numa homenagem à Viana, e ao seu filho Davi, que com a autora vivencia o amor de mãe e filho, como no canto de Caetano Veloso: “Eu vi um menino correndo, eu vi o tempo, brincando ao redor do caminho daquele menino”. A artista plástica Susana Pinheiro trás consigo a marca da paixão pelo que pinta e escreve.
Fátima Travassos - Presidente da Academia Vianense de Letras
Palavras da autora
Este conto propõe o cotidiano. As relações entre as pessoas diante da difícil tarefa de educar com amor, e de manter-se no prumo, mesmo diante das adversidades. Depõe sobre o outro, neste caso a criança, que sem observar os conselhos do adulto, segue fazendo suas próprias vontades, num aventurar-se constante, mesmo quando se arrisca. Ao final desta vivência, aquilo que buscamos seja na amizade, nos romances, na família e no trabalho, que é o diálogo respeitoso, a escuta e o espaço para falar, entendendo que sempre se pode aprender com o outro, acontece. E mãe e filho seguem buscando esse equilíbrio, onde o ouvir e o falar, com afeto, semeiam aprendizados para a vida.
O conto mostra a arquitetura presente nos campos da baixada maranhense, onde as casas são construídas em andares, com a moradia no andar de cima, e o térreo servindo a outros fins. A fauna e a flora, presentes nesta aventura mostram aves como a marreca e a jaçanã, e árvores como a Sumaumeira e o Criviri. São encontradas no nordeste brasileiro, precisamente nos interiores como Guaratuba, Beira da Baixa e Vidéu, localidades da região de Viana, considerada a quarta cidade mais antiga do Maranhão, povoada por missionários jesuítas por volta de 1709, inicialmente na aldeia Guajajara de Maracu.
Este é apenas um recorte de uma vastidão de riquezas que a região da baixada nos oferece, e que é meu, é seu, e de todos aqueles que com amor e sensibilidade, buscam contribuir para o conhecimento e a valorização de nossa região. Esta história é dada para alcançar a todos nós, jovens e adultos, é ofertada como uma lupa que amplia e mostra o essencial, que por vezes deixamos passar. Sobre esta observação, cabe a frase da escritora Anne Cauquelin, em sua obra A invenção da Paisagem: “É preciso ver, diante de si, ver o que é “dado”, `a distância. Vê-lo como um todo e relacionar esse todo com a natureza.” Fazemos parte de um conjunto que precisa viver em harmonia. Boa Leitura.
Sobre as ilustrações
A aquarela, técnica escolhida para as ilustrações deste conto, tem como diluente a água que conduz a tinta. A água é característica marcante da região em que ocorre nossa aventura. Pintadas à mão, uma a uma, cada prancha surgia à medida que a cena era interpretada. A história posta aqui se desenvolve na baixada maranhense, época da seca, razão esta, que permitiu que algumas ilustrações tivessem as colorações alaranjadas, terrais, cinza-avermelhadas e amarelas. Sem, no entanto, perder o verde que predomina boa parte da flora que habita a cena e faz parte do contexto, que é representada através da presença dos verdes vibrantes nas cores do sap green e yellow limon, usados para os campos e as copas das árvores como a Sumaumeira, o Criviri, a mangueira e o Tamarineiro, assim como nas formas das aves como a Jaçanã e do pescado como o cascudo.
A aquarela é uma técnica de pintura milenar que remonta aos persas, egípcios e chineses, era feita inicialmente nos papiros. Possui como características marcantes as manchas e as transparências feitas sobre uma superfície de algodão ou celulose, preparados para receber a água. Da mistura de um pigmento colorido, mais um aglutinante que pode ser a seiva de árvores como as Acácias, da glicerina e do fungicida, obtém-se uma pasta, que adicionando-se água, chama-se aquarela. As cores misturam-se entre si, assim como as manchas numa combinação única, mas que cada olhar desvenda e alcança de modo particular.
Uma grande artista precisa ter um olhar periférico igual a um multitelescópio, recebendo feixes de luz de um prisma. Antes de tomar a atitude de colocar na tela as pinceladas coloridas, a intuição, o talento e a experiência devem fazer a diferença. Como disse uma vez Salvador Dali: “O talentoso faz de um borrão amarelo, um sol. O curioso faz de um sol, um borrão amarelo”. Bem isso - de um borrão, um sol amarelo - que as cabeças pensantes originais fazem.
O convite:
O prefácio
Simbioses Coloridas em Papel e Sonhos
* Mhario Lincoln
“A primeira ideia que uma criança precisa ter é a da diferença entre o bem e mal. E a principal função do educador é cuidar para que ela não confunda o bem com a passividade e o mal com a atividade”. Maria Montessori
Susana Pinheiro, essa maranhense multifacetada, consegue tornar original um tema já debatido inúmeras vezes, além de organizar no sentido de pensar, criar e produzir algumas coisas muito interessantes, que saem das telas de linho e pousam nas telas de celulose - invés de pincéis, esferográficas digitais - com uma facilidade incrível.
Estou lendo, neste instante, arrepiado literalmente, a história que ela escreveu para ninar seu filho Davi (hoje pré-adolescente). Mas, não é uma história qualquer. Não! É algo que se insere pedagogicamente numa linguagem única, (daí a originalidade), buscando a inserção da ideia em um aprendizado temático e autointuitivo - juntando escrita e ilustração - próprias das grandes celebrações “pro vita”.
“Um Conto para Davi Dormir”, com ilustrações sensacionais, passa pelas descobertas que uma criança faz, ao longo de parágrafos interessantes. Pensado para o público infantojuvenil, busca através de uma linguagem simples, abordagens quase pedagógicas sobre questões do cotidiano, incluindo aí, de forma correta, o lado sentimental da criança, cuja tendência, segundo psicopedagogas, “se submete à transformações muito fortes, sob o julgo impiedoso da nova ordem (...)”.
Sob esse prisma - o de explicar e ensinar, sem interferências dogmáticas - é que Susana Pinheiro procurou mostrar o valor de certos elementos ou atitudes, muito conhecidas por milênios, porém, nesta atualidade virtual, pouco desenvolvida. O mundo “in natura”.
Nesta obra, há uma inquietação eloquente em tornar o ambiente natural, fora dos quadrados entijolados de um quarto ou uma sala, tão comuns hoje, um fator primordial no aprendizado sobre o lado mútuo – Indivíduo x Planeta - da convivência, envolvendo plantas e animais, afora informações ou designers eletrônicos.
Visto, pois, Susana mira também na respeitabilidade a bichos e plantas e, num fato que me deixou bem feliz: destaca alguns exemplos importantes da flora e da fauna da Baixada maranhense, região originária da autora.
Desta forma, passeiam no imaginário de “Um Conto para Davi Dormir”, Marrecas e Jaçanãs, os Mururus, Sumaumeiras, os peixes Anojados, Bagre, Bagrinho, Mussum, Acará. Mesmo que o intuito do texto não seja enumerar tecnicamente o histórico animal e vegetal da região, mas, à proporção que alguns nomes são citados, outros, vêm automaticamente na cabeça. Principalmente daqueles que se originaram no nordeste e que povoam boa parte deste Brasil.
Assim, basta lembrar de Bagrinho, e lá vem a lista de lembranças: os peixes Carambanja, Camurim, Cascudo, Curimatá, Jeju, sempre pescados em grandes rios da região como Mearim, Pericumã, Pindaré e Turi, ou em lagos famosos: Capivari, Coqueiro, Formoso, Lontra, Maraçumé e Viana, onde, neste último lago, em Penalva Ma, tem a lenda da ilha que anda.
Susana ao longo da história vai citando outras coisas importantes, abordando a protuberância de vegetais regionais, fortificando a consciência ecológica e da continuidade da preservação.
Eu, particularmente, ao ler tais passagens, vêm na minha cabeça os campos de Pinheiro e São Bento (dois importantes municípios da baixada maranhense). E me lembro do projeto Rondon.
Essas duas cidades fizeram parte de minha experiência rodonista, na época, e eu me lembro perfeitamente da abundância de plantas como aninga, arariba, arroz-do-campo, canarana, capim-açu,
capim-de-marreca, gameleira, junco, jurubeba, mururu, orelha-de-veado e a famosa tripa de vaca.
A autora, assim, mergulha fundo, a fim de que a consciência metropolitana e virtual da maioria das crianças seja romanticamente envolvida no mundo natural. Não de antanho. Mas do hoje, do agora, fortalecendo a consciência de que ainda se pode preservar muitas de nossas verdadeiras raízes.
Um fato interessante é que, com essa história, Susana Pinheiro volta a infância, toda ela, colorida e interceptada por zilhões de pensamentos saudáveis, naturais, orgânicos, como se estivesse rolando na areia do lago de Viana ou correndo atrás de Jaçanãs da perninha fina. Ou ainda, observando as abelhas beijarem as flores uruçu-cinzentas (ou melipona fasciculata), de onde retiram a matéria prima para produzirem o famosíssimo mel de tiúba.
No mais, o belo trabalho da multifacetada artista maranhense Susana Pinheiro, residente e domiciliada no Rio de Janeiro, membro da Academia Poética Brasileira, reúne também aventura, estabelecendo uma conexão através dos personagens e também das várias espécies citadas, abordando, de forma gradual e inteligível, uma interação narrativa não só ambiental, mas e igualmente, amorosa entre mãe e filho.
Aliás, Cora Coralina dizia: “Feliz aquele que transfere (com amor) o que sabe e aprende o que ensina”. (Parenteses meus). E é isso que o leitor vai deduzir lendo este trabalho que une, técnicas de aquarela, em simbiose com o pensamento didático de quem lecionou por algum tempo, em escolas de crianças, na cidade de São Luís do Maranhão.
Receba, então, cara Susana Pinheiro, meu abraço. E saiba que são raras as obras que costumo recomendar. Contudo, esta, que me emociona, me ensina e me faz voltar a minha infância, merece, sim, ter esta indicação.
Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira.
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