PAULO RODRIGUES UM SEMEADOR DE RESISTÊNCIA
Convidsado: Carlos Vinhorth
O livro “CINELÂNDIA”, do poeta Paulo Rodrigues, publicado pela Editora Folheando em (2021) e, vencedor do prêmio Literatura & Fechadura de São Paulo, não está apenas condensado neste corpo dividido em quatro partes:
CLAQUETE
CENA 1
CENA 2
THE END
Há entre elas, outras partículas camufladas nas entrelinhas.
Em suma, o “CINELÂNDIA”, é o filme da vida real sem cortes. Porém os recortes expostos entre um take e outro ao longo da obra exibem através de um cenário imagético, cenas de um país em decomposição ética e moral. Identidade e cultura desumanamente massacrados, regidos por um sistema politicamente caótico. O poeta torna-se guardião dos nossos próprios males, sente na pele o gozo das dores do mundo. Língua e linguagem se transformam em signos e imagens cinematográficas. O fogo na boca das palavras aquece a alma desta obra.
é um sol
mais próximo da carne.
senta nas minhas pernas
e me encara
como um tigre
encara o futuro do cadáver.
é um sol.
troca beijos
e chove.
(CLAQUETE, Lótus p. 17)
Paulo Rodrigues, escultor das formas minimalistas, que buscam encurtar as distâncias do profundo como se alguns infinitos estivessem na ponta dos dedos.
Filosofia oriunda de sua lírica poética, o dizer sem a preocupação da forma pela fôrma concreta ou abstrata, mas o dizer com a força robusta e todos os músculos que sustém a base das palavras recheadas de significados. Seu conhecimento profundo da linguagem e habilidade com as palavras de imagens em curta-metragem o torna ainda mais instigante em sua poética; e, ultrassensível às mazelas do mundo real.
cavar o chão,
é inútil o cosmo.
cavar o chão,
cortar-se em pedaços
cavar o chão
(esquecer de ti,
de mim).
cavar o chão
enterrar o sol na fumaça.
cavar o chão!
cavar
o chão.
( CENA 2, Amazônia, cova comum P. 32)
1Os poetas contemporâneos a estes acontecimentos e seus respectivos males, tal qual o autor do “CINELÂNDIA”, não são capazes de evitar que as palavras sangrem. Mas...
Bem-aventurados os que sangram
a vida é uma bandeira vermelha
balançando na minha cara.
(CENA 1 p. 37)
Paulo é um estudioso da língua e faz da mesma a sua prática discursiva. O resultado dessa atividade são os inúmeros textos produzidos abrindo portas para uma ampla comunicação com o leitor.
A obra discorre em lampejos poéticos a imagem fílmica de Cinelândia situada no coração da cidade maravilhosa (RJ). Palco épico das importantes manifestações de cunho político e cultural do país. A beleza cultural e os contrates sociais que envolvem a Cinelândia se transformaram na pedra angular para a fundamentação desta obra.
Rodrigues, é um semeador de resistência, encontra forças sabe-se lá de onde, para exibir em sua “Sessão da Tarde” a fratura exposta, da realidade, da desigualdade social que pede socorro. Certamente são cenas que não queríamos, mas que precisamos assistir para as reflexões do presente e do porvir.
a mãe “escancha” a menina na cintura
e o aluguel venceu.
tem um fogão abandonado na rua.
a menina não percebe o leite
que escorre da boca.
carrega um brinquedo
enrolado num pano de prato.
(Cena 2 p. 47)
O que falta, sobra na terra dos homens, falta água na boca de quem tem sede, sobra fome na boca de quem não come. Mas já não há comoção. A sociedade está cega...
Bái bái Brasil
a cidade não esconde
os moradores de rua
(Fragmento The End p. 64)
Finalizo afirmando que a poética de Paulo Rodrigues é uma síntese precursora de paradigmas mas que vive a constância do novo, tão breve quanto profundo. Ser diferente e ousado não assusta, instiga a fundar ostros planetas talvez capaz de humanizar a humanidade.
Carlos Vinhorth, Poeta
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