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Texto sério e forte do professor Dino Cavalcante: "Literatura para Quem?"

Autorizada a publicação pelo autor.

31/08/2022 às 18h11 Atualizada em 05/09/2022 às 19h42
Por: Mhario Lincoln Fonte: Dino Cavalcante
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Dino Cavalcante, convidado APB
Dino Cavalcante, convidado APB

"Poesia é um produto de arte, como é uma música, como é um filme, como é uma peça de teatro, uma tela de pintura, etc. Ao escrever um conto ou um poema, o autor deve pensar o seguinte: “para quem estou escrevendo?”

Dino Cavalcante, coordenador do curso de Letras da UFMA *

 

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No início do Século XX, quando Coelho Neto, candidato a vereador no Rio de Janeiro, perdeu a eleição, Arthur Azevedo ironizou o sistema eleitoral brasileiro, dizendo, em tom de galhofa, que havia mais candidatos que eleitores na Capital Federal. 

Passados mais de 100 anos dessa galhofa do comediógrafo maranhense, um poeta de Maracaçumé publicou um texto num portal de São Bento, afirmando que tem a impressão de que no Maranhão há mais poetas que leitores. 

Se a afirmação de Arthur Azevedo deve ser vista como galhofa, o enunciado do poeta maracaçumeense deve ser visto com uma boa dose de preocupação. Sim, no Maranhão ultimamente há uma sensação generalizada de que não faltam bons poetas (nem maus!). O que falta são os leitores. Um acadêmico da AML (que pediu para não ser citado neste pequeno texto) disse, num evento literário, que, muitas vezes, o lançamento de um livro é, ao mesmo tempo, certidão de batismo e certidão de óbito, porque o livro nasce e morre no mesmo dia. O autor se lança no meio literário e continua ainda inédito, porque para a maioria ele nunca publicou uma única obra.  

Há uma lei que serve para qualquer produto, inclusive a poesia, que não é mais que um produto de arte. “Quando a oferta é maior que a procura, o produto tende a se desvalorizar”. Essa é uma máxima da economia. 

Então que fazer? Parar de escrever e deixar as pessoas com sede de poesia, para valorizar o produto literário? Certamente não é o melhor caminho. 

Machado de Assis, usando o autor defunto de Memórias Póstumas de Brás Cubas, lamentava, no “Ao Leitor” de seu romance, a, talvez, completa ausência de leitores. “Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte, e quando muito, dez... Dez? Talvez cinco.”

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Essa sensação terrível deve passar pela cabeça de muitos poetas maranhenses: Escrever para quem?

Poesia é um produto de arte, como é uma música, como é um filme, como é uma peça de teatro, uma tela de pintura, etc. Ao escrever um conto ou um poema, o autor deve pensar o seguinte: “para quem estou escrevendo?” O que todos sabem, desde criança, é que um escritor escreve para alguém, nunca para si mesmo.

Então, antes de se lançar no papel em branco ou na tela de um computador, devemos, antes de qualquer coisa, pensar: eu vou escrever para quem? Para pobres, ricos, jovens, alunos, leitores inexperientes, leitores acostumados com o texto poético, etc.  Essa questão é essencial. 

Humberto de Campos tinha certeza de que o seu público leitor era o mais abrangente possível, incluindo até mesmo os semianalfabetos, que devoravam o seu texto através de leitores com competência linguística.  Ao contrário, Guimarães Rosa sabia, desde a primeira linha de seu romance Grande Sertão: Veredas, assim como Sousândrade, desde o primeiro verso do seu épico O Guesa Errante, que os seus leitores seriam os mais experientes possíveis. O leitor acostumado a textos fáceis desistiria como um pobre desiste de comprar um produto, quando descobre que o valor é muito além de suas possibilidades financeiras. 

Isso acontece mais visivelmente com a música. Basta uma rápida pesquisa no YouTube para ver a quantidade de acessos a músicas muito populares e a quantidade de visualizações para músicas ditas mais refinadas. As primeiras geralmente passam de 10, 50, 100, 300 milhões de visualizações. As outras, quando muito, chegam a 100 mil; outras, apenas a 2 mil.

Urge, pois, criar consumidores para poesia, para o conto, para o romance, para a crônica, para o texto de teatro, para o cordel, para trova, etc. Temos uma das literaturas mais ricas do Brasil. É preciso, fazer o que o mercado faz com os seus produtos. Muitas vezes, um consumidor não precisa de um produto específico, mas, de tanto receber informações que aquilo é muito importante, que todos têm, etc., o cidadão vai até uma loja, ou pela internet mesmo, adquire o “objeto do desejo”, que muitas vezes não precisava e nem vai precisar. 

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Professores Dino Cavalcante e José Neres em lançamentos recentes.

Com o livro, com a poesia, precisamos fazer o mesmo. Precisamos colocar na cabeça de nossos alunos que a literatura é essencial, tanto quanto a música, como a televisão, quanto o jogo de futebol, quanto o filme, etc.

Em depoimento recente, o professor Darville Lizis, que leciona no Estado do Rio de Janeiro, afirmou: “Pensava eu, pobre de mim, que a escola seria um lugar estratégico de incentivo à leitura. Mais de uma década e um lustro depois de estrear no magistério, percebi que a falta de interesse (tempo? vontade? razão?) pela leitura não está delimitada somente aos alunos. Os professores pouco leem também.Daí, uma solidão pesada e triste me derruba. Não tenho interlocutores no meu ambiente de trabalho. Todos viramos autômatos. Precisamos, seriamente, falar sobre isto!”

Mas esse é um trabalho que não terá êxito se apenas for feito pelos autores – escritores e poetas.  Assim como no mercado há uma pesada campanha publicitária, inclusive com apoio do governo e da sociedade civil, há que se fazer com a literatura. Governo, sociedade e autores precisam entender que a literatura, como dizia Fernando Pessoa “como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”. 

Há quem defenda um outro caminho, além da propaganda. Samara Santos Araújo, por exemplo, acredita que o caminho é “mostrar ou inserir a literatura em todos os espaços. Para os poetas de hoje, versos viralizados no Tik Tok teriam mais força, mais visibilidade, mais consumidores...  sem deixar de ser literatura. O produto deve estar no alcance do consumo. As obras literárias ainda seguem uma ordem de manutenção de supremacia simbólica, é necessário um deslocamento desse domínio estético.”   

Se nada for feito, lamentamos profundamente, mas muitos escritores e poetas maranhenses não terão nem mesmo os cinco leitores que o Brás Cubas, pessimista como ele mesmo se intitulava, achava que poderia ter.     

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*Dino Cavalcante é Professor com grande atuação na área de pesquisa e de ensino, Dino Cavalcante lecionou em diversos colégios e universidades, sempre desenvolvendo estudos voltados para o teatro e a prosa do século XIX, centrando seus trabalhos na vida e na obra de Artur Azevedo. Começou sua incursão na literatura com a composição de poemas. Aos poucos, foi se voltando para o a prosa, principalmente para a ensaística.

BIBLIOGRAFIA

Canto Salvagem (Poemas – em parceria com Joema Corrêa)

Os Epigramas de Artur (estudo literário, em parceria com José Neres)

O Discurso e as Ideias (Estudos literários, em parceria com José Neres)

Bar Brasil (narrativas curtas).

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Iolete FeitosaHá 4 anos São Paulo SPA Livraria Cultura fechou duas lojas no Rio e outras em algumas capitais. A poderosa Fnac também. A Saraiva, na mesma situação da Cultura, fechou de uma vez 19 livrarias. Pergunto ao senhor, professor. O que aconteceu com este país???? Eu tinha um emprego estável numa dessas livraias e de repente, meu mundo desabou.
Justiniamo Barbosa Sobrinho (curioso e amante da leitura).Há 4 anos Cidade de Belo Horizonte. Minas Gerais.Senhores, nós não podemos ficar o tempo todo escrevendo páginas esplendorosas sobre assuntos como esse. O que precisamos é uma solução. Que tal formarmos uma corrente para tentar entender e depois inimizar com base nas origens do problema? Assim, esse belo texto deixa de ser uma matéria jornalística para se transformar num clamor daqueles que gostam de ler e se instruir. Vamos tentar? Tentei fazer aqui em BH. Uns 10 aceitaram. Mas em 15 dias, alegando falta de tempo, sumiram.
Heitor Padilha, historiólogoHá 4 anos Brasília Distrito Federal"Em depoimento recente, o professor Darville Lizis, que leciona no Estado do Rio de Janeiro, afirmou: “Pensava eu, pobre de mim, que a escola seria um lugar estratégico de incentivo à leitura. Mais de uma década e um lustro depois de estrear no magistério, percebi que a falta de interesse". De onde se esperava, menos sai. Mas Dr. Dino. O que realmente falta para que a cultura no Brasil expoda de uma vêz? Não ficou claro.
Lianna FrazãoHá 4 anos Teresina PIDino, um detalhe merece ser analisado. O Brasil tem pouco mais de duzentos anos de ensino superior, um tempo bem menor do que nos países desenvolvidos. Daí, concluir-se que muito raramente parte desses "formados" com os tik tokes saem da linha para "perder tempo" lendo livros físico. (Acho o ó do borogodó).
Prof. Carlos Andrade (UNI).Há 4 anos Rio de JAneiroIlustríssimo sr. Dino. Com o que você escreveu e o que li sobre a nossa poesia, é pra chorar. “A poesia nunca foi um produto comercial naquela acepção do ‘quanto mais vender melhor’. Não é algo que se faça pela questão quantitativa, pois seria o caso de procurar outro gênero”, avalia o editor Jorge Viveiros de Castro, da editora carioca 7 Letras". (Uma pena).
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