A Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi) realizou, na manhã desta quarta-feira (31), sessão solene para entrega de títulos de cidadania a Francisco de Oliveira Barros Júnior, Luiza Catanhêde, Junior Marks e Wilson Gomes de Sousa, que têm realizado ações e lutado pelas questões culturais e de apoio ao movimento LGBTQIA+. O deputado Fábio Novo (PT), autor da proposição aprovada por unanimidade pelos parlamentares, acrescentou que o evento na Alepi abre as comemorações da 16ª Semana do Orgulho de Ser.
LUIZA CANTANHEDE
Luiza Cantanhêde é uma poeta maranhense, natural de Santa Inês e radicada em Teresina-PI. Ela chegou em Teresina em 1983, e na cidade se formou em Técnico em Contabilidade, iniciou a carreira Literária e criou a filha que hoje já é formada em arqueologia. A poeta e escritora já é reconhecida nacionalmente, sendo autora dos livros “Palafitas”(Penalux,2016), “Amanhã, serei uma flor insana”(Penalux,2018) e “Pequeno ensaio amoroso”(Penalux,2019). Além disso, participa de várias antologias nacionais e internacionais, entre elas: A Antologia internacional/bilíngue “Encruzilhada de versos” (Avant Garde edições-2014), “A mulher na Literatura Latino-Americana” (Avant Garde edições-2018), “Ero das eras” (Avant Garde edições-2019) e “Literatura de livre expressão” (Avant Garde/matizes-2019). Publicou nas revistas Mallamargens, Quatetê, Ser Mulher arte, Escrita Droide, Literatura & Fechadura, nos blogs “Como eu escrevo” e “O lume das palavras”. Luiza recebeu Menção honrosa no prêmio “Poeta H.Dobal” 2017, pela Academia Piauiense de Letras. Foi premiada no Concurso “Novos poetas Maranhenses” pela Associação maranhense de escritores independentes(AMEI) (2018 e 2019), além dos prêmios “Vicente de Carvalho” (2018) e “Álvares de Azevedo” (2019), pela União Brasileira de escritores-UBE/RJ. A autora é convidada constantemente para participar de feiras literárias, salão de livros e saraus, no Piauí e em outras cidades brasileiras. É vice-presidente da Academia Poética Brasileira, no Estado do Piaui/Brasil. (Texto recuperado do site Geleia Total - https://www.geleiatotal.com.br/)
DA VOZ
Tão rústica é a minha palavra
Não tem a fineza daqueles que
Passeiam pela boca da erudição
A minha palavra é a da roça
Da enxada circundando a
Poeira ao pé das cinzas
Meu vocábulo de pedra
Dizendo “desvão”
LUIZA, SEMPRE
MARIA ANTÔNIA. Mãe/ É a tua asa calada/ Que me orienta/ O voo. (LC).
Filha de pai e mãe lavradores (já falecidos), Luiza Cantanhêde os descreve como sendo o seu farol na vida. E foi justamente os seus pais que ensinaram a ela o amor pela terra de “chão batido” e pelo correr das águas dos rios e dos igarapés, um legado que marca até a sua escrita. “De família humilde, não tínhamos muita condição financeira para a compra de livros e isso também contribuía para um certo afastamento dos nichos culturais, mas a poesia escolhe a gente, não sei bem o porquê; na nossa casa não havia livros, artistas, mas havia muita oralidade, muitas histórias contadas pelo meu pai e pela minha mãe de quem eu era devota e nas andanças com eles aprendi primeiro a arte da humanidade, da resiliência, da resistência e da dignidade em vencer as dificuldades de cabeça erguida. O correr das águas dos igarapés onde minha mãe lavava roupas e os babaçuais por onde ela quebrava côco pra nos sustentar e as roças que meu pai plantava foi o que primeiro encharcou minhas retinas de poesia”, rememora. A escritora conta que, embora seus pais fossem analfabetos, eles sempre deram valor ao conhecimento e não mediram esforços para educar os filhos. Por isso, ela aprendeu desde cedo a dar valor aos livros. Além disso, Luiza frisa que ainda muito cedo se tornou uma leitora contumaz, pegava emprestado de um amigo gibis para ler e na escola aproveitou a biblioteca para ler clássicos da Literatura como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Gabriel Garcia Márquez, Vladimir Nabokov, Aldous Huxley e tantos outros.
O DISCURSO DE AGRADECIMENTO DE LUIZA CANTANHEDE, NA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO PIAUI
Bom dia,Excelentíssimo Senhor Presidente da Assembleia Legislativa do Piauí, Deputados, Senhores, Senhoras.
Professor Francisco Júnior, Júnior Marks, Wilson Gomes, grandes atores, é uma honra participar ao lado de vocês desta solenidade de entrega do título de cidadã piauiense.
Deputado Fabio Novo, fico comovida pelo alto reconhecimento. Você tem olhado com muito respeito para a alma pulsante do nosso estado, incluindo a cultura, este segmento tão importante para a ampliação da nossa humanidade.
Obrigado pela indicação.
Marinalva Santana você tem meu mais profundo respeito pela atividade humanística que desenvolve entre nós, sem esquecer de olhar para os injustiçados, na tentativa de transformar a realidade, através do Grupo Matizes, dando voz e lutando pela defesa dos direitos LGBTQI+.
Não posso deixar de reconhecer “a priori” que a Assembleia Legislativa do Piauí presta um serviço extremamente necessário, na tentativa de incluir os mais pobres, nas políticas públicas capazes de alterar a sociabilidade da escassez.
Lembro de minha mãe através de um poema que consta no meu livro Pequeno Ensaio Amoroso:
MARIA ANTÔNIA
Mãe
É a tua asa calada
Que me orienta
O voo.
Minha mãe que não teve a chance de estudar nas escolas formais, deu-me as mais profundas lições de humanidade. Certamente segura em meu ombro para orientar essa chuva de sentimentos que me tomam agora, neste momento eu sinto as cicatrizes e os arrepios da minha árvore genealógica. A poesia tem me levado para lugares impensados, mas em todos eu seguro nas mãos dos meus ancestrais que sofreram o pelourinho de um país escravocrata, desigual, que mais parece uma máquina de moer vidas.
O Chico César diz na letra Pedrada: “nós somos só carne humana para moer e o amor nem é para nós”. A letra da Lei não garante a paz social. A poesia não altera a exploração. A criatividade estética não cria uma nova flora, eu sei.
Por isso, reproduzo Drummond na sua fase mais coletiva: “ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear e adiar para o outro século a felicidade coletiva, porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan”. E não podemos mesmo. E não podemos ainda.
No entanto, quero dizer a vós todos que a minha poética está ligada à resistência, ao peixe lutando contra o anzol, na lama. Não aprendi versar para a realeza. Estou do lado dos despetalados, das mãos nubladas, do que não tem mais seiva, porém carregam a floresta humana nos olhos.
O estado do Piauí, mais específicamente, Teresina nos acolhe desde 1984, quando saímos do nosso Maranhão em busca de novos horizontes.
Meu pai, já falecido, piauiense, natural de Fronteiras, certamente ficaria feliz e orgulhoso em vê sua filha receber tão importante honraria.
Aqui estudei, aqui me formei, aqui nasceu minha filha Gilmara Cantanhêde e que tempos depois fez vestibular e foi aprovada para a primeira turma de Arqueologia na UFPI e hoje é Mestra em Antropologia.
Aqui iniciei minha carreira literária.
Dia 05 de Junho do corrente ano, fui eleita Presidenta da Academia Piauiense de poesia, o que nos dá uma sensação maior de pertencimento.
Encerro com um outro poema de minha lavra cujo título é:
PLANTAÇÃO DE HORIZONTES
Tire essa faca cega
Dos meus olhos
Preciso olhar minha
Plantação de horizontes.
Se a minha produção literária amplia a cidadania da mulher do nosso estado, com um orgulho extremo, eu me declaro cidadã piauiense.
Agradecendo a todes que me possibilitaram viver este relevante momento!
-------------------------
Nota do Editor: "Nosso pertencimento fluiu desde às primeiras horas em que conversamos e a executiva da Academia Poética Brasileira convidou-a para pertencer a esse resumido quadro de sonhadores, naquela época. Hoje ainda somos sonhadores, mas com lastro inequívoco de que esses sonhos já estão cimentados formando a estrutura de uma realidade: a de levar mais longe a qualidade insofismável de pessoas como você, cara confreira, e, consequentemente, engrandecendo o talento da Mulher, em seu todo linguístico e humano. ( Diz, você em um de seus versos: "Sou esse deserto de poeiras/ longínquas/ Sou água na cabaça, o arame/ Farpado, cercando o latifúndio/ De sol e estrada"). Parabéns, pois, Maria Luiza Cantanhede Gomes, por mais essa etapa e esse reconhecimento mais que justo. Nós, que fazemos a APB nos sentimos orgulhosos de tê-la em nosso meio. Finalizo com Clarice Lispecto. (Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa (...)". E com Paulo Rodrigues: "Não somos Anjos, nem Denônios. Somos Humanos". Sempre #juntos, Luiza. (Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira).
CORDEL BRASILEIRO ACLC celebra cinco anos de existência cultural e escreve página histórica
JOEMA CARVALHO Joema: Que seja 'húmus', enquanto durar. E 'manejos de poda', enquanto houver luta!
Auxilium duplex Há um grande movimento contra alimentar a biografia de Carolina Maria de Jesus com a 'romantização da miséria humana'.
NERUDA Pablo Neruda e a criança que sobrevive no adulto: brincar também é uma forma de permanecer humano
EDITORIAL DE HOJE Cada livro, é um pedaço da alma de Maria José Lima: lamentos, silêncios e simbioses
Há 1 ANO-TBT A força da música do Maranhão ouvida na região sul do país Mín. 10° Máx. 23°
Mín. 14° Máx. 24°
Chuvas esparsasMín. 10° Máx. 14°
Chuva
Esmeralda Costa ACLC celebra cinco anos de existência cultural e escreve página histórica
Marco Neves De Homero ao autoclismo português: 3000 anos de grego
Coronel Carlos Furtado FALMA: unidos, conquistamos espaço para a literatura maranhense
José Neres “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.