
Eloy Melonio é membro da Academia Poética Brasileira.
Usados em quase todas as línguas, os sinais de pontuação facilitam a vida dos profissionais da escrita e de todo aquele que precisa escrever textos. Até nossos amigos das redes sociais entram nesse grupo. Parece algo sem importância, mas, malcolocados, causam sérios problemas à comunicação.
E não se pode deixar de comparar o leitor a um motorista numa rua movimentada. Sem sinalização, ambos pode se distrair e se perder.
Entre eles, a “vírgula” é o mais violado. Usá-la ou não é um dilema que, em geral, deixa atônitos os produtores de textos. O manual de redação de um grande jornal lembrava: “Quando bem-empregadas, contribuem para dar clareza, precisão e elegância às suas frases. Em excesso, provocam confusão e cansaço”. Em outro, um recado precioso: “Frase cheia de vírgulas está pedindo um ponto”.
Nunca me esqueci de um livro de bolso que ganhei de um amigo, intitulado COMMAS ARE OUR BEST FRIENDS (As vírgulas são nossas melhores amigas). Foi esse livrinho que me fez abrir os olhos e me apaixonar por essa coisinha tão simpática.
Sem dúvida, a vírgula é o sinal gráfico mais presente em nossos textos. Não se escreve bem sem se recorrer aos seus préstimos. Mas como é aviltada! Como sofre nas mãos dos que não sabem fazer uso de suas propriedades! Imagine alguém lhe pedindo para fazer algo que não é do seu ofício?! Pois é o que acontece com a pobrezinha. Usam e abusam de sua disponibilidade, é jogada de uma linha para outra sem o menor critério.
No fundo, a vírgula reclama de duas coisas: abuso e descaso. Exatamente a situação que sempre me incomodou. E aí, depois de refletir sobre o problema, decidi sair em sua defesa. Porque — verdade seja dita — ela é generosa e confiável, disponível para o que der e vier.
Sua suposta insignificância chega ao cúmulo da insensatez gramatical quando alguém tira sarro com a sua cara. Já ouvi uma personagem de telenovela esbravejar: “E fique sabendo que eu não tiro uma vírgula do que disse”.
Tanta celeuma envolvendo essa criatura inofensiva seria uma maldição ou o calcanhar-de-aquiles de muitos escritores? Para escrever esta crônica, precisei fazer consultas e revisões. Principalmente — perdoem-me a sinceridade! —, por causa dessa “danada”.
Uma coisa é certa: não dá para viver sem a vírgula. Abro o jornal, lá está a coitadinha metida com política e economia. Vou para os livros e vejo-a geralmente bem-comportada. Nas redes sociais, em precário estado de lucidez. No guia do estudante da minha faculdade, fizeram-na passar vexame, sujando a beleza gráfica do livrete. Até figuras notáveis das nossas Letras escorregam feio na casca da vírgula.
E se um dia ela deixar de comparecer aos nossos textos? Que seria dos aficionados pela arte de escrever? Suas frases e versos teriam o mesmo sentido? Os leitores poderiam ler como se ouvissem a voz do escritor? Infelizmente, em nome de uma poesia “contemporânea”, alguns dispensam o uso daquela que nos ajuda a “respirar” o ritmo do poema e “cantar” no tom afinado do poeta.
Sem ela, nossos textos não teriam o mesmo sentido, a mesma poesia. Por isso, é de bom alvitre que o escritor valorize “a vírgula nossa de cada dia”. Preciso tanto dela que, antes de começar a escrever, sempre tenho à mão as regras para o seu uso. Mesmo assim, aqui e ali, vejo-me derrapando em vaciladas.
Enfim, “abatida” e “desencantada” das Letras, a pobre vírgula, espera ser mais respeitada.
“Peraí!”, minha vírgula-da-guarda me cutuca, mostrando que acabei de cometer uma leviandade contra sua regrinha mais elementar. Cometi o tal “erro crasso”, um gravíssimo delito gramatical. Usei-a para “separar o sujeito do predicado”, exatamente a infração que vejo direto por aí e a que mais me incomoda.
“Tá bom, vou consertar”, prometo. “Não”, replica a angelical entidade gráfica. “Deixe-me aí, para alertar os desatentos e despreparados”.
Ainda bem que a vírgula é “gente fina” e aguenta bem essas transgressões. Já pensou se ela resolve reagir tal qual o “eu-lírico” da canção “Sufoco”, interpretada por Alcione: “Não sei se vou aturar esses seus abusos/ Não sei se vou suportar esses seus absurdos”.
Felizmente, a vírgula já provou ser paciente e compreensiva. Os gramáticos, por enquanto, nem tanto.
Sacadas inspiradas iluminam seu semblante. Nenhuma, no entanto, compara-se à irreverente citação de Tenório Cavalcanti (1906-1987), advogado e político carioca: Não, estou bem. Mas, se tirar a vírgula, eu fico mal.
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Eloy Melonio é professor, escritor, letrista e poeta.
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