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Cultura Textos da APB

ENVELHECER PRA QUÊ? Texto de Linda Barros, atriz, cronista, escritora e poeta

Secretária Nacional da Academia POética Brasileira

01/10/2022 13h30 Atualizada há 4 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Linda Barros
Linda Barros
Linda Barros

 

Linda Barros, atriz e escritora. Membro da APB e ACILBRAS

Na ampulheta, cada grão de areia derramado, é um segundo perdido ou deixado para trás, e, na inquietude da existência, nos sentimos impotentes para parar o Tempo e deter os desarranjos da anatomia humana, pois o entardecer chega para todos, ainda que queiramos desvencilhar-nos das curvas da vida, cada pôr do sol é um dia menos. Como disse Dagmar Desterro em “Corrida”, texto que pode ser encontrado na obra Pedra-viva, de 1979:

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O avanço do tempo corre a vida,

mas nesse tempo há pedras espalhadas,

pedras agudas, carnes esfarrapadas,

sangue jorrando de cada ferida.

 

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o tempo açoita a vida noite e dia

e ele chora, tropeça, levanta e continua.

Só a esperança anima a travessia;

e a alma corre, descabelada e nua.

 

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E a vida não tem tempo, ao tempo, em meio,

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de ver o belo existente no caminho;

não perder na corrida é o seu anseio;

sua atenção conserva em desalinho.

 

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No embrião da vida, no tempo, avanço.

Subidas e descidas - tantas conheço:

e na vertigem do correr me canso.

Procuro, em vão, meu horizonte do começo.

 

E nesse percurso do tempo, mesmo sabendo que é um caminho sem volta, teimamos em não aceitar esse desalinho da natureza. E sobre essa assertiva, alguns poetas mostram seus dissabores contrariando a lógica da vida, colocando em seus textos que tudo o que mais querem é esquecer as marcas do tempo, como podemos ver nesse poema de Mhario Lincoln, onde ele encara a vida com sabedoria, mas tenta dar um freio na cronologia temporal,

 

Quando não Deixo o Velho entrar

Às vezes, não deixo

O velho entrar.

Minhas saudades,

Meus cupidos,

Amores e esperanças

Continuam inteiramente

Juvenis de antanhas idades.



Assim nascem

minhas poesias.

Renascem minha vida

Revivem minha alma.



E meus amores

São os mesmos.

Não entristecem

Nunca envelhecem.



E no vazio que cerca a humanidade, o envelhecimento é ainda mais um estreitamento da vida que se prolonga em um mundo cada vez mais reduzido e caótico diante da infinidade do ser. Para muitos, envelhecer é já ter cumprido seu compromisso no mundo terreno, ou ter cumprido uma etapa primordial na vida, o que às vezes soa como uma espécie de conformismo, já que devemos estar contentes com esse passo, ou seja, significa que todos estamos fadados a estar inseridos nessa lógica, que é o ciclo da vida.

“El tiempo pasa, el tempo vuela...”, essa foi uma famosa frase usada em um comercial de uma importante instituição bancária alguns anos atrás, quando talvez, nem todos tenham percebido a real mensagem deixada por ela (a frase), no entanto, bem lá nas entrelinhas, a significação carregada de pontos obscuros, que nem sempre queremos enxergar a olho nu, pois, as marcas visíveis ou invisíveis que o tempo trazem consigo só servem para nos confrontar com o espelho e ver que realmente nada podemos fazer.

Mãe (Linda) e filha (Laura).

A parte mais complicada do envelhecer (e vale lembrar que o envelhecimento é para qualquer idade), está nas consequências que isso traz para todos nós. Em uma recente reportagem do Jornal Extra, com a atriz Cristiana Oliveira (a intérprete de Juma na primeira versão da novela Pantanal) sobre envelhecimento, ela disparou: “é como se meu envelhecimento causasse repulsa”, ou seja, em outras palavras, a pessoa mais velha está completamente descartada de todas as funções, é como se uma pessoa mais velha não servisse para mais nada (e de fato é), pois a idade em todas suas fases, tem seus encantos e desencantos, pois no frigir dos ovos, na vida, há idade para tudo.

A Psicóloga Laura Neres, comenta que “quando nos referimos à velhice, surgem questionamentos básicos que dão início às discussões e se estendem a diversas opiniões diferentes de acordo com a faixa etária dos ouvintes. Então “como podemos classificar a velhice?”, “o que é ser velho?”, “quando me torno um velho?”, são questionamentos como esses, que surgem com o objetivo de entender o envelhecimento. Para muitas pessoas é estarrecedor falar em velhice, a aceitação é o maior dos problemas, exatamente pelas mudanças pelas quais o corpo passa quando chega à velhice.

De José Neres, da Academia Maranhense de Letras.

 

Em contrapartida, há a forma inversa, quem nunca ouviu “você não tem mais idade para isso” ou ainda, “você é muito nova, ainda não está na idade”. Que idade? Idade para quê? Nas artes (cinema, teatro e televisão), se vê muitos personagens interpretados por atores e atrizes bem mais velhos, mas que aparentam bem menos, ou vice-versa. No entanto, o tempo não perdoa. Às vezes (ou quase sempre), a idade afeta a vida social. A profissional Laura Neres complementa ainda que “nossa sociedade é ‘gerontofóbica’, síndrome definida como o medo patológico de envelhecer. Os velhos que, antigamente, eram valorizados pela sua experiência de vida, hoje são marginalizados e destituídos de seu papel social”.

Há um vídeo circulando nas redes sociais em que a atriz Andrea Beltrão é confrontada por causa de sua real idade. No vídeo a artista comenta que muitas pessoas comentam: “Você tem 58 anos? Mas você está ótima”, esse “mas” é categórico. Ela observa que essa conjunção adversativa “mas” tem uma relação cultural, e é utilizada como se uma pessoa, principalmente as mulheres, ao chegarem a uma determinada idade têm que parecer velhas. Sabemos que tudo hoje em dia é muito diferente de 40, 50 anos atrás.

E neste Dia Internacional do Idoso, dizer aqui de uma forma bem realista, que envelhecer é melancólico e saudosista pois, na grande maioria das vezes, nossos pensamentos dilaceram nossa alma, cada vez que pensamos que o tempo está passando velozmente e deixando para trás um mundo e um passado sem volta. E como disse o poeta Mário Quintana em seu poema “O Tempo“.

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando de vê, já é sexta-feira!

Quando se vê, já é natal…

Quando se vê, já terminou o ano…

Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê passaram 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

 

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Rilnete Melo Há 4 anos atrásPindaré-mirim-MaQue belo texto Linda!Parabéns pela relevante reflexão. Envelhecer para mim não é tempo perdido, é só uma etapa de forças, envelhecemos quando abandonamos nossos sonhos...
Linda BarrosHá 4 anos atrásSão Luís -MaranhãoQuerida Laércia, agradeço seu olhar clínico, eu sou assim mesmo, não me preocupo muito com o dito "normal" rsrs se quiser acompanhar um pouco mais sobre mim é seguir no insta @lindabarros_
Linda BarrosHá 4 anos atrásSão Luís -MaranhãoEstimado Prof Solon, esse texto é tão somente uma reflexão despretensiosa sobre o Tempo,a Vida, o Envelhecer e as angústias que tudo isso nos trazem, agradeço a sugestão e obrigada pela leitura. Grata!
JuniorHá 4 anos atrásCaxias Neres. Que lindo. Amo teus versos. Estava triste até ler teus versos. Lindo. Lindo...
Hilton bastosHá 4 anos atrásSão Luís Como esse portal valoriza seus colaboradores. Até onde leio, é o único. Parabéns
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