UMA DUPLA PERFEITA
*Eloy Melonio
Uma tarefa supostamente fácil é uma pessoa falar de si mesma. Por exemplo: eu falando de mim.
Num palco fictício, imagino um Eu-protagonista e um Mim-coadjuvante em cena. De minha privilegiada poltrona, aprovo e aplaudo seus talentos. Mas, precisando falar dos dois, não sei por onde começar: pelo principal ou pelo secundário? Pela trama ou pelo contexto?
Se Eu e Mim são parceiros afins, acho melhor deixá-los assim: cada um no seu quadrado. Também não sei se isso vai dar certo. Mas, se eu não tentar, nunca vou saber, não é mesmo?
Pra começo de conversa, vou partir de suas origens. Nos círculos linguísticos, acredita-se que “Eu” vem do grego “ego” ― deus da elocução, da ação. Quanto a “Mim”, não se sabe direito. Talvez um indiozinho nascido numa reserva Ianomâmi. Ou um filho de Ego, nascido de sua sombra, que ― por isso mesmo ― vive seguindo seus passos, imitando suas ações, refletindo suas opiniões.
Sabe-se também que, ao nascer, Mim não disse nada. Não olhou de cara feia para a parteira nem sorriu para a mãe. Queria apenas ficar ali e dormir. Mais tarde, pensativo, indagava-se sobre a sua condição existencial. Hoje, adaptado à sua função subordinada, só não é menos expressivo por causa de seu imenso senso de cooperação.
Há quem diga que Eu é comunicativo, racional, social. E que Mim é caladão, dependente, subserviente. Mas este ― inconsequentemente ― às vezes tenta sobrepor-se ao seu superior, chegando a dizer: "Entre ser e não ser, prefiro apenas existir, pra mim não ter de me reinventar".
Falando sério, Eu e Mim se dão muito bem, mesmo apresentando personalidades diversas. Eu é forte: declara, explica, revela. Mim ― coitado! ― não tem opinião e nunca cabe a ele dizer coisa alguma. Enquanto Eu impõe ou sugere, faz ou não faz, Mim apenas reflete ou repete. Em suma, Eu é chefe, Mim, um pau-mandado. Eu ordena, Mim obedece. De mãos dadas ou não, seguem uma rotina traduzida na sabedoria popular: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
Apesar dos contrastes, os dois se alinham direitinho. Formam uma admirável "dupla" pronominal, em que Eu é a primeira voz, e Mim, “backing vocal”. E, nessa vibe musical, se Mim vai a um show ou a uma festa, tem de, inevitavelmente, convidar Eu.
Acho que Eu poderia bater no peito e recitar o dito popular: “Eu sou eu". Mim já não é tão confiante assim. Eu pode facilmente se ocultar. Difícil é achar seu “amigo” escondido em algum lugar. Porque este nunca está sozinho. Tem sempre uma mãozinha para integrá-lo ao texto e ao contexto.
Já ouvi alguém dizendo que os solitários têm inveja de Mim. Até Zezé de Camargo e Luciano ― vozes de sucesso do sertanejo ― pedem para não se deixar de pensar em Mim. Caetano Veloso também dá sua contribuição: "Não se esqueça de mim, não desapareça/(...)/ Eu acabo de perder a cabeça". Mesmo assim, a sorte nem sempre sorri para essa dedicada entidade assistencial.
Em alguns momentos, são gênios compatíveis. Se Eu mente, Mim não desmente. Se Eu inventa, Mim aprova e consente. Se Eu se oculta, Mim se apresenta e não deixa a peteca cair. E, submisso, pensa consigo: “Se Eu precisa de mim, então o jeito é eu ficar aqui”.
Acho que você já percebeu que esses dois são realmente íntimos, quase almas gêmeas. Por isso, em algumas situações, Eu sem Mim parece incompleto. Enquanto Mim sem Eu, apenas um vulto na multidão.
Num olhar subjetivamente reto, Eu é um cara confiável até o ponto final. Em atitude oblíqua, Mim às vezes se esconde sob a sombra de “Me”, seu substituto de peso. Sob a óptica da dependência, Eu pode facilmente viver sem Mim, enquanto este ― direta ou indiretamente ― talvez sobreviva na bruma leve da coerência oracional.
Mim é o alter ego de Eu. Ou é o contrário? Sei lá! Indiferente, Mim não conta nada pra ninguém, mas Eu ― expedito e loquaz ― sabe de tudo, fala com todo mundo. Quando se olham no espelho, Eu vê Mim, mas este não o vê. Se Eu piscar, Mim pisca. Se sorrir, Mim sorri também. O certo é que ― pelo menos no contexto gramatical ― Eu confia em Mim como se ele fosse o leme de seu barco.
É, meus amigos, vida de dupla não é essa afinação toda que se prega por aí. Num devaneio poético-musical, Eu é lírico, inspirado: a voz que fala no poema. Mim é sombra, figuração, alegoria que o deixa de língua fria.
Em tais circunstâncias, eu jamais poderia incorrer numa dívida que me dividisse ao meio. E, assim, decidi homenagear essas "personas", intitulando-as protagonistas de uma peça chamada “Ser ou não Ser”, estrelada por Matheus Natchergaele e Selton Melo.
E, por fim, um recado inadiável: quem quiser gostar de Eu, tem de gostar de Mim.
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Eloy Melonio é contista, cronista, letrista e poeta.
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