
Além do Homem-Aranha dos Quadrinhos
*Mhario Lincoln
Levado pelos meus netos, conheci a pizzaria temática “Liga dos Heróis”, com supersabores e super-heróis, aqui em Curitiba(PR). Um atendimento diferenciado, com características muito especiais. Claro que entre tantos personagens, o Homem-Aranha não poderia faltar. Confesso que fiquei empolgado. Não só com o personagem, como também pela performance dos atores-garçons, que vestiam as fantasias do Homem de Ferro, Mulher-Gato, Mulher-Maravilha, Hulk, Pantera-Negra, Batman, Capitão-América, Thor, Doutor Estranho, esses, que estiveram ao redor da mesa em que estávamos.
Isso me trouxe muitas recordações, pois desde cedo, tenho um apreço incomensurável pelo Spider-Man, essa figura pragmática, porque ultrapassa quaisquer visões da semântica ou da sintaxe, na hermenêutica dos heróis da Marvel.
Bom relembrar que lá na origem, quando Stan Lee - seu criador - propôs uma história em quadrinhos de um homem com superpoderes adquiridos após ser picado por uma aranha radioativa, o editor da Marvel disse que esse roteiro não cairia no gosto popular, porque o mundo estava com os nervos à flor da pele, em função do medo de uma possível Guerra Nuclear.
Todavia, Lee insistiu na ideia até encontrar uma dolorosa brecha de oportunidade: a revista Amazing Fantasy, onde trabalhava, entrou em decadência. Então, o editor, sem nenhuma esperança, autorizou a publicação da história sobre a origem do herói aracnídeo e... foi um sucesso. Resgatou a revista e a credibilidade dos executivos dela.
Começava ali, a saga de um super-herói “gente como a gente”, como disse seu criador em uma entrevista nos anos 80. E mesmo com poderes, Peter Parker, o homem atrás do collant vermelho e azul, tinha os pés no chão. Sofria com a indiferença da jovem que amava, tinha amigos normais, estudava como qualquer adolescente, sofria bullying.
Por isso, foi obrigado a aprender com os próprios erros, a partir do assassinato do seu tio Ben, pai de criação junto com a tia May, que assumiram Parker, após os pais morrerem em um ‘discutido’ acidente de avião. Ao descobrir seus poderes, Parker ainda pensou em usar os poderes para conquistar tudo, todos e fazer fortuna.
Infelizmente, o que veio depois foi uma grande lição de vida, onde seu “sentido de aranha”, na verdade, o fez enxergar que ‘nem tudo que reluz é ouro’. Aliás, muita gente poderia ter esse “sentido de aranha” entendendo assim, sempre haver alguém – bem do nosso lado - muito melhor do que nós mesmos, tornando sofrida a pretensão de ser o melhor, sempre. Fatídica ilusão!
Voltando ao sucesso real do Spider-Man: o gibi deu a milhões de leitores adolescentes um herói com quem podiam se identificar, especialmente aqueles alunos calados, introvertidos, sofredores de bullying, os excluídos pelas patricinhas e pelos times de atletas superiores da escola, como escrevi em parágrafo anterior. Tudo isso, mesmo que fossem alunos brilhantes.
Então, o Homem-Aranha é um herói baseado na realidade nua e crua porque nem todas as histórias de super-heróis e vilões são tão inocentes como parecem. Há que se entender de uma forma mais real. No fundo, há uma outra conotação, pois abordam questões muito mais sérias. Quer um exemplo?
Vou chamar para a conversa quem bem entende disso: o professor Gelson Weschenfelder, o filósofo dos quadrinhos. Ele ensina que há embutido nas HQ’s, muitas referências "(...) à ética, à responsabilidade pessoal e social, à justiça, ao crime e ao castigo, à mente e às emoções humanas, à identidade pessoal, à alma, à noção de destino, ao sentido de nossa vida, ao que pensamos da ciência e da natureza, ao papel da fé na aspereza deste mundo, à importância da amizade, ao significado do amor, à natureza de uma família, às virtudes clássicas como coragem e muitos outros temas (...)".
Tal abordagem, por demais interessante, me fascinou quando li e aprendi que foram os gregos, os primeiros a experimentaram a força viciante das tramas fortes nas produções de entretenimento, fazendo o leitor/espectador/ouvinte passarem a refletir sobre as condições humanas. E quem descobriu isso de forma mais real foi Aristóteles, ao retratar a natureza dos conflitos entre a compaixão e a justiça.
Pois bem! E se entendêssemos os quadrinhos de super-heróis com uma pitada filosófica? Vamos nos reportar diretamente ao caso do Homem-Aranha.
Comecemos com a seguinte frase: “com grande poder, vem grandes responsabilidades”, ouvida por Peter Parker, após a morte de seu tio Ben. É esse parâmetro que diagnostica as atitudes do Spider-Man, quando veste o manto de super-herói. O mestre Gelson Weschenfelder, a quem me referi antes, também ensina:
"(...) Isso é o que os filósofos Benthan (1748-1832) e Stuart Mill (1806-1873), chamam de utilitarismo, onde somos obrigados a executar a ação que produz maior bem geral. Isso faz O Homem–Aranha se tornar um herói, salvando vidas, e não usando seus poderes para benefícios próprios. Isso nos mostra que Peter Parker deverá estar preparado a fazer sacrifícios para cumprir seus deveres morais (...)".
Até mesmo nos quadrinhos se aprende a ter ética e a encontrar o lado bom da vida humana. Spider-Man nos faz encontrar bem dentro de nós algo muito mais intenso e superior do que simples acrobacias circenses, pulando de um prédio ao outro, para mostrar-se hábil diante das câmeras e flashes dos incautos apoiadores de plantão.
Curitiba, 12.10.2022
Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira
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