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"AS CORES DO SWING", Livro de Augusto Pellegrini

Capítulo 14 – Parte 2 - A música chinesa

02/11/2022 às 12h14 Atualizada em 02/11/2022 às 12h29
Por: Mhario Lincoln Fonte: AUGUSTO PELLEGRINI
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Mont. com Cab Calloway e Pellegrini
Mont. com Cab Calloway e Pellegrini

Capítulo 14 – Parte 2 - A música chinesa 

Cab Calloway estava estudando um novo tipo de dança que pretendia incluir no seu vasto repertório ainda naquela semana durante um show no Athens Club.

O local do ensaio era o palco do Cotton Club, prestigiado salão onde ele se iniciara com a sua orquestra cerca de oito anos atrás e que na temporada atual era ocupado por Louis Armstrong e seus músicos. Além de Cab e de dois ou três assistentes que eram pau para toda obra, estavam presentes apenas o baterista Leroy Maxey, que fazia a marcação com as mãos, o pianista Benny Payne, que ajudava na harmonia e o trombonista Tyree Green, que apenas observava.

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Alguns empregados da casa estavam ocupados na limpeza do salão e no empilhamento de cadeiras, enquanto outros distribuíam taças e copos sobre o balcão e arrumavam as garrafas nas prateleiras.

Calloway era um especialista naquele tipo de dança que ele próprio havia batizado de jitterbug – que nada mais era do que uma versão mais comportada do lindy hop, posto que ele jamais se plantava de pernas para o ar, mas deslizava graciosamente na sola dos pés, antecipando aquilo que vinte anos mais tarde seria apresentado por James Brown e outros vinte anos além pelo pirotécnico Michael “Moon Walk” Jackson.

Um dos empregados do Cotton Club se aproximou de um dos assistentes e falou alguma coisa no seu ouvido. O assistente, com pouco tempo de casa, olhou para o patrão que continuava a exercitar os seus passos e não tentou interromper, buscando apoio no assistente-sênior:

“Hey, Jack! Tem um cara lá fora querendo falar com o patrão. Diz que é músico”.

No que Jack, diligentemente, chamou o empregado do clube e deu algumas instruções. Um minuto depois, o rapaz voltou e disse que o intruso se chamava “não-sei-o-quê Gillespie” e que queria falar com Mr. Calloway.

Maxey interrompeu a batida de mão e Cab interrompeu a dança numa posição que seria cômica, não fosse a sua expressão de aborrecimento. Alguns acordes do piano permaneceram no ar.

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De uma maneira geral Cab Calloway era uma pessoa afável e cordata, mas naquele dia ele estava particularmente irritado por causa da falta de comprometimento de alguns dos seus músicos, em especial um trompetista chamado Jerry Schwenck, que havia começado há menos de um mês e já faltara a três ensaios e a uma apresentação.

Quebrado o encanto da dança, Calloway fez um gesto para deixar o rapaz entrar.

“Gillespie...”, pensou ele.

Ele já ouvira falar num tal de Gillespie que havia participado da orquestra de Teddy Hill. Tinha boa referência dele como músico, mas havia saído da banda de Hill debaixo de comentários de que não era muito certo da cabeça.

Calloway parecia não ser muito certo da cabeça também, mas sua maluquice era puro jogo de cena. Não é com a cabeça nas nuvens que uma pessoa consegue comandar uma orquestra com tamanha perfeição, principalmente não sendo músico de ofício. Mas ele provinha de uma boa cepa, tivera uma educação esmerada e amadurecera o seu talento natural em escolas de renome, conseguindo perfeitamente gerenciar as atividades dos músicos, pois possuía um grande senso de liderança e um ouvido musical dos mais apurados.

Seu cabelo cuidadosamente desalinhado e fixado com brilhantina e suas roupas extravagantes eram apenas um pretexto para fazer o público ficar ligado na sua performance, que misturava dança, sapateado e um canto alegre e cheio de maneirismos.

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Ele agora tinha diante de si um rapaz na casa dos vinte anos (vinte e dois, como seria mostrado mais tarde) que falava com muita desenvoltura.

Seu nome era John Birks Gillespie, mas era conhecido como Dizzy, e tinha realmente substituído o famoso Roy Eldridge na orquestra de Teddy Hill. Na entrevista com Cab, ele falou com empolgação sobre a sua primeira gravação com Hill – “King Porter Stomp”, de Jelly Roll Morton – que estava brilhando nas paradas (na verdade, não estava).

Ele sabia ler partituras e viajara para a Europa com Teddy Hill. Fez questão de mencionar “um pequeno trabalho” que fizera com os All Stars de Lionel Hampton, mas deixou em branco o motivo da sua saída tanto de uma como da outra orquestra.

Calloway ouviu tudo sem prestar muita atenção e fez poucas perguntas. Ele estava com o pensamento em outro lugar.

Parecia que a Providência estava lhe mandando um recado.

Contratar Dizzy Gillespie significava ter no seu grupo um trompetista com relativa experiência e a oportunidade de se livrar de Schwenck. Além disso, poderia finalmente alinhar o seu naipe de trompetes com Lammar Wright, Mario Bauzá, Doc Cheatham e Shad Collins com alguém que tinha facilidade para ler partituras.

Marcaram um teste para dali a dois dias, depois que Cab conversasse com Cheatham. Aí, Gillespie seria confrontado com o resto da orquestra e mostraria seus dotes de trompetista.

Por enquanto era só. Gillespie foi despachado cheio de esperanças e Calloway retomou o seu ensaio, com um punhado de dúvidas na cabeça.

Ele, que sempre fora um músico tão equilibrado embora aparentasse o contrário, gostaria muito de saber a origem do apelido “Dizzy” (“Pirado”, em português), nome pelo qual seu provável futuro trompetista atendia.

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