
PÁGINA POÉTICA
Convidados:
Promessa da volta
Ana Néres Pessoa
Rasga o ar presságio
Uivo nas passagens do tempo
Terremoto no chão da vida
Desmoronando encostas
Atiçando Palmeiras
Revoltando o rio
No rastro da Andorinha
Na terra do Carcará
De voo seguro e
Coração pulsante de Ave
Que nunca conheceu gaiola
Agora presa em fios e veias
Reclamam seu canto
Bocas, mãos e olhos
De um sem fim de fiéis
Que não suportam a ideia
De um céu sem sua presença
Que sua promessa de amor
Batizada no berço do Rio
Traga de volta pra gente
Esse pássaro amado
Dessa ausência fora do combinado!
(Uma homenagem a Samuel Barreto)
======================================
Kalil GUIMARÃES
POETA CANTOR
Tua hora foi antecipada
o relógio quebrou
não continuou o giro
vou sentir saudade
é a lei da amizade
com tua partida a lembrança
-por momentos-
sufocará o dia a dia
terá gosto de tristeza
porque não nos despedimos
a vida nos despediu
foste
mas deixaste
teus poemas
tuas músicas
teu sorriso
tua alegria
tua voz não se calou
perdi um amigo
foi para o céu levar
seu canto
sua poesia
te desculpo por teres
ido embora tão cedo
foi um privilégio ter-te como amigo
a despedida gera saudade
que faz chorar o coração
meu afeto por ti não morrerá
a lembrança permanecerá
para perpetuar-te
quando nos despedimos de um amigo
o coração sofre
mas nosso adeus não é definitivo
Samuel nos encontraremos na eternidade.
Kalil Guimarães
Em 14.07.2920
Róseos lábios (Dione M. S. Rosa)
(Inspirado no poema “Vinho do Assassino”
de Charles Baudelaire)
Perfume suave nos lábios de sangue
Dão sabor ao amor ainda amargo,
Ansiando pelo ardor dum beijo exangue
(Longa noite de Inverno e temor largo).
Albor da aurora brilha sobre as folhas,
Raios da lua espalham-se no mar
No silêncio de amores. As escolhas
São feitas pela oculta face a amar...
O homem de róseos lábios vem inspirar
Profundos desejos num coração
Esquecido, sem luz para brilhar.
A jovem cede aos encantos e beijos
Corados pela loucura de então,
Numa taça de lírios e festejos.
===================================
VIDA
(Noilves Araldi)
Fagulha que se acende
E que ascendeu ao se ver vida,
E do alto reverenciou
Tantas e tantas outras vidas.
Quem será que as soprou,
Esculpiu e arquitetou
Com presteza e perfeição
Tudo o que idealizou?
Somos núcleos, somos pontos
A vagar nos perguntando:
Quem será que nos deu
Essa vida que hoje somos?
Vasculhando o conteúdo
Escondido em mil lençóis,
De prazer e de desejos,
De amores e de intenções.
Nossas interrogações
São respondidas
Com nosso próprio eco,
Somos vida.
=========================================================
MINHA HOMENAGEM AO POVO INDÍGENA DO MARANHÃO QUE ESTÁ SENDO DIZIMADO COVARDEMENTE:
O CANTO DO TIMBIRA
De João Batista do Lago
Ó, guerreiros da Nação Timbira,
Onde está Tupã agora!?
Terá Tupã abandonado tua glória,
Ó, guerreiros da Nação Timbira!?
‒ Ouvi-me, povo timbirense,
Vós que sóis o lume da glória
Não vos deixeis intimidar agora
Sabeis que somos todos tabajaras
Sabeis que somos todos guajajaras
Todos somos filhos de Nhanderuvuçu:
Suprema energia de todo Mar’Anhan
Que nos há de garantir vitória cidadã
Ó, guerreiros da Nação Timbira,
Onde está Tupã agora!?
Terá Tupã abandonado tua glória,
Ó, guerreiros da Nação Timbira!?
‒ Ouvi-me, povo timbirense,
Não vos deixeis abater pelo verde-metal
Vossa sina é pisar na cabeça de Anhanguera
Que vos quer roubar toda riqueza imaterial
Que vos quer atolar num pantanal de misérias
Que vos quer subjugar como besta fera
Não vos deixeis enganar pelo neocolonial:
Desgraçada “mão invisível”… riqueza amoral
Ó, guerreiros da Nação Timbira,
Onde está Tupã agora!?
Terá Tupã abandonado tua glória,
Ó, guerreiros da Nação Timbira!?
Ouvi-me, povo timbirense,
‒ índios, negros, pardos, brancos, amarelos, vermelhos,
filhos ou não da nação maranhense ‒ ouvi-me!
‒ É chegada a hora de assumir Nhanderuvuçu:
Juntei-vos uns aos outros… uni vossos corações
Vosso poder existe desde antes do universo
Capaz de vencer por toda eternidade a besta fera
E devolver para os confins do Tártaro o miserável Anhanguera
=============================================
VOZES VORAZES
Eloy Melonio
Vozes famintas de poder e glória
enchem o vazio do céu.
A todo instante, de todas as cores,
nos mais aguados tons da insensatez.
Aos milhões,
elas se vão: zoando, voando, zoando.
No rastro fresco do vento,
atravessam as noites, as estações.
E varam-nos o peito
sem vestígios de claras intenções.
E nessa rota de infames ruídos,
muita gente
sem vez, sem viço, sem voz.
No meio de todo esse vozerio,
um velho poema implora
aos seus versos
que não subvertam a sua essência.
========================================
O ESPELHO E A FACE
Anna Liz
estou aqui. bem aqui sentada
no meio-fio de uma rua qualquer,
penso nas desilusões e me vem
uma vontade de fumar um cigarro
sem qualidade. fecho os olhos e
penso-me inspirando e expirando
aquela fumaça em um movimento
lento de meditação. assim como a fumaça
as desilusões esvaem-se, quisera eu.
olho para o lado esquerdo, talvez seja direito
(não sei, tenho dificuldade com lateralidade),
há um caco de espelho, terei coragem de encará-lo?
ele guarda o segredo da guerra entre o tempo
e a face. neste momento, quero a paz da
face inaudita. alguém me diz que se deve encarar
os medos. a mão titubeia: devo pegá-lo?
o que de mais horrendo poderá haver
neste reflexo, senão a aspereza, a rugosidade,
a face disforme, o olhar sem esperança?
a guerra entre o tempo e a face
é uma guerra perdida...
(Anna Liz)
Mín. 12° Máx. 17°