
*Mhario LIncoln
Quem leu a 6a edição de "Tambores de São Luís", lançada pela editora "Nova Fronteira", no ano de 1985, leu também algo que impressiona e mostra a amplitude poética dessa prosa tão bem construída pelo conterrâneo Josué Montello.
No meu caso, não havia lido nem as orelhas (que abaixo reproduzo o belo conteúdo), nem mais nada. A ansiedade me levou direto para o primeiro capítulo, com um dos inícios de romances mais incríveis, após "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez. Esse início é realmente épico, repito: "Até ali os tambores da Casa-Grande tinham seguido seus passos, e ele via ainda os três tamboreiros, no canto esquerdo da varanda, rufando forte os seus instrumentos rituais, com o acompanhamento dos ogãs e das cabeças, enquanto a nochê Andreza Maria deixava cair o xale para os antebraços, recebendo Toi-Zamadone, o dono do lugar (...)".
Lembram de Márquez? “MUITOS anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo (...)”.
Pois bem! É impossível não se apaixonar, de imediato, por esse introito compassado, erudito, simbólico, carmelita, insinuante e cenográfico, embutindo logo ali, o quanto seria importante nomear seus personagens, que foram muitos, iniciando com a nochê Andreza Maria. Eis o pulo do gato, quando críticos avaliam ser Montello, maior que Aluízio de Azevedo, (obra "O Cortiço"). Sim! A referência é pertinente ao elenco de inúmeros personagens. Por outro lado, a saga de "Tambores de São Luís", segue a linha narrativa de "Guerra e paz", de Tolstoi, com todo aquele vigor épico que a obra de Montello emprega.
Na 4a capa dessa edição de 1985, escreveram: "Considerado pela crítica nacional e estrangeira como ponto culminante da obra romanesca de Josué Montello, OS TAMBORES DE SÃO LUÍS constituem um dos livros básicos de nossa literatura, recompondo a luta épica da raça negra no processo de nossa formação histórica".
Vale ressaltar também, a bela capa de Victor Burten, em cima do óleo sobre tela do artista Cícero Dias - "Interpretação da obra de Josué Montello - os sobrados, as palmeiras e o mar de São Luís".
Magnífica apresentação com conteúdo histórico e insuperável. Mas vamos a apresentação da obra publicada às orelhas do livro:
“(...)
OS TAMBORES DE SÃO LUÍS
Os tambores de São Luís, considerado pela crítica nacional e internacional como um dos grandes romances da literatura de língua portuguesa, é a grande saga do negro brasileiro, nas suas lutas, nos seus dramas e na sua tragédia.
Antes do romance de Josué Montello, tínhamos o romance da Abolição, ou seja: o romance episódico da campanha pela libertação da raça negra. Faltava o romance que, em tom épico, apresentasse toda a saga do negro, desde a sua origem africana, no bojo dos navios negreiros, até a sua assimilação racial, como componente do tipo brasileiro e como elemento básico de sua cultura.
Josué Montello, criado a ouvir o bater dos tambores da Casa das Minas, em São Luís do Maranhão, construiu este romance do negro brasileiro com habilíssimo recurso técnico. Toda a narrativa de Os tambores de São Luís decorre durante uma noite e algumas horas da manhã seguinte. Mas, dentro desse espaço de tempo, que constitui seu arco narrativo básico, outro arco se abre, para conter, ao longo da epopeia romanesca, três séculos de lutas e insurreições negras.
Saudado pela crítica como um marco no conjunto romanesco de seu autor. Também o é na própria literatura brasileira, quer pelo seu tom narrativo, quer pela intensidade dos dramas que aqui se debatem, aliciando o leitor à sua leitura contínua.
Mais de quatrocentos personagens compõem a galeria humana de Os tambores de São Luís. Superior a O cortiço, de Aluísio Azevedo, como elenco de personagens, filia-se este romance à linha narrativa de Guerra e paz, de Tolstoi, com seu vigor épico.
Traduzido o para o francês por Jacques Theriot, para as edições Flammarion, de Paris, este livro foi traduzido para o alemão pelo professor Winfried Kreutzer, que dele fez o tema de sua tese no Instituto de Filologia Românica da Universidade de Wurzburg. Os tambores de São Luís corresponde também ao resgate de uma velha dívida -a dívida contraída para com a raça negra, em nosso país, e que merecia, de nossa literatura, o seu canto em prosa, a sua verdade e a sua denúncia. (…)”.
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