A METAPOESIA DE QUINCAS VILANETO
“A poesia cresce sozinha.
Já vem pronta
Vê-se a todo instante”.
Quincas Vilaneto
Recebi os originais da obra Vila Poesia de Quincas Vilaneto no finalzinho do mês de novembro. Reli muitas vezes com a compreensão de que encontrava ali uma escrita madura, capaz de ampliar a metalinguagem para tons acima das águas normais. O enunciador ao longo dos poemas assume um ethos reflexivo e comprometido com a existência.
É claro que a discursividade de Quincas ocupa muitas avenidas. Ele carrega um existencialismo desconfiado (próprio do nosso tempo). Apresenta, na maioria dos versos, soluções de linguagem com imagens inquietantes.
Autores como Carlos Drummond e Ferreira Gullar trabalharam bem a metapoesia, na literatura brasileira. O autor de Vila Poesia também o faz com extrema consciência. Encontramos num fragmento de Poesia:
Tens me virado
não é de hoje
de cabeça para baixo,
para que daí saíssem as palavras
dadas como válidas
e sem risco de se converterem
em indizíveis, pela mordaça
ante o verbo e a pirraça.
O enunciador mostra-se transformado pelo signo literário. Experimenta as mudanças nas manhãs: “tens me virado/ não é de hoje/ de cabeça para baixo”. Assume, portanto, que fora convertido pelos espantos da palavra.
A confissão fica exposta no antagonismo: “ante o verbo e a pirraça”. O eu lírico se liberta ao ultrapassar essa dicotomia.
Já no trecho do Poema Invocado, temos:
A palavra existe
para nos revelar preciosidades.
Ela nunca deixa de produzir surpresas
e a gente passa o resto da vida sem entender.
A poesia é um exercício de revelação. Em Quincas não tem fórmulas acabadas. Ele inventa os jogos possíveis, dentro desse desejo explícito de colocar em ordem a desordem da vida, até mesmo quando deixa claro que “a gente passa o resto da vida sem entender”.
Chalhub (2002, p.47) comenta: “o poema moderno é crítico nessa dimensão dupla da linguagem – que diz que sabe o que diz”. Há uma constante discussão em torno da poesia, na coletânea. Posso afirmar que na poética de Quincas Vilaneto a metalinguagem organiza a sintaxe da “carpintaria humana”.
O uso da metapoesia espalha densidade filosófica no corpus do opúsculo. É um autor, sem dúvida, que se consagra entre os grandes caxienses.
Paulo Rodrigues, poeta, Ensaísta e Vice-presidente Regional da Academia Poética Brasileira, seccional do Maranhão.
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Quincas Vilaneto (Caxias/MA). Poeta e pesquisador brasileiro. Possui graduação em Administração de Empresas, com pós-graduação em Administração Municipal, sendo Administrador do quadro efetivo da UEMA há muitos anos.
Entre outras publicações, é o autor de Balaio de Ilusões (1997), Itinerário Poético de Caxias (2003), A Lira dos Esquecidos (2006), Tear (2012), Caxias (2014), Empalavrando silêncios (2014) e Ao Pé da Letra (2016). Mora na capital São Luís e é um dos organizadores do sarau Na Pele da Palavra.
É membro efetivo da Academia Caxiense de Letras (ACL) e do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias (IHGC).
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