
IDE E PREGAI
Edmilson Sanches, convidado do Facetubes.
Não sou Cristo, mas estou certo de que meu reino também não é deste mundo. Tenho saído por aí, indo e pregando sobre uma esperança que não sei quando se realiza, um mundo que talvez não se construa. Mas essa é a minha mentira particular, contrapeso e contraponto para uma verdade real que fere, machuca, aniquila e, quase sempre, desguiada, não conduz à Verdade maior, primeira e última, essencial.
Tenho semeado coentros e aroeiras, pois é necessário, em alguns casos, que se colha amanhã o que se plantou ontem -- não pelo resultado da colheita, mas pela necessidade de mais sementes.
Em outros casos, é indispensável semear aroeiras, sequóias e baobás, de antemão sabendo-se que o semeador não colherá, mas o mundo não é feito só de semeadores, mas de quem, depois deles, se acolherá sob a copa das imensas árvores que brotaram, vingaram e, frondosamente, se estabeleceram e montaram guarda ao longo das estradas da vida.
A vida são escolhas, e todos temos de pagar o preço das opções. A alternativa ética, do conhecimento, da pregação utópica, tem cobrado alto dos que a preferem. Não é fácil não acocorar-se em terras de sapo. Não é fácil não dançar conforme a música. É preciso manter seu próprio nome consigo, e não ser um joão-vai-com-os-outros.
Recompensa? Não se sabe. Também não se espera. Pelo menos, não no lado de cá, insustentável pela leveza dos seres e pelo peso dos teres. Onde patrimônios aumentam conforme diminui a personalidade. Onde não se contratam trabalho, mas compram-se pessoas.
Entretanto, se há pessoas que têm preço, ainda existem seres humanos que têm valor. Valor dá-se a gente; preço, dá-se a coisas. E quando gente se coisifica, não recebe título, mas rótulo. O que a distingue é a etiqueta com o cifrão capital, não a tarja com a unção divinal.
Aos que insistem, e não se dobram, a possibilidade de, um dia, do lado de lá, o Ser Superior aproximar-se e, com o polegar untado de santo óleo, fazer o sinal-da-cruz na fronte do ser menor, dizendo-lhe: “Eu o abençôo, meu filho, por, pelo menos, ter tentado o máximo possível aproximar-se da Minha imagem e semelhança”.
Aí, os que não tentaram se prostrarão.
Então, ide. E pregai.
Amém. E amemos.
Bom Ano Novo. (E. SANCHES)
I I I
TU ÉS
É bom completar missão e ano.
É bom estar e sentir-se bem.
Dever a bancos, mas não dever à consciência.
Ser movido a desafio, e não a dinheiro.
Estar na sede do poder, mas não ter sede dele.
Não prejudicar, se não puder ajudar.
Não roubar. Não chantagear. Não iludir.
Abraçar, não apunhalar.
Estender as mãos para auxiliar, não para extorquir.
Elevar, ao invés de fazer cair.
Não buscar fora, no mundo, o que só se acha dentro do próprio ser.
Sobreviver após a vida e, ao ser lembrado, sê-lo com a lágrima, não com o cuspe. Com reconhecimento, não com desmerecimento.
Ser lembrado com saudade. Uma saudade que até possa ser brindada com um sorriso que imortaliza, não com o só riso que ironiza. Uma saudade que diga que valeu a pena a nossa existência.
Assumir, doce e espontaneamente, a ingenuidade. E não se conformar com a esperteza, a malícia, a corrupção, a violência, o desrespeito, que só escavam para si côvados de cova.
Que bom enfrentar as dificuldades -- e que ótimo não criá-las para os outros.
Ser bom. Se possível, ser com.
Ser humilde, mas não humilhado. Ousado, não usado. Viver é incomodar-se, não é acomodar-se.
Ser um ser de esperança; portanto, um ser de inquietudes e angústias sadias.
Ser fúria e ser forte ante a violência menor; mas ser manso e criança ante o Mistério Maior.
Silenciar, quando estratégico; mas gritar, bramir, bradar, rugir, quando indispensável.
Reconhecer-se feito à imagem e à semelhança de Quem o fez, embora sem a perfeição do Bem/Feitor. Ter consciência de que é filho de Deus, não o próprio Deus.
Lembra-te, ó, ser humano: Tu não te tornarás pó -- tu ÉS pó. És berro, és borra, és barro.
És pá, és pé, és pó.
A terra que violentas é tua mãe. O solo que pisas é teu irmão. Tu és homem, tu és húmus.
Entretanto, o essencial de ti não veio com o barro. Veio com o toque cálido dos lábios soprando o sopro vívido de Deus.
Tu és a tua alma. E ela é só o que tu tens -- para, espera-se, devolvê-la, ao final de tudo, a Deus.
Adeus.
Bom 2023. (E. SANCHES)
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