DOG TALK
@Eloy Melonio
Se o compositor Paulinho Mocidade (Mocidade Independente –1992) afirma que "Sonhar não custa nada/ O meu sonho é tão real", por que também nós não podemos "imaginar"?
E, assim, com essa ideia na cabeça, imagino um dia ver os bichos falando. Sim, os bichos. Esses animais que a gente vê por aí e que fazem parte de nossa vida ― à exceção do homem, que, por sinal, já fala demais.
Falo, especificamente, dos animais de estimação, os populares pets: cães, gatos, periquitos, papagaios (Êpa! Papagaio fala ou não fala?). Coelho, pato, camundongo — mas o Pernalonga, o Donald e o Mickey não entram nessa história.
E falo, especialmente, de “conversar”, ou seja, expressar-se por meio das palavras. Dizer sim, dizer não. Pedir pra ficar, pedir pra sair. Afirmar, perguntar, responder. Mesmo que essa conversa, inicialmente, seja numa linguagem infantil, o básico do básico.
Seria uma loucura, você não acha?
Nem tanto. A literatura já nos incutiu que isso pode ser possível. E eu não duvido nada, nem mesmo pelo mero prazer de duvidar. Se a Inteligência Artificial (IA) ― que nem vida tem ― já está fazendo das suas por aí, por que não os bichos?
As fábulas nos mostram como os bichos são inteligentes e sensíveis. Nessas narrativas curtas, somos confrontados com um ensinamento moral ― uma lição de vida ― por animais falantes e sagazes. E, no enredo de cada historinha, uma alusão às nossas imperfeições por meio de construções simbólicas. Ou seja: na ficção, os bichos nos ensinam a fórmula do viver bem, do conviver, e até do sobreviver.
Os animais ― e também algumas categorias de seres humanos ― alcançaram, neste e no século anterior, condições físicas e sociais jamais antes imaginadas. Esses bichos ― os pets em especial ―, já têm carteira de identificação, veterinário especialista, vacinas, lojas (roupas, alimentos), eventos específicos (festas, concursos) e até datas comemorativas, como o Dia Municipal do Gato, em São Luís-MA, celebrado em 17 de fevereiro.
Se você é uma dessas pessoas que duvidam que um animal possa pensar, sentir e “falar”, então leia (ou releia) a acirrada discussão entre Balaão e sua jumenta, que se desenrola no livro bíblico de Números (22:21–23:30).
Outro exemplo ― esse ficcional ― está no romance distópico “A Revolução dos Bichos” (1945), do inglês George Orwell, livro que, inclusive, figura na lista dos “cem melhores romances de língua inglesa”, da revista TIME.
Entre os exemplos de animais inteligentes na ficção, o que mais me marcou foi Planeta dos Macacos, filme de 1968. Já era fã de Charlton Heston (Moisés, em “Os Dez Mandamentos”, de 1956), que agora interpretava George Taylor, o astronauta sobrevivente da tripulação de uma missão espacial, após uma aterrissagem desastrosa num planeta dominado por macacos. Taylor tinha de enfrentar o doutor Zaius, um orangotango, e o general Urko, um gorila ― os únicos que sabiam que os macacos se originaram dos humanos e tentavam manter esse segredo a todo custo.
De bicho em bicho, de argumento em argumento, chegamos a minha coleguinha full-time, com a qual mantenho muitos papos e brincadeiras. Agora estou falando da Fany, a nossa cadela poodle de dois anos e meio.
E, assim, o nosso desfile na passarela da interação-interlocução começa às 5h30. Levanto da cama, e ela já me encara. Às 6h, tenho de levar a minha neta ao local onde ela toma o ônibus de sua empresa. E a Fany comigo, no carro. Daí em diante, segue meus passos pela casa. Nesse embalo, seguimos durante todo o dia. Quando me sento à mesa para escrever meus textos, ela logo se apresenta, querendo deitar-se ao lado do meu notebook e me fazer companhia. Pode parecer exagero, mas, às vezes, peço-lhe sugestões. Por isso ganhou o carinhoso apelido de “secretária”. Até a “apoteose” (23h), quando decido que é hora de dormir, ela não desgruda de mim.
Acho que você já percebeu que a Fany é inteligente e literalmente sociável. Podia dar vários exemplos para comprovar essa afirmação. Mas não é disso que quero falar. A intenção aqui é revelar nossas conversas.
Acredite se quiser: eu e a Fany mantemos uma intensa relação sóciocomunicativa. E isso não é coisa do outro mundo nem da ficção. Não é só a jumenta de Balaão, ou o Porco Major de Orwell, ou a Dra. Zira, de Planeta dos Macacos, ou as personagens das fábulas de Monteiro Lobato que sabem se comunicar.
Então vamos ao que interessa.
Na janela do carro, observando tudo:
― Fany, olha os pombinhos! Não são bonitinhos?
― Num acho não, fô. Esses bichos são nojentos. Fifem comendo coisas do chão.
― Mas, Fany, eles não têm ninguém para lhes dar comida!
― Tá bom, fô. Eles são bonitinhos... mas são nojentinhos também.
Pego a coleira, e digo:
― Famo dar uma foltinha?
― Famo, famo! Chama a fofó também. Mas eu não quero passar na porta daquela tal de Amora (uma shih-tzu vizinha da Fany). Ela é chata e briguenta.
― Tá bom! Então famo pelo outro lado da rua.
No carro ou à pé, latindo pra Deus e o mundo:
― Fany, para com isso! Focê não acha que está exagerando?
― Mas, fô, essas pessoas são chatas. Ficam me olhando, me olhando.
São muitos diálogos. Em situações e momentos diferentes, mas sempre em tom de brincadeira, uma dog-curtição de dar inveja. Essas conversas mágicas são possíveis porque a Fany tem um dublador, assim como a Lady, de “A Dama e o Vagabundo”, clássico da Disney.
Essa mania de conversar com meus “bichos” não é nova. Já fazia isso com Foguinho, um doberman marrom que recolhi da rua ainda filhote. Mas, nessa época (2010), só eu falava. E era em inglês! Hoje o Léo e a Candoca também falam. O problema é que sempre cantam, respectivamente, o mesmo mantra: "Fica cumigo"; "Urupaco papaco".
Não sou da mesma espécie da Fany, mas nossa “dog talk” é real e relevante. E essas conversas são a mais pura realidade. Porque traduzo para o português o que leio nos seus olhos, com a certeza de que é isso mesmo o que ela quer dizer. Minhas palavras apenas materializam a realidade, assim como o latido de um cão de guarda denuncia a presença de um estranho.
E o melhor de tudo é a minha recompensa: três ou quatro lambidas no nariz.
Longe de ser um polímata da estirpe de Diderot (1713-1784), não deixo de sonhar ou “imaginar” que as futuras gerações tenham esse privilégio de conversar com seus pets.
Por enquanto, diante dessas cenas explícitas, acho que você agora pode acreditar: não apenas imagino os animais falando, mas "vivencio" essa possibilidade todos os dias.
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Eloy Melonio é contista, cronista, letrista e poeta.
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