
Convidado: Gabriel Barros. "E Não Sobrou Nenhum", de Agatha Christie
Oito pessoas bem comuns, mas que não se conhecem, são convidadas a passar um tempo na ilha do Soldado, península recém-adquirida pelo milionário U. N. Owen. Na chegada, o casal de funcionários informa que o anfitrião iria se atrasar naquela noite. No entanto, após o jantar, uma voz misteriosa revela o motivo daquele encontro: cada pessoa presente cometeu um crime e saiu impune, portanto todos serão julgados e sentenciados. Aos poucos, mortes vão ocorrendo de acordo com os versos de um poema infantil, chamado Os Dez Soldadinhos, enquanto tentam conviver com a existência de um assassino entre eles e tentam planejar uma saída da ilha antes que não sobre nenhum para contar a história.
Essa é a premissa de E Não Sobrou Nenhum (Globo, 2014 - Tradução de Renato Marques de Oliveira), livro da autora Agatha Christie¹ (1890 - 1976), a Rainha do Crime da literatura de romance policial. A obra, publicada em 1939, é considerada pelos fãs como a melhor já escrita por Agatha, inclusive em votação feita no site da autora em 2015. São 399 páginas e 16 capítulos de suspense e mistério que só a Rainha do Crime era capaz de construir.
Cada personagem é apresentado individualmente no primeiro capítulo. O leitor conhece seus pensamentos, passados, motivos e suas personalidades, que vão ganhando forma ao longo da leitura. Não são nomes fáceis de decorar, algumas vezes os personagens são chamados pelo nome completo - Vera Claythorne e Philip Lombard - ou pelo sobrenome acompanhado da profissão ou termo cordial - juiz Wargrave, general McArthur e mr. Rogers, por exemplo - o que pode causar confusão no início. Entretanto, há um apego rápido aos protagonistas graças à forma como Agatha Christie narra a história, não se fixando em um personagem, mas em vários e por vezes de forma simultânea - durante uma conversa, a narração conta as impressões dos personagens envolvidos.
Esse estilo de narrar também cria uma desconfiança sobre eles, um elemento que ajuda na construção do suspense. O leitor, sabendo da existências dos crimes no passado e que apenas aquele grupo de dez pessoas está na ilha, além da tensão crescendo à medida que o número de suspeitos reduz, fica se perguntando: Quem pode ser a próxima vítima? Em quem se pode confiar? Quem é o verdadeiro culpado?
Tantas perguntas e suposições criam uma imersão tão grande que é possível o leitor se sentir como um décimo primeiro personagem, aquele que testemunha e sabe de todos os passos dos 'soldadinhos'. Ou pensa saber, já que outro elemento usado por Agatha Christie é o de pistas falsas, induzindo a suspeita em determinados personagens quando, paradoxalmente, sutis referências já indicavam o real culpado.
Como não há um detetive no estilo de Hercule Poirot, inteligente, astuto e atento aos detalhes, o final é intenso e repentino, deixando pontas soltas, logo amarradas no epílogo de duas partes. Apesar de expositivo, repetindo os mesmos eventos que acabaram de ser lidos, o epílogo apresenta uma solução criativa e muito surpreendente, enganando até os mais experientes na literatura de romance policial.
E Não Sobrou Nenhum é um ótimo e intrigante livro de suspense e mistério, trazendo Agatha Christie no auge da criatividade e da sagacidade como autora, aprimorando os elementos que a tornaram em uma das principais escritoras do século XX.
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