
1823—20223 – Bicentenário de Gonçalves Dias (3)
PARA CONHECER MAIS -- E MELHOR -- GONÇALVES DIAS
São 200 anos de nascimento do poeta e 180 de composição da mais conhecida poesia brasileira, a “Canção do Exílio”
Em todo o País lembra-se que neste 2023 completam-se 200 anos de nascimento do mais brasileiro dos poetas brasileiros -- Antônio Gonçalves Dias, maranhense de Caxias. A plataforma Facetubes homenageia o Cantor dos Timbiras e da “Canção do Exílio” com uma série de textos, sob responsabilidade de Edmilson Sanches, também filho de Caxias, que residiu na mesma rua do Poeta, a uma quadra da casa onde morou o menino Gonçalves Dias. Sanches é membro das Academias de Letras de Imperatriz, Caxias, Açailândia, João Lisboa, Buriticupu e Santa Inês, da Academia Maranhense de Ciências e do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM) e de Caxias (IHGC), além de membro, titular ou correspondente, de Academias de Letras nos estados do Pará, Espírito Santo e São Paulo e dos Estados Unidos.
INTRODUÇÃO - Em conferências nacionais, em encontros regionais, em palestras locais, em discursos ocasionais, em eventos formais, em “provocações” casuais ou em bate-papos triviais, dou um jeito de fazer um “teste”: crio um pretexto dentro do contexto e digo, falsamente desafiador, o primeiro verso da “Canção do Exílio” (“Minha terra tem palmeiras”)... somente para, logo em seguida, perceber/receber os sorrisos cúmplices da plateia de ouvintes não maranhenses, o que denuncia que todos estavam continuando mentalmente –– quando não recitando audivelmente –– o verso seguinte: “Onde canta o sabiá”.
Daí em diante fica fácil puxar ou esticar conversa acerca de Literatura, de Cultura, dos “verdadeiros valores” da pessoa e das comunidades humanas. Dizer da permanência do que tem valor e da finitude do que tem preço. Preço, dá-se a coisas. Valor, dá-se a pessoas. Os versos gonçalvinos entram como exemplo de um “valor” que se sobrepõe a muitas “coisas”. Apesar da fragilidade do papel, os versos foram mais resistentes que as grandes construções de pedra e cimento, como as fábricas de tecido. Estas, aparência; aqueles, essência –– e por aí podem ir as obviedades, quase platitudes.
Escritos em julho de 1843, quando Gonçalves Dias ainda não completara 20 anos, os versos da “Canção do Exílio” atravessam gerações e se depositam e se (re)transmitem quase como que por hereditariedade. Parece não mais ser essa fixação resultado da leitura, mas produto de um código genético, uma informação cromossômica que se repassa no intercurso sexual e se vai instalando na mente de cada novo ser humano brasileiro.
Seja em gente da antiga, seja no jovem de hoje, a poesia cometida em Coimbra está inscrita na memória das várias gerações de brasileiros dos últimos 180 anos. Ainda que, ressalve-se, em grande número de vezes, nunca esteja o poema inteiro, de 24 versos, 5 estrofes, 113 palavras, 487 letras.
Mas aqueles dois primeiros versos, quando não toda a primeira estrofe, não há negar: está na cabeça, melhor, está na alma do brasileiro.
Na cidade de Caxias, mais que um poeta, nasceu uma expressão de maranhensidade e de brasilidade. Muito da obra de Gonçalves Dias mostra de peito aberto o amor, o orgulho, o sentimento de pertença (ownership) que o poeta desenvolvia pela sua própria terra. Quantos, hoje, manifestamente, denunciam assim orgulhosa e escancaradamente essa emoção telúrica, essa querença pátria?
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A plataforma Facetubes vem publicando matérias especiais sobre Antônio Gonçalves Dias, o poeta, escritor e pesquisador maranhense, nascido em Caxias em 1823. Hoje, amplia-se aquele material, com indicações bibliográficas raras.
Além de marcar os 200 anos de nascimento de Gonçalves Dias, o ano de 2023 marca também os 180 anos de composição de sua mais conhecida obra: a “Canção do Exílio”, poema escrito em julho de 1843 que abre o livro Primeiros Cantos (que é constituído de três partes “Poesias Americanas”, “Poesias Diversas” e “Hinos”). A “Canção do Exílio” tem 24 versos, 5 estrofes, 113 palavras e 487 letras.
Há 20 anos, no dia 15 de agosto de 2003, a Academia Caxiense de Letras realizou reunião dedicada à memória de Gonçalves Dias. Nesse dia, oito dos novos dez membros tomaram posse. Centenas de pessoas lotaram o auditório e as diversas dependências do prédio próprio da Academia, na rua 1º de Agosto, que leva ao histórico Morro do Alecrim igualmente cantado pelo Poeta. Naquele dia ainda, pelo menos três novos livros de autores caxienses foram lançados. A cidade de Caxias teimava em manter -- guardadas as devidas proporções -- a tradição de produtora de Literatura e Cultura.
Hoje, apresentam-se cinco obras de e sobre Gonçalves Dias. Inclusive um volume raro, cuja encadernação reúne dois exemplares da edição alemã da F. A. Brockhaus (Leipzig, 1865), contendo os “Primeiros Cantos”, “Segundos Cantos”, “Novos Cantos” e “Últimos Cantos”. Esse volume foi colocado à disposição por um colecionador de um país de língua espanhola e estava no catálogo de obras raras de uma das maiores livrarias norte-americanas. Embora o alto custo da obra, esforços foram feitos para que esse volume tornasse às terras maranhenses.
1865 – CANTOS - Com o título “Cantos, Collecção de Poesias de A. Gonçalves Dias”, foram publicados em 1865 dois “tomos”, pelo editor F. A. Brockhaus, de Leipzig, Alemanha. Gonçalves Dias falecera no ano anterior, em 3 de novembro de 1864. O volume reúne os dois tomos, cujos exemplares da “quarta edicção”. Na capa do “tomo primeiro” registra-se que vem “com o retrato do autor”. Os livros fazem parte da “Colecção de Autores Portuguezes” e tem “prólogo” de A. [Alexandre] Herculano, datado de 30 de novembro de 1847. O primeiro tomo tem 218 páginas e o segundo, 236, formato 11,5 cm X 18 cm.
1957 – POESIAS - Em 1957 foi publicada a obra “Poesias Completas”, por Saraiva Livreiros Editores, de São Paulo. Tem introdução de Mário da silva brito e organização, revisão e notas de Frederico José da Silva Ramos. O exemplar que temos é da 2ª edição. A obra faz parte da coleção “Estante da Poesia Brasileira” e tem 1.042 páginas, formato 9,5 cm X 15,5 cm. Além dos quatro “Cantos” (“Primeiros”, “Segundos”, “Novos” e “Últimos”), traz Os Timbiras, “Outras Poesias”, “Versos Póstumos” e “Poesias Traduzidas”.
1959 – POESIA E PROSA - Em 1959 sai a obra “Poesia Completa e Prosa Escolhida”, pela Editora José Aguilar, do Rio de Janeiro. Além de nota editorial de Afrânio Coutinho, traz estudos de Manuel Bandeira, Antônio Houaiss e Alexandre Herculano e mais cronologia da vida e obra do poeta e acervo iconográfico. O exemplar que temos é da 1ª edição. Além das obras já citadas dos outros volumes, traz também a obra teatral “Leonor de Mendonça” e mais “Prosa Escolhida”, “Correspondência” e o “Dicionário da Língua Tupi, Chamada Língua-Geral dos Indígenas do Brasil”. O volume contém bibliografia e, além de índice geral, um “Índice de primeiros versos”, que facilita a localização de um poema pela lembrança de seu verso inicial. A obra foi impressa em papel-bíblia e tem 926 páginas, formato 12 cm X 18 cm.
1998 – COMPLETA
Em 1998 a Editora Nova Aguillar reedita sua obra de 1959, agora com o nome de “Poesia e Prosa Completas”. O volume foi o destaque da Bienal do Livro. A organização é do escritor Alexei Bueno, que manteve apenas os estudos de Manuel Bandeira, mas traz a obra teatral enriquecida: além de Leonor de Mendonça, incluem-se as peças “Patkull”, “Beatriz Cenci” e “Boabdil”. A correspondência e a iconografia também foram enriquecidas. O volume tem 1.245 páginas em papel-bíblia, formato 11,5 cm X 17,7 cm. O exemplar que temos é da 1ª edição. (EDMILSON SANCHES)
Canção do Exílio
(Antônio Gonçalves Dias)
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
(Coimbra - Julho 1843)
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