ARGUMENTO E IMAGINAÇÃO
Pra começo de conversa, que tal captar o grito sonoro de Paulinho da Viola: “Tá legal, eu aceito o argumento”.
Nessa canção (Argumento/1975), o compositor carioca percebe que alguma coisa soava “estranha” com um tipo de samba que andavam fazendo naqueles dias. Espírito sensato, ele entende a novidade e, ao mesmo tempo, propõe ― quase implorando ― uma adequação: “Mas não me altere o samba tanto assim”.
Com essa proposta conciliatória, o autor de "Foi um rio que passou em minha vida" (1970) até aceita a tal "inovação", desde que não seja algo assim tão exagerado.
Parece-me razoável que a música de hoje seja diferente da música dos anos 80 ou 90. Muita coisa mudou; ou melhor, foi mudando ao longo do tempo. Gostando ou não, a gente vai se adaptando aos novos ritmos e temáticas. Alguns dos primeiros a sentir a novidade geralmente reagem, mesmo quando dizem “Tá legal!”. Isso acontece nos costumes, na moda, na arte. O violão, por exemplo, já foi marginalizado "(...) devido a ser o instrumento preferido dos boêmios, levando o título de 'coisa de vagabundo'. No entanto, esse fato já foi superado” (InfoEscola).
Viu aí?! Su-pe-ra-do.
Ainda nessa vibe musical, Vinicius de Moraes defende que “pra fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza”. Esse contraste parecia saudável aos ouvidos daquela época (e ainda hoje, por que não?). Paulo César Pinheiro, outro monstro da poética musical, reitera a ideia do nosso poetinha: “Eu tenho saudade/ Dos sambas de antigamente/ Quando o samba deixava/ Uma vaga tristeza/ No peito da gente”. Caetano Veloso põe mais lenha na fogueira: “A tristeza é senhora/ Desde que o samba é samba é assim”. E apela para uma razão harmoniosa: “Cantando eu mando a tristeza embora”.
Nesse mesmo tom, o saudosismo se exalta na rima do próprio samba: “Tempo bom não volta mais/ Saudade de outros tempos iguais” (Tempo Bom/1970, Lilico e Grande Otelo).
Hoje o samba anda mais solto, mais alegre, mais brincalhão. E mais voltado para a fluidez da vida. Tem de tudo no terreiro de Iaiá: desde o “camarão dorminhoco à mulher que bebe todas”. E os saudosistas seguem a banda de Chico Buarque: “a gente vai levando”. Mesmo que seja com “um nó no peito, com a cara dura”.
Na palma da mão, o samba e o pagode se mantêm amigos, mas cada um no seu quadrado. E, havendo oportunidade, Pagodinho e Tiaguinho podem se sentar à mesa de qualquer barzinho e comandar uma roda de samba para celebrar o momento: “Quero chorar o teu choro/ Quero sorrir teu sorriso/ Valeu por você existir, amigo” (A Amizade/1991, grupo Fundo de Quintal).
Nada a reclamar da inovação em qualquer área (ciência, arte, estilo de vida), pois ela está entre nós desde os tempos dos sapiens. Nem dos movimentos de resistência, que trabalham para fortalecer o que já tem uma estrada pavimentada com “chuva, suor e cerveja” (Caetano Veloso).
Bons exemplos não faltam em nossa cidade. Dos tradicionais: Tributo ao Rei do Baião ― um festival que promove o forró (e ritmos similares) há 18 anos, organizado pelo vereador Marcial Lima ― e que atrai muita gente. E o Resistência Reggae, que acalenta a sensibilidade do gênero musical que nomeou São Luís do Maranhão "a capital brasileira do reggae". Quanto aos inovadores, ah, esses são muitos, e atraem multidões.
Subindo a ladeira da incoerência para chegar ao morro da insatisfação, um grupo canta uma versão feminista da consagrada “Mulheres” (Toninho Gerais/1995), popularizada na voz de Martinho da Vila. Invertendo o texto como quem muda os móveis de uma sala, as compositoras tentam consertar um erro que não errou em nada, interpretando a canção ao pé da letra. E, aí, parece que pisaram feio na casca das palavras, confundindo o "eu-lírico" com um "eu-qualquer". Se fizerem isso com as músicas que supostamente ofendem as mulheres, vai faltar tempo e sobrar música. E eu, humildemente, ousarei pedir-lhes que poupem a "Amélia" de Ataulfo Alves e Mario Lago (1941).
E se, de repente, os ultramodernos se manifestarem para repudiar “erros ou enganos” do passado (artísticos ou não). No Israel de hoje, um grupo de ortodoxos questionando a decisão de Deus em não permitir que Moisés entrasse na terra prometida. Em Roma, feministas exigindo do papa punição aos atiradores de pedras nas mulheres adúlteras da época de Jesus.
Criticar a arte é tarefa do crítico de arte, que tem o preparo, o discernimento e os critérios próprios do ofício. Aos leigos, a arte pode ser uma armadilha. Aos críticos, "a mentira que nos permite conhecer a verdade" (Picasso). Num último passo, um piso escorregadio para se dançar sem os sapatos adequados.
Nesse contexto, imagino a insatisfação de Monteiro Lobato se soubesse o que estão fazendo com suas obras, cujas personagens ainda encantam leitores de todas as idades. O motivo: palavras, frases e situações qualificadas de racistas. É a arte sendo julgada e subjugada por uma visão política em detrimento de seu valor literário. Imagino que notas de rodapé e/ou explicações sobre o contexto histórico-social seriam suficientes para justificar essa questão.
Da tribuna do empoderamento, uma manchete no site da Assembleia Legislativa do Espírito Santo destaca: “Professora cria academia de letras fora do tradicional ― Academia Capixaba de Letras da Diversidade”. Seu argumento: “oportunidade para quem não consegue entrar nas academias tradicionais por conta de estereótipos”. Nessa onda revolucionária, o caráter “literário ou artístico” típico de uma academia convencional cede lugar ao espírito ideológico. Exatamente o que um amigo meu — doutor em Teoria da Literatura — defende: “(...) a ponderação ainda é necessária, sobretudo na verdadeira arte, que não pode ser feita de qualquer jeito”. E complementa: “Literatura, sempre digo, não é sociologia”.
Em tal circunstância, chego a imaginar — sem um pingo de ironia — uma academia só de palhaços. É que palhaços fazendo graça para outros palhaços não tem graça nenhuma.
Imagino também uma cena com Simão Bacamarte, protagonista de “O Alienista” (Machado de Assis/1881), tentando instalar o “reinado da razão” nestes tempos sombrios. A Casa Verde ficaria entupida com essa galera que tece uma pauta recheada de demandas injustificáveis.
Para onde aponto os olhos e abro os ouvidos, uma muvuca de gente com ideias estranhas e esquisitas. E, inevitavelmente, um jargão da idade do vento sopra aos meus ouvidos: “O mundo tá de cabeça pra baixo”.
Em qualquer situação, há de se “imaginar um argumento” consistente para se aprovar ou contestar uma opinião, ação ou atitude.
Se tiver de contestar algo que não aprova ou de que não se agrada, não esqueça a elegância de Paulinho da Viola: “Tá legal. Eu aceito o argumento”.
Nem da conjunção adversativa antes da sua contestação.
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Eloy Melonio é contista, cronista, letrista e poeta.
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