
HÁ 155 ANOS UM POEMA ANÔNIMO PARA GONÇALVES DIAS
Em todo o País lembra-se que neste 2023 completam-se 200 anos de nascimento do mais brasileiro dos poetas brasileiros -- Antônio Gonçalves Dias, maranhense de Caxias. A plataforma FACETUBES homenageia o Cantor dos Timbiras e da “Canção do Exílio” com uma série de textos, sob responsabilidade de Edmilson Sanches, também filho de Caxias, que residiu na mesma rua do Poeta, a uma quadra da casa onde morou o menino Gonçalves Dias. Sanches é membro de Academias de Letras no Maranhão, Pará, Espírito Santo, São Paulo e Estados Unidos e membro da Academia Maranhense de Ciências, do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias.
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Não tenho notícias de que o autor foi revelado ou que alguém tenha assumido a autoria da composição; mas há 155 anos, de 1868 para cá, guarda-se anônimo, em três páginas de uma rara obra, um poema de oito estrofes e 72 versos heptassílabos dedicado ao poeta maranhense -- de Caxias -- Antônio Gonçalves Dias.
Como título, o poema tem apenas o nome “Gonçalves Dias”. A rara obra que o publicou é o “Almanach de Lembranças Brazileiras”, de 1868, de outro caxiense de grande valor, César Augusto Marques, médico, professor, tradutor , escritor e historiador dos mais citados, nascido em Caxias, em 12 de dezembro de 1826, falecido no Rio de Janeiro, em 5 de dezembro de 1900.
Aquele1868 foi o terceiro ano que saiu o referido “Almanach”, cuja publicação regular se iniciou em 1861, continuou em 1862 e, depois de uma ausência de sete anos, apresentou sua terceira -- e, pelo que se sabe, última -- edição em 1868.
O poema ocupa as páginas 304,305 e 306 do livro, que tem 381. Na página 303, César Marques escreveu um texto (transcrito abaixo com atualização ortográfica), cercado por moldura e encimado pela figura de uma cruz:
“NOVEMBRO 3 – 1864
“Neste dia o Brasil sentiu irreparável perda com o falecimento do exímio poeta Caxiense
“DR. ANTÔNIO GONÇALVES DIAS.
“Vinha do Havre a bordo da barca ‘Ville de Boulogne’, a qual batendo nos baixios dos Atins, nas costas de Guimarães, próximos ao Farol do Itacolumi, aí perdeu-se inteiramente, e com ela a vida e até o corpo do grande poeta, apesar dos esforços do governo e dos seus amigos, a cuja frente sempre esteve o meu talentoso e ilustrado colega Doutor Antônio Henriques Leal, digno de todo o elogio pelos seus esforços, muita dedicação, excessivo zelo e verdadeira amizade para com o ilustre naufragado”.
Ao final do poema, além do local em que indica onde foi feito (no caso, o estado: “Maranhão”), César Augusto Marques colocou asterisco logo ao final do último verso e, em remissão, deu as seguintes explicações acerca do anonimato:
“Sentimos não poder declinar o nome do mavioso poeta, autor destes lindos versos, que ainda há pouco esteve altamente colocado entre nós.
“Se, porém, a sua excessiva modéstia não permitiu que seu nome abrilhantasse, conjuntamente com outros, esta obra, os seus harmoniosos versos, patenteando ainda uma vez o seu vigoroso talento e a sua esclarecida inteligência, descobrirão facilmente o seu autor.”
Pelo visto, seja por desconhecimento da obra ou não interesse em pesquisar o assunto, até agora não se sabe -- ou pelo menos EU não sei... entre tantas e infinitas coisas que desconheço – quem é o autor do poema.
Quem souber, quem tiver uma pista, cartas para a redação. ([email protected]).
Enquanto isso, vamos ler o poema (em cuja transcrição, neste caso, achei por bem preservar a ortografia da época mais que sesquicentenária).
“GONÇALVES DIAS”
“No mar, bem perto da plaga
a que saudoso corrias,
a luz do sol de teus dias
da morte sopro se apaga.
Aquelle infinito imperio,
do naufragio no mysterio,
servio-te de cemiterio,
de sepultura – uma vaga.
Não ha jamais divisa-la;
na azul extensão equorea
cruz, nem cypestre a assignala,
e nem lapide marmorea.
Teu corpo a insondável valla
sumio, mas ficou-te a gloria.
Que gloria a tua, poeta!
Foste o louco que interpreta
da lyra aos meigos tangeres,
ao queimar da inspiração,
á doçura dos prazeres,
as lagrymas da tristeza;
as voses da natureza;
os sonhos do coração.
Oh que gloria! – Tu roubaste
ás estrelas os seus lumes;
ás flores os seus perfumes
os mais embriagadores;
ao arco-iris tomaste
as suas mais lindas côres;
do oceano copiaste
a sombria magestade;
as iras da tempestade
e da bonança os encantos;
e do accôrdo ou do contrate
de prodígios taes e tantos,
tu, poeta, derivaste
a riqueza de teus cantos.
Teus cantos, d’alma entornados,
são doces como os gabados
favos de nossas colmeias;
são puros como o arminho,
que foge do tremedal;
são ternos como os trinados
que fora do molle ninho
tu, sabiá, garganteias
nos leques do jussaral.
Ama-os a virgem pudica,
que a scismar n’elles reflecte
e que extasiada fica,
se a seu piano os repete.
Ama-os o pobre operario,
livre do frio desgôsto,
se o trabalho – no regaço
lança-lhe o pão necessário:
tal os versos de Ariosto
ama o vivo gondoleiro,
ou as estancias de Tasso
napolitano barqueiro.
Tua musa, bella e jovem,
antes parece uma fada
em nuvens de oiro embalada
ou nos aromas que chovem
as flores da madrugada.
Descuidosa ella revela
muita coisa sancta e bela
a quem fundo sente e pensa:
a luz nascendo da estrela;
do amor nascendo a ventura;
da fé a esperança pura;
da virtude a recompensa.
Cantaste pátria e amores,
do mundo inteiro os primores,
ó poeta peregrino,
dos poetas corypheu.
Completou-se o teu destino,
e o teu mais formoso hymno,
aos pés do throno divino,
foste entoar lá no ceu!
Maranhão.”
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Edmilson Sanches
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