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Edmilson Sanches: "Bicentenário de Gonçalves Dias ( 1823-2023) - V"

Mais uma gloriosa matéria de nosso insigne colaborador sobre Gonçalves Dias.

16/05/2023 às 11h02
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edmilson Sanches
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Edmilson Sanches
Edmilson Sanches

 

HÁ 155 ANOS UM POEMA ANÔNIMO PARA GONÇALVES DIAS

Em todo o País lembra-se que neste 2023 completam-se 200 anos de nascimento do mais brasileiro dos poetas brasileiros  --  Antônio Gonçalves Dias, maranhense de Caxias. A plataforma FACETUBES homenageia o Cantor dos Timbiras e da “Canção do Exílio” com uma série de textos, sob responsabilidade de Edmilson Sanches, também filho de Caxias, que residiu na mesma rua do Poeta, a uma quadra da casa onde morou o menino Gonçalves Dias. Sanches é membro de Academias de Letras no Maranhão, Pará, Espírito Santo, São Paulo e Estados Unidos e membro da Academia Maranhense de Ciências, do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias.

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***

        Não tenho notícias de que o autor foi revelado ou que alguém tenha assumido a autoria da composição; mas há 155 anos, de 1868 para cá, guarda-se anônimo, em três páginas de uma rara obra, um poema de oito estrofes e 72 versos heptassílabos dedicado ao poeta maranhense  -- de Caxias --  Antônio Gonçalves Dias.

 

Como título, o poema tem apenas o nome “Gonçalves Dias”. A rara obra que o publicou é o “Almanach de Lembranças Brazileiras”, de 1868, de outro caxiense de grande valor, César Augusto Marques, médico, professor, tradutor , escritor e historiador dos mais citados, nascido em Caxias, em 12 de dezembro de 1826, falecido no Rio de Janeiro, em 5 de dezembro de 1900. 

 

Aquele1868 foi o terceiro ano que saiu o referido “Almanach”, cuja publicação regular se iniciou em 1861, continuou em 1862 e, depois de uma ausência de sete anos, apresentou sua terceira  -- e, pelo que se sabe, última --  edição em 1868.

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O poema ocupa as páginas 304,305 e 306 do livro, que tem 381. Na página 303, César Marques escreveu um texto (transcrito abaixo com atualização ortográfica), cercado por moldura e encimado pela figura de uma cruz: 

 

“NOVEMBRO 3 – 1864

“Neste dia o Brasil sentiu irreparável perda com o falecimento do exímio poeta Caxiense

 

“DR. ANTÔNIO GONÇALVES DIAS.

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“Vinha do Havre a bordo da barca ‘Ville de Boulogne’, a qual batendo nos baixios dos Atins, nas costas de Guimarães, próximos ao Farol do Itacolumi, aí perdeu-se inteiramente, e com ela a vida e até o corpo do grande poeta, apesar dos esforços do governo e dos seus amigos, a cuja frente sempre esteve o meu talentoso e ilustrado colega Doutor Antônio Henriques Leal, digno de todo o elogio pelos seus esforços, muita dedicação, excessivo zelo e verdadeira amizade para com o ilustre naufragado”.

 

O “Almanch de Lembranças Brazileiras”, de 1868
(do acervo de Edmilson Sanches).

Ao final do poema, além do local em que indica onde foi feito (no caso, o estado: “Maranhão”), César Augusto Marques colocou asterisco logo ao final do último verso e, em remissão, deu as seguintes explicações acerca do anonimato:

 

“Sentimos não poder declinar o nome do mavioso poeta, autor destes lindos versos, que ainda há pouco esteve altamente colocado entre nós.

 

“Se, porém, a sua excessiva modéstia não permitiu que seu nome abrilhantasse, conjuntamente com outros, esta obra, os seus harmoniosos versos, patenteando ainda uma vez o seu vigoroso talento e a sua esclarecida inteligência, descobrirão facilmente o seu autor.”

 

        Pelo visto, seja por desconhecimento da obra ou não interesse em pesquisar o assunto, até agora não se sabe  -- ou pelo menos EU não sei... entre tantas e infinitas coisas que desconheço – quem é o autor do poema.

 

Quem souber, quem tiver uma pista, cartas para a redação. ([email protected]).

 

Enquanto isso, vamos ler o poema (em cuja transcrição, neste caso, achei por bem preservar a ortografia da época mais que sesquicentenária).

 

“GONÇALVES DIAS”

 

“No mar, bem perto da plaga

a que saudoso corrias,

a luz do sol de teus dias

da morte sopro se apaga.

Aquelle infinito imperio,

do naufragio no mysterio,

servio-te de cemiterio,

de sepultura – uma vaga.

 

Não ha jamais divisa-la;

na azul extensão equorea

cruz, nem cypestre a assignala,

e nem lapide marmorea.

Teu corpo a insondável valla

sumio, mas ficou-te a gloria.

 

Que gloria a tua, poeta!

Foste o louco que interpreta

da lyra aos meigos tangeres,

ao queimar da inspiração,

á doçura dos prazeres,

as lagrymas da tristeza;

as voses da natureza;

os sonhos do coração.

 

Oh que gloria! – Tu roubaste

ás estrelas os seus lumes;

ás flores os seus perfumes

os mais embriagadores;

ao arco-iris tomaste

as suas mais lindas côres;

do oceano copiaste

a sombria magestade;

as iras da tempestade

e da bonança os encantos;

e do accôrdo ou do contrate

de prodígios taes e tantos,

tu, poeta, derivaste

a riqueza de teus cantos.

 

Teus cantos, d’alma entornados,

são doces como os gabados

favos de nossas colmeias;

são puros como o arminho,

que foge do tremedal;

são ternos como os trinados

que fora do molle ninho

tu, sabiá, garganteias

nos leques do jussaral.

 

Ama-os a virgem pudica,

que a scismar n’elles reflecte

e que extasiada fica,

se a seu piano os repete.

Ama-os o pobre operario,

livre do frio desgôsto,

se o trabalho – no regaço

lança-lhe o pão necessário:

tal os versos de Ariosto

ama o vivo gondoleiro,

ou as estancias de Tasso

napolitano barqueiro.

 

Tua musa, bella e jovem,

antes parece uma fada

em nuvens de oiro embalada

ou nos aromas que chovem

as flores da madrugada.

Descuidosa ella revela

muita coisa sancta e bela

a quem fundo sente e pensa:

a luz nascendo da estrela;

do amor nascendo a ventura;

da fé a esperança pura;

da virtude a recompensa.

 

Cantaste pátria e amores,

do mundo inteiro os primores,

ó poeta peregrino,

dos poetas corypheu.

Completou-se o teu destino,

e o teu mais formoso hymno,

aos pés do throno divino,

foste entoar lá no ceu!

Maranhão.”

----------------------------------

Edmilson Sanches

[email protected]

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Sobre o blog/coluna
Edmilson Sanches é um dos intelectuais brasileiros mais aplaudidos em diversas áreas da literatura contemporânea. É jornalista, consultor, palestrante, editor, bacharel em administração pública e licenciado em letras.
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